Roubo de carros elétricos e híbridos cresce 144% no Rio e preocupa autoridades

Crimes disparam em 2026 e envolvem uso dos veículos por membros de facções em comunidades

O avanço da frota de veículos elétricos e híbridos no Rio de Janeiro vem sendo acompanhado por um aumento expressivo nos índices de roubo e furto desse tipo de automóvel, informa reportagem do jornal O Globo. Dados do Sindicato das Seguradoras do Rio de Janeiro (SindSeg-RJ) apontam que, apenas nos três primeiros meses de 2026, foram registradas 366 ocorrências envolvendo esses veículos, o que representa uma média de quatro casos por dia.

O número é significativamente superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando houve 150 ocorrências. A alta de 144% acende um alerta entre autoridades, especialistas e moradores, sobretudo diante do uso desses veículos por criminosos em ações dentro e fora das comunidades.

Caso recente expõe violência

Um episódio ocorrido no bairro de Maria da Graça, na Zona Norte, ilustra o cenário. Por volta das 18h30 do dia 15 de março, um advogado foi abordado por um assaltante armado ao sair de um carro híbrido avaliado em cerca de R$ 200 mil, adquirido há apenas um mês. Ele estava acompanhado da mãe, de 94 anos, e do filho, de 20.

O criminoso, que estava na garupa de uma moto, rendeu a família, roubou dinheiro e celulares e fugiu levando o veículo. A ação durou pouco mais de um minuto. O carro ainda não foi recuperado e, segundo o rastreador, teria sido levado para o Complexo da Penha.

“Na minha opinião, o que chamou a atenção dos bandidos foi o fato de o carro ser híbrido e de ser um modelo muito novo. Até hoje, minha mãe não esqueceu o que aconteceu. Ela chora muito”, lamenta o advogado.

Veículos viram alvo de facções

De acordo com investigadores, há dois principais fatores que explicam o interesse crescente por veículos elétricos e híbridos. O primeiro é o uso para ostentação em bailes funk e no cotidiano das comunidades dominadas por facções criminosas. O segundo é a facilidade de recarga em áreas com ligações clandestinas de energia.

“Há funks que falam nesses carros, que acabam virando objeto de desejo desses criminosos. Servem para transporte e ostentação”, explica um policial.

Um caso recente reforça esse cenário. Em 17 de abril, suspeitos que utilizavam um carro elétrico roubado foram perseguidos por policiais militares na Transolímpica. Durante a fuga, tentaram roubar outros veículos e houve troca de tiros. Uma médica que passava pelo local foi atingida por uma bala perdida. Dois suspeitos foram presos e um terceiro conseguiu fugir.

Impacto direto no custo do seguro

O aumento dos crimes já começa a refletir no setor de seguros. Segundo o vice-presidente do SindSeg-RJ, Bernardo Câmara, a elevação da frequência de roubos pode influenciar diretamente o valor das apólices.

“Na verdade, o preço do seguro é resultado exatamente dos números e da frequência e severidade das ocorrências de roubos, furtos e de outras naturezas de sinistros. Se o roubo e o furto de uma categoria de veículo são maiores, isso tende a levar as seguradoras a aumentar o preço do seguro para esse veículo, para essa região especificamente ou, eventualmente, até a subscreverem, que é não aceitar nenhum risco”, explicou Câmara.

Crescimento da frota amplia exposição

O aumento dos registros ocorre em paralelo à expansão da frota desses veículos no estado. Segundo o Detran-RJ, o número de carros elétricos saltou de 8.215, em março de 2025, para 14.898 no mesmo mês de 2026, uma alta de 81%. Já os híbridos passaram de 10.978 para 18.692 no período, crescimento de 70%.

Apesar do avanço, esses veículos ainda representam uma parcela pequena da frota total fluminense. Ao todo, são 33.590 unidades, o equivalente a 0,4% dos mais de 8,8 milhões de veículos em circulação no estado.

Roubo de veículos cresce em todo o estado

O aumento não se limita aos carros elétricos e híbridos. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que o roubo de veículos, de forma geral, cresceu 18% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Em municípios como São Gonçalo e Itaboraí, a alta foi ainda mais acentuada. Em São Gonçalo, o crescimento chegou a 134%, enquanto em Itaboraí foi de 120%.

A Polícia Militar informou que mantém policiamento ostensivo em todo o estado e que, somente neste ano, já realizou mais de 7 mil prisões e apreendeu mais de mil adolescentes. A corporação também destacou que, em áreas como São Gonçalo, a preferência por veículos elétricos pode estar relacionada à possibilidade de recarga dentro das comunidades, sem necessidade de deslocamento até postos de combustível.

Já a Polícia Civil afirmou que mantém operações contínuas para combater esse tipo de crime. A Operação Torniquete, voltada à repressão de roubos e furtos de veículos e cargas, já resultou em mais de 900 prisões desde setembro de 2024, além da recuperação de bens avaliados em mais de R$ 52 milhões.

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