Se você acha que cidades pequenas são pacatas, é porque ainda não foi a Rio Claro, no Sul Fluminense. Um lugar onde bandeirantes se perderam, fazendeiros se multiplicaram, uma cidade inteira virou um lago e outra renasceu, tudo isso enquanto cachoeiras, grutas e pedras com nomes curiosos observavam a história acontecer. Rio Claro é aquele tipo de município que, se fosse personagem, seria o coadjuvante que rouba a cena.

A cidade é um passeio por séculos de história, começando no século XVIII, quando Simão da Cunha Gago resolveu chamar a região de Campo Alegre da Paraíba Nova. Um nome que só não vingou porque João Machado Pereira chegou logo depois, ergueu uma capela e, sem querer, fundou duas cidades ao mesmo tempo: São João Marcos e, mais tarde, Rio Claro. Uma virou potência do café, foi tombada, destombada, demolida e parcialmente inundada. A outra seguiu firme, virou município, acumulou fazendas históricas, festas tradicionais e cartões-postais que dariam inveja a muito destino turístico mais badalado.

Hoje, Rio Claro guarda as ruínas da antiga São João Marcos como quem cuida de um álbum de família: com carinho, tecnologia e um parque arqueológico digno de museu internacional. Entre a Pedra do Bispo, a Pedra do Rastro, a Gruta da Sacola, dezenas de fazendas centenárias, igrejas históricas, rodeios com mais de 50 anos e cachoeiras que exigem fôlego e joelhos em dia, o visitante descobre que a cidade é pequena só no mapa. No resto, ela é gigante.

Vista da trilha da Pedra do Bispo | Crédito: Reprodução

História

A história de Rio Claro começa, como não poderia deixar de ser, às margens do curso d’água que lhe dá nome. A região foi invadida no século XVIII pelo bandeirante paulista Simão da Cunha Gago, que a chamou de Campo Alegre da Paraíba Nova, atual Resende.

Em 1733, João Machado Pereira instalou ali sua fazenda e, em 1739, ergueu uma capela dedicada a São João Marcos, que deu nome ao povoado que cresceria ao redor. A freguesia se consolidou em 1755, e no fim do século XVIII outra igreja ajudou a formar o núcleo urbano que se tornaria São João do Príncipe, posteriormente embrião de Rio Claro.

Em 1839 foi criada a Freguesia de Rio Claro, depois elevada a vila em 1849, impulsionada pelas riquezas do ciclo do café. Ao longo dos anos, o município passou por mudanças administrativas, até chegar ao status atual depois de reorganizações em 1938 e 1956.

O que aconteceu com a cidade de São João Marcos?

São João Marcos foi uma das cidades mais prósperas do ciclo do café no Rio de Janeiro, fundada na década de 1730.  Era um polo cafeeiro vibrante, com casarões, teatro, hospitais, comércio e vida cultural intensa. Em 1939, ele chegou a ser tombado pelo Sphan (atual Iphan), tamanho seu valor histórico

No entanto, seu destino foi selado na década de 1940, quando o governo do Rio de Janeiro decidiu ampliar a Represa de Ribeirão das Lages para abastecer a crescente Região Metropolitana da Guanabara e a União revogou o tombamento.

Apesar dos protestos, a cidade foi evacuada e, posteriormente, demolida. As casas, a igreja matriz, os prédios públicos foram destruídos, e o território foi inundado. O episódio é um marco triste na história do estado. Embora a água nunca tenha chegado a inundar realmente toda a cidade, ficaram para trás apenas fragmentos de sua antiga glória.

Ruínas da antiga cidade de São João Marcos | Crédito: Reprodução

O que Rio Claro tem a ver com isso?

Originalmente, o território de Rio Claro era um distrito subordinado a São João Marcos. Ou seja, a vila de Rio Claro se desenvolveu dentro da jurisdição são-joão-marcense.

Portanto, as duas compartilharam costumes e estruturas sociais e econômicas da época.  Até que o destino de São João Marcos tomou um rumo trágico, enquanto Rio Claro seguiu seu caminho, mas mantendo viva a lembrança da cidade-irmã em um baita projeto.

O Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos

Inaugurado em 2011, o Parque em Rio Claro preserva as ruínas da antiga cidade com padrão Inhotim de qualidade. No local, o visitante encontra as fundações de casas e ruas, delineadas no chão, e a praça central, onde se ergue a soleira da antiga igreja matriz.

O espaço foi concebido como um local de memória e reflexão. Há um centro de visitantes com exposição permanente que usa tecnologia para recriar virtualmente a cidade. As ruínas do antigo teatro são um dos pontos mais impressionantes. Ela teve parte de suas paredes recompostas para mostrar a volumetria original, e o piso demarcado mostra o espaço onde ficava a plateia, hoje usada como palco para apresentações ao ar livre.

Mais adiante, parte das ruínas da Igreja Matriz foram parcialmente reconstituídas, com a nave, o altar-mor e alguns trechos de parede recuperados de maneira que o visitante consiga visualizar a arquitetura original. É um dos lugares mais fotografados do parque.

Ruínas do Parque Arqueológico de São Marcos unem história e cultura em Rio Claro | Crédito: Reprodução / TripAdvisor

Quais sãos os mais famosos cartões-postais de Rio Claro?

A Pedra do Bispo é um imponente maciço rochoso de granito, localizada na localidade de Getulândia. Sua forma peculiar, que alguns associam ao chapéu de um bispo, domina a paisagem. É um local popular para a prática de rapel e escalada, oferecendo uma vista panorâmica espetacular das serras e vales da região.

Já a Pedra do Rastro carrega um pedaço visceral da história. Trata-se de uma rocha lisa, com marcas profundas e paralelas, que foram abertas ao longo de décadas pelo atrito das rodas dos carros de boi puxados por animais. Ou seja, o “rastro” no nome é literal. Fica no distrito de Passa-Três e é um monumento incontornável do ciclo cafeeiro.

Por usa vez, a Gruta, ou melhor, a Gruta da Sacola, está localizada no Parque da Cachoeira da Fumaça e é uma formação calcária com entrada ampla, que se estende por dezenas de metros. O ambiente é úmido e abriga estalactites. A visitação requer guias credenciados, pois o piso é irregular e escorregadio.

Cachoeira da Carmen é um dos cenários deslumbrantes no distrito de Lídice | Crédito: Reprodução

Quantas fazendas históricas ainda tem suas sedes em pé em Rio Claro?

Rio Claro, abusando do clichê, é um verdadeiro museu a céu aberto do período cafeeiro. Embora não haja um número oficial, estima-se que existam mais de 40 fazendas com sedes históricas e preservadas em seu território.

Todas elas possuem características arquitetônicas similares:  casarões, terreiros de café, senzalas e capelas. E isso vale tanto para os pequenos fazendeiros como para os grandes produtores como a Fazenda São João da Prosperidade. Elas pontilham a zona rural do município, formando uma paisagem cultural única no estado.

Qual a importância histórica da Fazenda São João da Prosperidade?

Ela é uma das mais importantes e bem preservadas fazendas históricas do ciclo do café na região, embora boa parte de suas terras estejam formalmente em Barra do Piraí.  

Sua história começa entre 1820 e 1830, quando Antônio Gonçalves de Morais, conhecido pelo nada singelo apelido de “capitão mata gente” investiu na plantação de café na região. A propriedade chegou a ter 256 mil pés de café plantados. Corta o sono só de imaginar.

Sua sede é um exemplar clássico da arquitetura rural da época, com casarão senhorial, terreiros de secagem de café, senzala e uma capela particular. A fazenda é um testemunho material do período de opulência e do sistema escravocrata que o sustentou.

Atualmente, é um patrimônio histórico visitável, que ajuda a contar a história da região.

Fazenda São João da Prosperidade, em Barra do Piraí | Crédito: Divulgação

Quais são as principais igrejas históricas de Rio Claro?

Atualmente a principal igreja do município é a Matriz do Santíssimo Sacramento da Vila de Rio Claro localizada no Centro. Sua construção, em estilo eclético, data do final do século XIX, substituindo uma capela mais antiga. Guarda imagens sacras de valor histórico e artístico e é o centro da vida religiosa da cidade.

Ali pertinho fica a charmosa Igreja de Nossa Senhora da Conceição, uma pequena e charmosa capela de construção simples. É um marco da fé da comunidade e um exemplar da arquitetura religiosa mais modesta do período.

E, como comentamos, há também as ruínas da antiga Igreja Matriz de São João Marcos no Parque Arqueológico.  Sua localização e dimensão revelam sua antiga importância para a comunidade. É o símbolo máximo da memória submersa de São João Marcos.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição é um dos marcos da religiosidade de Rio Claro | Crédito: Reprodução

O que é a Festa do Peão de Rio Claro?

É um dos eventos mais tradicionais da região e já faz parte do calendário cultural do estado. Ela é realizada há mais de 50 anos, consolidando-se como a principal festa do município. Trata-se de um rodeio profissional, com provas de montaria em touros e cavalos, que atrai peões de diversas partes do país.

O evento vai muito além da arena. Ele se transforma em uma grande festa caipira, com shows de artistas sertanejos de grande porte, praça de alimentação com comidas típicas, parque de diversões e bailes. A estimativa de público gira em torno de 30 a 40 mil pessoas ao longo de sua duração.

Festa do Rodeio de Rio Claro já virou parte do calendário cultural do país | Crédito: Reprodução

Quais as principais cachoeiras de Rio Claro?

Como toda boa cidade do interior fluminense, Rio Claro tem seu pacote de cachoeiras de tirar o fôlego. E que assim como em todas as cidades do interior fluminense, tem nomes exatamente iguais para fundir a cabeça do mais zen dos viajantes.

Começando pela Cachoeira da Fumaça, a mais famosa e desafiadora. Localizada dentro de um parque municipal, sua queda d’água tem aproximadamente 40 metros de altura, criando uma “fumaça” de água pulverizada. Para chegar até lá é preciso encarar uma trilha de quatro quilômetros que não é exatamente um passeio na praça. Mas a vista compensa.

Outra de nome que você já cansou de ouvir é a Cachoeira do Escorrega. Que como você já deve imaginar é formada por um tobogã natural de rochas lisas, por onde a água escorre, permitindo que os visitantes “escorreguem” de forma segura.

Mas há espaço para novidades como a Cachoeira da Toca da Onça, um conjunto de quedas d’água e grandes poços de águas cristalinas perfeitas para nadar. Ela fica localizada em uma propriedade particular que permite visitação. O nome, dizem, vem de uma formação rochosa que lembra uma toca.

O que mais tem para fazer por lá?

A Festa da União no distrito de Passa Três é um evento tradicional que ocorre sempre próximo às comemorações da Independência do Brasil, com música, parque de diversões, desfiles e shows populares.

Já no antigo distrito de Santo Antônio do Capivary, todo ano entre os dias 17 e 20 de junho é celebrada a Festa da Paz, uma homenagem aos mortos no massacre nazista da cidade checa de Lídice, em 1942 — e que levou Capivary a trocar de nome. Essa história completinha a gente já contou aqui na Agenda do Poder.

Festa da União de 2025, em Passa Três, recebeu o cantor Renato Teixeira | Crédito: Divulgação

Como chegar?

Partindo da Guanabara são cerca de 150 km de estrada até Rio Claro, o que dá para fazer em uma viagem de pouco mais de duas horinhas de carro. De ônibus, as tarifas começam na faixa dos R$ 70, mas devido às paradas no caminho a viagem pode levar até quase quatro horas.

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