Todo mundo ama Paraty. As casas do Centro Histórico, sua gastronomia, a Flip e até as águas do mar que invadem as ruas da cidade quando a maré sobe. É uma das joias mais preciosas da coroa arquitetônica do Rio de Janeiro. Agora, imagine que o estado tivesse uma outra cidade, igualzinha ou, em alguns relatos, até maior e mais vibrante do que Paraty. Essa cidade realmente existiu. Foi tombada em 1939 e destombada um ano depois para a construção da represa de Ribeirão das Lajes.
Toda a população foi retirada, sob a alegação de que a represa inundaria o centro da cidade, o que depois se provou falso: a área urbana jamais foi alagada. E suas ruínas, que podem ser vistas às margens da rodovia RJ-149 entre os municípios de Rio Claro e Mangaratiba, se tornaram o primeiro sítio arqueológico urbano do Brasil. Mas você conhecia a história de São João Marcos: a cidade colonial que o progresso destruiu?
Este episódio é hoje estudado como exemplo de conflito entre desenvolvimento e preservação. Sua história serve de alerta sobre decisões políticas que apagam memórias coletivas em nome do progresso. Se estivesse de pé, seria hoje uma preciosidade turística e cultural comparável a Paraty ou Tiradentes.
Como tudo começou
A cidade foi fundada em 1739, com a instalação de lavouras e comércios de passagem. Como situava-se estrategicamente na antiga Estrada Real, entre Rio de Janeiro e as minas de ouro de Minas Gerais, seu primeiro nome foi Freguesia de São João Marcos da Estrada Real. Foi elevada à vila em 1835 e à cidade em 1857.
Seu apogeu foi no século XIX, com o advento da cultura do café, quando chegou a abrigar mais de 20 mil habitantes. Tinha 10 ruas e outras 10 travessas, com direito a duas igrejas (Matriz e Nossa Senhora do Rosário), o Teatro Tibiriçá, casarões senhoriais, imprensa própria, iluminação pública a gás, duas escolas, um hospital, cadeia, um posto dos correios, dois clubes (o Marquense, frequentado pela elite; e o Prazer das Morenas, mais popular) com suas respectivas bandas de música e até um time de futebol, o azul e branco Marcossense FC.

O declínio
A decadência da cidade é atribuída a pelo menos três fatores: a crise do café, a abolição da escravidão e a mudança das principais rotas comerciais com a chegada das ferrovias. Entre 1905 e 1907, a concessionária canadense da Light “The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power” arrendou e inundou um distrito rural de São João Marcos para a construção de uma usina hidrelétrica, que iniciou a formação do lago da Represa de Ribeirão das Lajes, que foi necessário para a construção da Usina de Fontes Nova, até hoje em funcionamento.
Uma polêmica inédita
Em 1939, a concessionária decidiu elevar o nível do lago para aumentar a capacidade da represa. Para tentar salvar a cidade, o antigo Sphan, atual Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), fez o tombamento de São João Marcos. Mas apenas um ano depois, em 1940, o local foi destombado por decreto de Getúlio Vargas, que desapropriou todas as terras da cidade, um fato inédito e polêmico na história do patrimônio brasileiro. A alegação era de que a represa inundaria o centro da cidade, o que depois se provou falso: a área urbana jamais foi alagada.

Uma cidade sacrificada
Documentos da época revelam a resistência de moradores e historiadores, mas o projeto seguiu adiante com apoio político e empresarial. A população recebeu ordens para sair e os prédios históricos foram sendo demolidos com dinamite ou deixados ao abandono. A Igreja da Matriz foi o último grande prédio da cidade. Isto porque a população, muito carola, acreditava ser um pecado explodir uma igreja. Mas um comerciante local, que perdera todo seu patrimônio, aceitou o serviço, usando vinte quilos de dinamite na implosão.
O lago trouxe diversas epidemias para a região, principalmente a malária, que praticamente dizimaram os últimos habitantes. Até que em 1943, a população restante foi deslocada para municípios vizinhos como Rio Claro, Mangaratiba, Itaguaí e Piraí.

Do esquecimento ao resgate cultural
O sítio arqueológico de São João Marcos permaneceu abandonado por décadas. A área desocupada, onde outrora existiu a cidade, foi arrendada a pecuaristas da região e os seus últimos vestígios ficaram adormecidos por décadas. Em 1990, a Ponte Bela e as ruínas do centro histórico de São João Marcos foram tombadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e, em 2008, iniciativas de preservação começaram a ser articuladas entre o Instituto Light, Inepac e as universidades do Rio.
Em 2011, foi criado o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, no município de Rio Claro. Lá, ainda podem ser vistas ruínas preservadas de igrejas, colunas e fundações de antigos casarões. Ele é considerado o único sítio urbano brasileiro tombado, destombado e depois musealizado como patrimônio arqueológico.

Como chegar
Existem duas maneiras de chegar ao Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, saindo da cidade do Rio de Janeiro. Pelo litoral, siga a Avenida Brasil em direção a Santa Cruz, depois entre na rodovia Rio-Santos (BR-101) em direção a Angra dos Reis. No trevo de Mangaratiba, vire à direita para pegar a Serra do Piloto (RJ-149). Subindo a estrada em sentido a cidade de Rio Claro, a entrada do Parque fica à direita da pista, aproximadamente 20km de Mangaratiba.
Já pela Serra, siga a Via Dutra em direção a São Paulo, pegue a saída 237 e, sem seguida, vire à esquerda em direção a cidade de Rio Claro. Ao passar pela cidade, vire novamente a esquerda, entre na RJ-149 e desça até Mangaratiba. A entrada do Parque fica à esquerda da pista, a aproximadamente 20km de Rio Claro. O parque funciona de quarta a domingo, com entrada franca.






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