Paraty, no sul do Rio de Janeiro, amanheceu com suas ruas centrais transformadas em verdadeiros canais. A maré alta invadiu grande parte do centro histórico da cidade, nesta-terça-feira, justamente às vésperas da abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um dos principais eventos culturais do país. A cena inusitada, que chegou a inspirar moradores a circular de caiaque, viralizou nas redes sociais com vídeos e imagens que lembravam paisagens de Veneza.
O fenômeno não se restringiu ao tradicional casario colonial cercado por correntes, símbolo da cidade: desta vez, a água avançou além dos limites do bairro histórico, surpreendendo visitantes e moradores. “Alguns dizem que nunca viram a maré chegar tão longe”, relatou uma moradora em um grupo online. Já outros afirmam ter presenciado episódios parecidos no passado, embora admitam que a frequência e intensidade vêm aumentando.
Reflexo de um novo tempo?
Paraty, fundada no século XVII, foi projetada pelos portugueses com uma peculiaridade arquitetônica: permitir a entrada da maré como forma de “lavar” suas ruas de pedra. No entanto, o que antes era parte do charme da cidade parece hoje estar ganhando proporções preocupantes, possivelmente impulsionadas pela elevação do nível do mar.
“A imagem do Centro Histórico alagado é quase um cartão-postal de Paraty. O alagamento até se torna um atrativo turístico, até certo ponto. Mas para o morador e o comerciante, passar dias com a água na porta não é nada agradável”, afirma Maria Eduarda Mello Souza, diretora do Departamento de Patrimônio Mundial da Prefeitura.
Segundo ela, o município já iniciou um levantamento técnico e histórico para compreender melhor o comportamento da maré na região. “Não é uma análise simples. Estamos buscando tanto dados científicos, como a tábua de marés, quanto a memória dos moradores mais antigos, que têm um conhecimento tradicional importante”, explicou.
Flip começa sob efeito das águas
Apesar do contratempo hídrico, a Flip teve início nesta quarta-feira com uma programação recheada de nomes relevantes da literatura contemporânea, como Valter Hugo Mãe e Rosa Montero. Os organizadores não reportaram cancelamentos ou mudanças de local por causa da maré, mas o cenário alagado gerou desafios logísticos para os primeiros dias de evento.
Alta do nível do mar é tendência global
O que está acontecendo em Paraty não é um caso isolado. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mostram que, desde 1901, o nível médio do mar subiu cerca de 20 centímetros, sendo que 8,1 centímetros desse total ocorreram apenas entre 1993 e 2018. A taxa de aumento mais que dobrou nos últimos anos: passou de 1,4 mm por ano ao longo do século XX para 3,6 mm anuais entre 2006 e 2015.
Em 2023, o nível médio global do mar bateu recorde, ficando 9,4 cm acima da média de 1993. Esse avanço é atribuído principalmente ao derretimento de geleiras e ao aquecimento dos oceanos, ambos provocados pelas mudanças climáticas.
Com a elevação constante do nível das águas, cidades costeiras como Paraty passam a conviver com fenômenos que exigem novas estratégias de adaptação urbana, preservação do patrimônio e segurança para moradores e visitantes. A realidade da “Veneza brasileira” parece cada vez menos uma metáfora turística — e mais um sinal literal das transformações que o planeta enfrenta.






Deixe um comentário