Às margens da Dutra, entre as Serras do Mar e da Mantiqueira, enquanto caminhões industriais seguem firme pelo Vale do Paraíba, no meio do caminho entre a Guanabara e São Paulo, essa cidade faz mesmo parar o trânsito. Barra Mansa parece àquela atriz coadjuvante que rouba a cena com sutileza e discrição.

Barra Mansa não disputa premiações de turismo, mas acumula joias discretas. Nos últimos cinco anos, o crescimento nominal do PIB foi de respeitáveis 34,6% — o que, tudo bem, pode ainda não a colocar no top 10 do estado — mas há uma certa poesia em saber que foi essa cidade quem deu à luz Volta Redonda, apenas para vê-la crescer, enriquecer e, de certa forma, fugir de casa.

No mesmo município onde se comemoram investimentos bilionários, como o da ArcelorMittal, uma das maiores multinacionais do ramo de aço (R$ 1,3 bilhão), são micro e pequenas empresas que respondem por 60% dos empregos industriais.

Como se não bastasse, o comércio local movimenta serviços e consumo não como se fosse a estrela de uma novela que deu certo, mas provando que economia mesmo é aquela que também trabalha nos bastidores, e não só sob os holofotes. Assim, sem perder a modéstia, Barra Mansa é mais uma prova de que é no meio do caminho que se faz destino.

Palácio Barão de Guapi | Crédito: Reprodução

História

Barra Mansa era tudo mato quando nasceu em 3 de outubro de 1832, mas foi crescendo, se desmembrando, até virar cidade de vez em 1857. O nome se referia as águas tranquilas do Rio Paraíba do Sul que atraíam colonos e tropeiros. Ela prosperou enormemente durante o ciclo do café. Sua estação ferroviária, por exemplo, foi inaugurada em 1871 por nada menos do que a Princesa Isabel e o Conde d’Eu.

Mas nem as bençãos imperiais foram o suficiente para evitar que os produtores de Barra Mansa não copiassem as grosserias ambientais dos antigos coronéis fluminenses, que conseguiram esgotar o solo usando a força humana escravizada. E assim o café, que era doce, se acabou.

Só que a cidade parece ter uma ambição feroz de se reinventar e abraçar o progresso. O município se desdobrou e passou investir pesado em gado e leite se tornando um dos maiores produtores do Brasil, ao ponto de em 1930 ser eleito “Capital do Leite”. E em duas décadas já era uma discreta e orgulhosa co‑formadora de um dos polos industriais do Sul Fluminense.

Por que é considerado um polo industrial importante?

Barra Mansa não sobrevive apenas de sua localização entre o Rio e São Paulo, ela prospera nesse ponto estratégico. Com um PIB municipal estimado em cerca de R$ 2,46 bilhões (valor bruto de R$ 2.462.828 mil segundo o IBGE) e com micro e pequenas empresas industriais respondendo por 60% dos 15 mil empregos do setor, o município figura entre os mais importantes do estado em densidade produtiva industrial.

São 528 indústrias, muitas voltadas para siderurgia, construção e máquinas, sustentadas por uma cadeia logística volumosa que se beneficia não só da Dutra, mas de ramificações ferroviárias e recursos naturais como argila, mica e calcário extraídos da Mata da Cicuta.

Além da indústria, o setor terciário representa mais de 50% do valor adicionado ao PIB, segundo a Associação Comercial local. Essa dinâmica é reforçada pela integração com Volta Redonda, Pinheiral e Barra do Piraí, fazendo com que a região ultrapassa 580 mil habitantes que forma um mercado consumidor ativo e interligado.

Indústria responde por grande parte do PIB da cidade | Crédito: Reprodução

A perda de Volta Redonda

Durante o projeto de industrialização do Brasil na Era Vargas, instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) no então distrito de Volta Redonda parecia um bom negócio para Barra Mansa. A usina siderúrgica trouxe milhares de trabalhadores de várias regiões.

A CSN criou toda uma infraestrutura autônoma: bairros planejados, hospitais, escolas e até abastecimento próprio de energia e água, algo incomum para a época. O crescimento populacional foi explosivo: Volta Redonda passou de um vilarejo rural para uma cidade industrial em poucos anos.

Não demorou para que os novos moradores começassem a reclamar que os impostos arrecadados juntos a CSN iam todos para Barra Mansa, e não para os serviços públicos de Volta Redonda. Assim, após forte após forte mobilização popular e apoio político estadual, Volta Redonda foi oficialmente emancipada em 1954.

Melhor época para visitar

Se o visitante prefere trilhos secos e trilhas tranquilas, o período de março a agosto é o ideal — temperaturas amenas e poucas chuvas garantem conforto. 

Evite, porém, o verão entre dezembro e fevereiro, quando chuvas e calor podem transformar caminhadas leves em expedições dignas de documentário.

O que tem para fazer lá?

É irresistível não querer conhecer uma cidade onde um dos principais pontos turísticos, é o Jardim da Preguiça: nome popular do Parque Centenário, no Centro, que atrais famílias para caminhada e, dizem, preguiças (não humanas) entre as árvores.

O parque foi projetado pelo paisagista francês Auguste François Marie Glaziou — o mesmo que criou os lagos e as grutas da Quinta da Boavista e reformou o Passeio Público e o Campo de Santana, no Centro do Rio.

Quem busca atrações em Barra Mansa esbarra, com surpresa, em prédios históricos, tal como o Palácio Barão de Guapy (hoje sede da biblioteca municipal) e o Museu Histórico Municipal, que reúne acervo sobre a era cafeeira e industrial.

Fora do centro, há fazendas preservadas como a Sant’ana do Turvo, produtora de um everest de 180 mil arrobas de café no século XIX, com 700 alqueires e 250 escravos. A Floresta da Cicuta e a Mata do Pavão, são remanescentes da Mata Atlântica e habitat de animais como onças pardas e porcos do mato.

Para quem quer economizar, o Restaurante do Povo Irmã Ruth, mantido pela Prefeitura, serve refeições completas por simbólicos R$ 1 com pratos como carne moída à primavera e polenta com frango. Já paladares mais exigentes, tem opções como o Vila das Carnes Gourmet (avaliado como o melhor da cidade no TripAdvisor) com atendimento atencioso em ambiente refinado e um famoso risoto de camarão ao gorgonzola que dizem ser dos deuses.

Bicho-preguiça é figurinha fácil em Barra Mansa | Crédito: Reprodução

Como chegar

Chegar é simples: você não vai precisar pedir ao motorista do ônibus entre Rio e São Paulo para te avisar a hora de descer na estradal. Existem linhas diretas de ônibus saindo da Rodoviária Tietê em São Paulo e do Novo Rio, sem necessidade de baldeações específicas.

Em sites como o ClickBus, bilhetes saindo de São Paulo começam em torno de R$ 71,79, enquanto do Rio chegam a partir de R$ 60–70, conforme a operadora e o horário escolhido.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading