Santo Antônio do Capivary era um lugar tão na dele que era chamado Vila do Parado. E literalmente parado no tempo, sussurrando sua existência entre túneis de trem abandonados e cachoeiras escondidas, ele permaneceria quietinho em seu canto até ser tragado para dentro da Segunda Guerra Mundial e ter de mudar de nome — o que apesar da causa nobre divide opiniões até hoje.
A atual Lídice é uma daquelas jabuticabas brasileiras: um distrito pequeno, perdido na Serra da Bocaina, que carrega em seu nome o peso de uma tragédia mundial. Ao mesmo tempo em que homenageia a dor de um povo distante, é lembrada por seus poços gelados, cachoeiras cintilantes e trilhas com visuais sensacionais.
O trem não apita mais, os viajantes chegam de carro e muitas vezes aparecem só de curiosidade, mas encontram ali um lugar onde a história universal e a simplicidade rural se abraçam. Talvez Lídice nunca tenha sido pensada para ser destino de massa e, com o perdão da rima pobre, e é justamente essa sua graça.

História
A região da atual Lídice, distrito de Rio Claro, começou a ser ocupada bem antes de seus nomes simbólico pelo pacote tradicional das cidadezinhas do interior que cresceram e decaíram no ciclo do café.
Vieram fazendas, escravos, começou um ajuntamento de gente, fizeram uma praça, uma igreja e até uma estação de trem muito bonitinha que existe até hoje e parece até de brinquedo.
Seu nome original era Santo Antônio do Capivary, em função da ocupação rural próxima ao rio Capivary, ou Vila do Parado — o que certamente quer dizer alguma coisa. Afinal, até hoje sua população não passou da casa das cinco mil pessoas.
Mas aí veio a Segunda Guerra Mundial…
Como e por que mudou de nome?
No dia 27 de maio de 1942 uma equipe de soldados especiais checos e eslovacos treinados pelos britânicos, promoveu um atentado em Praga contra uma das figuras mais sombrias do Terceiro Reich, Reinhard Heydrich, o principal executor da famigerada “Solução Final”. Ele morreu dias depois vítima dos ferimentos.
A Inteligência Nazista afirmou que os guerrilheiros haviam se escondido na cidade checa de Lidice. E Hitler não pegou nada leve. O líder nazista mandou fuzilar todos os homens da cidade maiores de 15 anos, encaminhou as mulheres para campos de concentração e as crianças para reformatórios. Não contente, mudou o curso do rio e aterrou a cidade, que sumiu do mapa.
Os países aliados então decidiram homenagear as vítimas, dando o nome de Lídice a uma de suas cidades. E a essa altura dos acontecimentos você já deve imaginar quem representou o Brasil nesse nobre movimento.

A mudança foi polêmica?
Muita. Para a população rural do interior brasileiro na década de 1940, uma guerra na Europa era uma ideia tão distante quanto pousar na lua. Muitos moradores locais ficaram contrariados — e alguns assim permanecem até hoje.
O antigo nome, Santo Antônio do Capivari, carregava tradição religiosa e ligação com a história local, vinculada ao rio Capivari. Para os moradores, que se identificavam mais com seu santo padroeiro do que com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), trocar de nome por algo ligado a um acontecimento distante, em outro continente, soava como imposição política. E assim, até hoje, alguns irredutíveis ainda se referem à região como “Capivari”.
É um caso curioso de memória sobreposta: uma identidade local substituída por uma homenagem global, e que nunca deixou de causar certo desconforto entre quem preferia manter o vínculo com suas raízes.
O que tem para fazer por lá?
Lídice oferece sombra, natureza, um refresco, cachoeira e trilhas. Além disso, seu relevo acidentado, estradas rurais pitorescas, antigos trechos ferroviários abandonados (ou convertidos em atrações locais), mirantes, um ritmo menos frenético que nas cidades costeiras lotadas atrai veranistas cansados da orla ou que buscam algo diferente.
Como estamos falando de serras, não poderia faltar o pacote de cachoeiras. Em Lídice há mais de 10 delas, como a Sebastião Marinho, a do Segredo, ou das Três Quedas. Muitas são mais corredeiras do que quedas d’água propriamente ditas, que formam piscinas de águas claríssimas, perfeitas para quem busca um programa com a criançada.
E, claro, há celebrações anuais como a Festa da Paz no dia 10 de junho, para lembrar a tragédia de Lídice original.

O que era o Trem da Mata Atlântica?
O Trem da Mata Atlântica era um trem turístico, operado pela antiga RFFSA, que ligava Angra dos Reis à estação de Lídice subindo pela Serra da Bocaina.
Ele atravessava túneis, viadutos, pontes, visuais do litoral, rios e cachoeiras, tornando-se atração turística de grande importância para a economia local.
O trem parou de funcionar para passageiros no início dos anos 2000. Dez anos depois, as fortes chuvas que atingiram a região também danificaram parte da linha e contribuíram para a interrupção definitiva do uso turístico.
O impacto sobre Lídice foi significativo: enquanto existia, o Trem da Mata Atlântica trazia visitantes, movimentava pousadas, restaurantes simples, comércio local. Era um “vinte-reais de encantamento” para quem vinha do litoral ou do interior.
Qual a melhor época para conhecer?
Depende do que você quer: para cachoeiras com bom volume de água, visual bonito, mas sem risco de chuvas torrenciais, os meses de novembro e dezembro, ou mesmo depois do início do ano, quando as chuvas diminuem, pode ser ideal.
Se quiser evitar lama, estradas ruins, subida escorregadia, fuja de épocas de chuva forte ou períodos de inverno muito úmido. No outono e no inverno a água estará mais fria, e algumas quedas menos volumosas.
Como chegar?
De carro, saindo da Guanabara, leva cerca de três horas para percorrer o trajeto até Rio Claro e depois até Lídice. Não há ônibus diretos. É preciso descer em Rio Claro e, de lá, pegar um ônibus local, táxi ou motorista de app.


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