No quesito obras faraônicas, este pequeno distrito de Barra do Piraí parece querer competir com cidades como Dubai. E por essas e outras não é exagero chamá-lo de o mais megalomaníaco de todo o estado do Rio de Janeiro. Em Ipiabas, um Boeing 727 estacionado numa praça central disputa espaço com matas, cachoeiras e retóricas de “turismo inovador”, como se fosse natural entronizar um avião numa região rural.
Ipiabas figura como um caso fascinante de tensão entre o desejo de projetar um turismo de grande escala e a realidade modesta de um distrito rural. Por um lado, sua natureza, acervo histórico e paisagens atraem quem busca um refúgio; por outro, ambições megalomaníacas — avião na praça, Maria Fumaça, trem de gelo — pairam sobre o lugar como promessas ainda por cumprir.
Se tudo der certo, Ipiabas pode se transformar em polo de atração tecnológica e cultural no interior do estado; se não, corre o risco de virar monumento ao exagero público. E enquanto alguns moradores cochicham “será que agora vai?”, outros já torcem para que o espetáculo imoderado pelo menos não destrua o charme ainda intacto desse recanto do Vale do Café.

História
Ipiabas é o quarto distrito em extensão territorial de Barra do Piraí. No passado, durante o ciclo do café, a região sofreu com severos desmatamentos para alargar plantações de café em meio a Mata Atlântica nativa.
A origem exata do nome “Ipiabas” não é unânime. Segundo o site oficial de Ipiabas, o nome é de origem tupi-guarani, significando “lugar das árvores” ou “água armazenada na pedra”.
Por outro lado, há uma tradição etimológica mais exótica: “o que tem a pele manchada” (ipiaua) ou “aquele que tem água armazenada na pedra ou ao seu redor”. E há estudos sugerindo que Ipiabas deriva de ypiau, significando “profundidade” ou “fundura”.
Em resumo, o nome carrega um pouco de ambiguidade poética: raízes na natureza, no corpo ou na pedra. Ipiabas continua sendo tanto árvore quanto mancha quanto pedra que guarda água.
O distrito tem mesmo um avião no meio de uma praça?
Sim, o “avião do metaverso” é o elemento mais escandalosamente visível, chamativo e controverso do distrito. Trata-se de um Boeing 727-200 todo colorido, de 52 metros de comprimento, que foi instalado na praça central do distrito.
O avião foi doado à prefeitura de Barra do Piraí e transportado desmontado desde o Aeroporto do Galeão até Ipiabas. A ideia era transformar a aeronave numa atração turística de realidade virtual, com simuladores e até uma “viagem virtual a vários pontos do mundo”.
Porém, até o momento, o projeto não decolou. O avião opera mais como símbolo do que como experiência funcional, e muitos reclamam da falta de transparência, viabilidade e diálogo com a população local, já que foram derrubadas mais de 40 árvores e destruída uma quadra poliesportiva para dar lugar ao avião.
O que é o “Trem de Gelo”?
O “trem de gelo” é parte do ambicioso plano turístico. A ideia seria reformar um antigo vagão do Trem de Prata, que ligava a Guanabara àquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil, para transformá-lo em bar de drinks sofisticados com uma temperatura interna de vinte graus negativos.
Mesmo devidamente agasalhados, os visitantes só poderiam ficar 20 minutos lá dentro. A inauguração estava marcada para 2023. Contudo, até o fechamento deste texto, o plano continuava está em fase de anúncio e estruturação.

A estação de trem foi destombada para receber o “Trem de Gelo”?
Sim, e isso gerou inúmeras controvérsias. Em 21 de outubro de 2020, a Prefeitura de Barra do Piraí promoveu o cancelamento dos tombamentos da Estação Ferroviária de Ipiabas e da Estação Ferroviária de Santana de Barra.
O tombamento desses imóveis havia sido feito em 2005, garantindo proteção legal para preservar sua integridade arquitetônica e histórica.
O cancelamento do tombamento gera riscos de descaracterização e permite que intervenções sejam feitas com menos restrições legais, justamente para permitir modificações ou a instalação de vagões com bares exóticos.
Atualmente existe um abaixo-assinado pela permanência do tombamento dessas estações, argumentando que o patrimônio ferroviário regional precisa ser protegido.
As ruas têm mesmo trilhos de uma Maria Fumaça que nunca foi inaugurada?
Pois é. Parte do conspícuo plano turístico de Ipiabas incluía a promessa de implantação de uma Maria Fumaça, que ligaria o centro do distrito a sedes de fazendas históricas produtoras de café no século XIX.
Algumas ruas foram adaptadas e ganharam trilhos. Entretanto, nunca ninguém viu nem fumacinha da Maria Fumaça. Os gaiatos dizem que é um projeto platônico, ou seja, só existe no mundo das ideias e não na vida real.
O distrito tem um festival de pratos à base de tilápias?
O Tilápia Gourmet de Ipiabas é um evento gastronômico realizado em agosto voltado para valorizar a produção e uso da tilápia, que está caminhando para sua quarta edição.
Durante o festival todos os restaurantes da cidade oferecem diferentes pratos à base de tilápia, além de oficinas, degustações de bebidas locais e ampla programação para projetar Ipiabas também como polo gastronômico, aproveitando o apelo do peixinho, que tem carne branca, suave, poucas espinhas, como alimento com alto valor nutricional.

Ipabas é mesmo famosa pelos seus festivais de rock?
Desde 2015 Ipiabas organiza o Festival Rock in Cover, evento que ocorre durante dois finais de semana, somando mais de 40 horas de música e entretenimento
Como o próprio nome sugere é um festival de covers, com bandas como a Creuzebeck (cover dos Mamonas Assassinas), Markyze (do Charlie Brown Jr.), These Days (Bon Jovi), e os Coldplayers (do Coldplay), entre outras.
Além deste, há festivais menores ou shows pontuais organizados pela prefeitura de Barra do Piraí. E até um “esquenta” para o Rock in Cover chamado Festival Rock na estrada.

O que mais tem para fazer por lá?
Além das ambições turísticas, digamos, semirealizadas, Ipiabas oferece o tradicional mix de natureza, trilhas, cachoeiras, mata atlântica e paisagens rurais.
A proximidade com o Vale do Café permite visitas culturais e históricas às antigas fazendas e à memória do ciclo cafeeiro.
O distrito abriga também um badalado encontro anual de donos de motos Harley Davidson e o menos possante, porém não irrelevante, “Bike Fest Ipiabas”.
Melhor época para conhecer
A melhor época para visitar Ipiabas é durante o período seco, quando as trilhas e cachoeiras estão mais acessíveis e há menor risco de chuvas fortes que possam fechar estradas secundárias ou interromper trilhas. No interior fluminense é comum que os meses de abril a setembro sejam mais secos.
Além disso, se quiser aproveitar festivais culturais ou gastronômicos, vale acompanhar o calendário do Rock in Cover e do Tilápia Gourmet, que costumam ocorrer em datas específicas. O próximo Rock in Cover está marcado para abril de 2026.
Como chegar?
Partindo da Guanabara, são 114 km de estrada até Ipiabas, o que dá uma viagem de pouca mais de uma hora e meia. De ônibus é preciso ir até Barra do Piraí (tarifas a partir de R$ 58) e de lá pegar um ônibus municipal, táxi ou carro de aplicativo.


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