A radiação emitida por tomografias computadorizadas (TCs) pode ser responsável por até 5% de todos os casos de câncer anualmente nos Estados Unidos, segundo um estudo realizado pela Universidade da Califórnia (UCSF) e publicado nesta segunda-feira (15) na revista científica JAMA Internal Medicine. A pesquisa revela que cerca de 103 mil casos de câncer podem ser atribuídos aos aproximadamente 93 milhões de exames realizados em 2023, nos EUA, um número que cresceu significativamente ao longo dos últimos anos.
De acordo com Rebecca Smith-Bindman, radiologista da UCSF e líder do estudo, embora as tomografias sejam essenciais para o diagnóstico de várias doenças e possam salvar vidas, seus riscos muitas vezes são subestimados. “A tomografia pode salvar vidas, mas seus potenciais danos são frequentemente ignorados”, declarou Smith-Bindman. Ela ressaltou ainda que a exposição a altos níveis de radiação da TC coloca esse exame em uma posição de risco semelhante ao consumo de álcool e à obesidade. Para a especialista, “reduzir o número de exames e as doses por exame salvaria vidas”.
Benefícios e riscos das tomografias computadorizadas
A tomografia computadorizada é uma ferramenta diagnóstica indispensável, utilizada na detecção de tumores, hemorragias internas e diversas doenças pulmonares, cardíacas e abdominais. Nos Estados Unidos, o número de exames anuais aumentou mais de 30% na última década, e sua capacidade de fornecer imagens detalhadas ajuda os profissionais de saúde a identificar condições que outros exames não conseguem detectar.
No entanto, o uso excessivo desse exame traz riscos, principalmente devido à radiação ionizante. Esta radiação é considerada uma substância cancerígena e pode danificar o DNA celular, aumentando o risco de câncer com o tempo. O estudo da UCSF alerta que bebês, crianças e adolescentes, que representam 4,2% dos exames realizados, são mais vulneráveis aos efeitos da radiação. Para essas faixas etárias, os riscos de desenvolvimento de câncer são até 10 vezes maiores do que para adultos, com os tipos mais comuns sendo câncer de tireoide, pulmão e mama.
Impacto em adultos e crianças
Entre os adultos, a faixa etária de 50 a 59 anos apresenta o maior número de casos de câncer resultantes de tomografias, com 10.400 casos em mulheres e 9.300 em homens. Os tipos mais comuns de câncer observados em adultos incluem os de pulmão, cólon, bexiga, mama e leucemia. Para as crianças, os exames de tomografia craniana são os mais responsáveis pelo aumento de casos, especialmente no caso de tumores cerebrais.
Smith-Bindman e outros especialistas apontam que muitos exames podem ser evitados, já que apresentam baixo potencial de benefício para os pacientes. Exemplos incluem tomografias feitas para dores de cabeça sem sinais clínicos graves ou para outras condições que não justifiquem a exposição à radiação. A especialista também sugere a adoção de doses mais baixas de radiação, uma vez que há grande variação nos níveis de radiação usados em tomografias, com alguns pacientes recebendo doses excessivas.
Iniciativas de conscientização
Além dos Estados Unidos, outros países têm se preocupado com os riscos associados ao uso excessivo de tomografias. No Brasil, por exemplo, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou em 2018 a campanha Image Gently Brasil, com o objetivo de promover o uso racional de tomografias e aumentar a conscientização de pais, profissionais de saúde e técnicos responsáveis pela execução dos exames.
Apesar das iniciativas, o número de exames realizados continua a crescer. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), um ano após o lançamento da campanha, a média de exames realizados por beneficiários de planos de saúde no Brasil foi de 19,8 por ano, um aumento em relação ao período anterior.
Este estudo alerta para a necessidade de um debate mais aprofundado sobre o uso das tomografias e o equilíbrio entre seus benefícios no diagnóstico e os riscos à saúde dos pacientes, principalmente no que diz respeito à exposição à radiação.
Com informações de O Globo





