A população negra permaneceu como a principal vítima da violência letal no Brasil em 2025. De acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), pessoas pretas e pardas representaram 79,7% de todas as vítimas de mortes violentas intencionais registradas no país ao longo do ano passado.
O percentual está mais de 24 pontos percentuais acima da participação desse grupo na população brasileira. Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretos e pardos correspondem a 55,5% dos habitantes do país.
Embora o Brasil tenha registrado a menor taxa de mortes violentas da série histórica iniciada em 2012, o estudo aponta que a redução da violência não eliminou as profundas desigualdades raciais presentes nos indicadores de segurança pública.
Ao longo de 2025, foram contabilizadas 40.775 mortes violentas intencionais, o equivalente a uma taxa de 19,1 vítimas por 100 mil habitantes. O número representa queda de 8,2% em relação a 2024 e redução de 31% na comparação com o primeiro ano da série histórica do Fórum.
As mortes violentas intencionais englobam homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, tanto em serviço quanto fora dele.
Desigualdade aparece em todas as modalidades de crimes
O levantamento mostra que a sobrerrepresentação da população negra ocorre em todas as categorias analisadas pelo Anuário.
Nos homicídios dolosos, pessoas negras representam 79,9% das vítimas.
A maior disparidade aparece nas mortes decorrentes de intervenção policial. Nesse grupo, 82% das vítimas eram negras, enquanto pessoas brancas responderam por 17,7% dos casos.
Nas ocorrências de lesão corporal seguida de morte, a população negra correspondeu a 68,6% das vítimas, contra 30,1% de pessoas brancas.
Já nos latrocínios — roubos seguidos de morte — os percentuais foram de 62,8% para negros e 36,7% para brancos.
O estudo observa ainda que indígenas e pessoas amarelas aparecem em percentuais reduzidos nas estatísticas nacionais. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, isso não elimina a necessidade de produzir dados específicos e análises regionalizadas para essas populações.
Letalidade policial atinge principalmente a população negra
O Anuário também evidencia que as mortes provocadas por intervenções policiais continuam afetando de forma desproporcional a população negra.
Em 2025, a taxa foi de 3,5 mortes por 100 mil habitantes entre pessoas pretas e pardas, enquanto entre pessoas brancas o índice permaneceu em 1 morte por 100 mil habitantes.
Na prática, uma pessoa negra teve 3,5 vezes mais chances de morrer em ações policiais do que uma pessoa branca.
Além disso, enquanto a taxa cresceu 3,5% entre negros em relação ao ano anterior, permaneceu estável entre a população branca.
Ao todo, foram registradas 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, aumento de 5,4% sobre 2024. Essas ocorrências passaram a representar 16,2% de todas as mortes violentas intencionais do país, o equivalente a uma em cada seis vítimas.
O relatório destaca que este foi o maior número da série histórica. Entre os episódios que contribuíram para esse cenário está a Operação Contenção, realizada em outubro nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que terminou com 122 mortos, incluindo cinco agentes de segurança.
Homens jovens negros concentram maior parte das vítimas
O perfil das vítimas permanece praticamente inalterado nos últimos anos.
Homens representam 90,8% das vítimas de mortes violentas intencionais. Nas mortes decorrentes de intervenção policial, esse percentual sobe para 99,3%.
Os jovens entre 18 e 29 anos respondem por 41,6% das vítimas de violência letal. No caso específico das ações policiais, cerca de 36% dos mortos tinham entre 18 e 24 anos.
Entre crianças e adolescentes, a desigualdade racial se torna ainda mais evidente conforme aumenta a idade.
Na faixa de até 11 anos, 62,6% das vítimas eram negras. Já entre adolescentes de 12 a 17 anos, esse percentual alcançou 86,3%, indicando que praticamente nove em cada dez adolescentes assassinados no país pertenciam à população negra.
Entre as mulheres vítimas de violência letal, negras correspondiam a 65,1% dos casos de feminicídio e a 74,6% das demais mortes violentas intencionais.
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, crescimento de 4% em relação ao ano anterior.
Sistema prisional também reflete desigualdade racial
O Anuário aponta que a sobrerrepresentação da população negra também aparece no sistema de justiça criminal.
Em 2025, 69,6% das pessoas privadas de liberdade eram negras, o maior percentual desde 2005, quando os dados passaram a ser desagregados por raça e cor.
Já as pessoas brancas representaram 29,2% da população carcerária, menor índice da série histórica.
No sistema socioeducativo, 73,7% dos adolescentes em cumprimento de medidas em meio fechado se autodeclararam negros. Desse grupo, 56,3% eram pardos e 17,4% pretos. A maior parte, 76,1%, tinha entre 16 e 18 anos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a repetição desse padrão ao longo de duas décadas indica uma seletividade racial persistente no funcionamento do sistema de justiça criminal brasileiro.
Casos de racismo continuam crescendo
O levantamento também identificou aumento das ocorrências relacionadas a crimes raciais.
Em 2025, foram registrados 30.743 boletins de ocorrência por racismo, alta de 13% em comparação com o ano anterior.
Os registros de injúria racial chegaram a 21.443 casos, crescimento de 9,2%.
Pelo segundo ano consecutivo, os casos de racismo superaram os de injúria racial. O Anuário atribui essa mudança aos efeitos da Lei 14.532/2023, que passou a equiparar a injúria racial ao crime de racismo.
O relatório ressalta, entretanto, que ainda há diferenças entre os estados na forma de registrar essas ocorrências, o que dificulta comparações nacionais. Em 2025, 26 unidades da federação informaram dados sobre racismo e 25 enviaram informações sobre injúria racial.
Meta nacional foi alcançada antes do previsto
Os homicídios dolosos totalizaram 32.914 casos em 2025, correspondendo a uma taxa de 15,4 mortes por 100 mil habitantes, queda de 10% em relação ao ano anterior.
Com esse resultado, o Brasil atingiu dois anos antes da previsão a meta estabelecida pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, que previa reduzir a taxa para 16 homicídios por 100 mil habitantes apenas em 2027.
Apesar da melhora nos indicadores nacionais, o Anuário aponta que feminicídios e mortes decorrentes de intervenção policial seguiram em crescimento.
Além disso, sete unidades da federação registraram aumento das mortes violentas intencionais em 2025: Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é elaborado a partir de microdados dos registros policiais, informações encaminhadas pelas secretarias estaduais de Segurança Pública e Defesa Social e estimativas populacionais do IBGE.






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