Foto: Gel blasters, oferecidas ao ar livre na Rua da Alfândega, são comparadas na caixa do produto a armamentos reais, como o fuzil AK-47
Neste Natal, videogame, bicicleta, bola de futebol e outros tradicionais objetos de desejo foram ofuscados pelo “brinquedo do momento”: aquelas armas coloridas que utilizam bolinhas de gel como munição.
O problema é que o presente cobiçado da vez não é um brinquedo — sequer pode ser classificado desta forma, como esclarece o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Por lei, essas réplicas de peças usadas no airsoft, um esporte de tiro recreativo, devem ser vendidas em lojas especializadas, e apenas para maiores de 18 anos. A realidade nas ruas, no entanto, é outra. Armas de mentirinha, empunhadas em vídeos nas redes sociais, chegam a assustar de verdade e são vendidas sem controle, tanto em lojas quanto por camelôs nas calçadas.
A preços que podem alcançar R$ 210, modelos de gel blaster, nome pelo qual o item trazido da China é conhecido, são oferecidos ao ar livre nas ruas da Saara, tradicional centro de comércio popular do Rio. A presença de agentes da Guarda Municipal não inibe a ação dos vendedores. Na Rua Buenos Aires, também repleta de barracas com arsenais das réplicas expostas ao lado de brinquedos variados, um camelô repetia seu slogan: “Brinca ele, brinca ela, arma já vai com munição e com os óculos de proteção”.
A proposta chamou a atenção de Fábio Rios, pai de Sofia Fagundes, de apenas 11 anos, que acabou comprando uma arma para a filha:
— Ela pediu muito essa. Vou deixar usar desde que tenha juízo, use os óculos e tudo mais — disse ele.
Às vésperas da festa, a procura por gel blasters se intensificou, empurrada pela publicidade gratuita de batalhas no estilo paintball travadas nas ruas, gravadas e divulgadas nas redes, além de sua associação a jogos de combate do universo do videogame, como Call of Duty e Fortnite.
— Está vendendo muito para o Natal. As crianças não querem saber de nenhum brinquedo, só querem as arminhas — disse um camelô, que oferece o item por R$ 150.
Na manhã de ontem, a equipe do GLOBO foi ao Centro e registrou pelo menos dez ambulantes anunciando as armas ao público como “brinquedos”. Na Rua Uruguaiana, entre a Buenos Aires e a Senhor dos Passos, um dos ambulantes chegou a disparar bolinhas de gel, sem medo de atingir quem estivesse passando, e chegou a ser repreendido por um colega:
— Para com isso, vai pegar na senhora ali passando — alertou um dos ambulantes.
Uma mulher, que passava pelos camelôs, e preferiu não se identificar, contou que tem um filho de 6 anos e ignorou os pedidos do menino, de ganhar uma arma de gel de presente no Natal:
— O perigo não é só da bolinha cair no olho. Com a criminalidade que temos hoje em dia, o policial claramente pode confundir isso com uma arma de verdade. Aí acontece de uma criança inocente acabar sendo baleada.
O sociólogo Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Uerj, concorda que a onda das brincadeiras com réplicas pode deixar as pessoas em perigo, caso elas sejam confundidas com armas verdadeiras, por exemplo.
— No Rio, a polícia já matou pessoas que portavam objetos como furadeiras e outros itens confundidos com armas de fogo. Em certos territórios, isso é extremamente perigoso, especialmente à noite — afirma o professor, antes de acrescentar: — Um segundo efeito é a contribuição para a expansão da cultura das armas, trivializando o uso de objetos que imitam armas de fogo entre crianças e adolescentes.
Batalhas nas ruas
No Rio, vídeos de batalhas de gel nas ruas viralizam nas redes sociais. Em registro da semana passada, dois policiais militares abordaram jovens na cidade de Volta Redonda, no Sul Fluminense, que usavam armas de gel enquanto “brincavam de arrastão”. Levaram uma bronca. “Eu sei que é brincadeira, mas alguém vai acabar se dando mal com isso. Se um policial ou um criminoso não perceber que é brinquedo, a situação pode terminar mal”, disse um dos agentes.
Na noite da última quinta-feira, jovens carregando gel blasters atravessaram as pistas da Avenida Brasil, correndo entre os carros. Em outro vídeo, da semana passada, um grupo carregando réplicas tomou um caminhão da Comlurb para usá-lo em uma “batalha” em Senador Camará, na Zona Oeste. Sobre esses dois casos, a PM informou, em nota, que “não houve acionamento para as ocorrências” e que alerta sobre “os riscos de portar esse tipo de brinquedo em via pública”. “Sendo identificados simulacros de arma de fogo, os envolvidos podem ser conduzidos para a delegacia”, acrescentou.
A Polícia Civil esclarece que o uso de armas de gel para recreação não é crime, mas qualquer artefato semelhante a uma arma de fogo, que não tenha ponta laranja ou vermelha, capaz de diferenciá-lo de uma arma real, poderá ser apreendido como simulacro.
Também em nota, o Exército explica que lançadores de gel “funcionam com a utilização de baterias e não se confundem com armas de pressão, como airsoft; não apresentam poder destrutivo, uma vez que as bolinhas de gel de 8mm são lançadas a distâncias de 5m a 10m e ao atingirem o alvo se desfazem sem causar qualquer dano”.
A venda do “brinquedo do momento” já foi proibida nas cidades de Olinda e Paulista, em Pernambuco. No Rio, o assunto está em discussão na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa.
Com informações de O Globo





