Pressão internacional por minerais estratégicos impulsiona garimpo ilegal na Amazônia

Corrida por matérias-primas usadas em carros elétricos, drones e armamentos impulsiona avanço de redes criminosas na floresta tropical

A crescente disputa global por minerais estratégicos usados em tecnologias militares, veículos elétricos e equipamentos de alta performance abriu uma nova frente de exploração ilegal na Amazônia brasileira, segundo o The New York Times. Garimpeiros e organizações criminosas passaram a mirar terras raras e outros recursos considerados essenciais para a economia do futuro, ampliando preocupações ambientais e de segurança no país.

O avanço da mineração clandestina ocorre em meio à corrida internacional por matérias-primas críticas, impulsionada principalmente pelos esforços de países como os Estados Unidos para reduzir a dependência da China, atual líder global na extração e no refino desses minerais.

Com algumas das maiores reservas conhecidas do planeta, o Brasil se tornou peça estratégica nesse tabuleiro geopolítico. Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras enfrentam o crescimento de uma cadeia ilegal que envolve extração clandestina, falsificação de documentos, lavagem mineral, contrabando internacional e atuação de organizações criminosas na floresta amazônica.

Entre os minerais mais cobiçados estão as chamadas terras raras, grupo formado por 17 elementos químicos fundamentais para a fabricação de ímãs de alta potência utilizados em drones, mísseis guiados, turbinas eólicas, celulares, computadores, carros elétricos e caças militares.

O mercado desses minerais se transformou em um dos setores mais estratégicos da economia global. Segundo a Agência Internacional de Energia, o segmento de minerais essenciais já movimenta mais de US$ 300 bilhões e pode mais que dobrar até 2035.

PF vê avanço de operações quase industriais

O crescimento da exploração ilegal desses recursos já mobiliza autoridades federais brasileiras.

O diretor da Polícia Federal para a Amazônia e meio ambiente, Humberto Freire de Barros, afirmou que a procura por minerais estratégicos vem crescendo rapidamente.

“A demanda é muito forte —e só aumenta”, declarou.

Segundo Barros, parte do material extraído ilegalmente pode ser comercializada no mercado interno ou enviada clandestinamente para a Ásia e a Europa, onde passa por processos de refino e industrialização.

O delegado ressaltou ainda que a atividade já ultrapassou o perfil tradicional de pequenos garimpos improvisados na floresta.

“O que estamos vendo não é mineração artesanal. São operações em escala quase industrial.”

A Polícia Federal evita detalhar quais minerais estão sendo alvo prioritário das organizações criminosas e quais grupos estão sob investigação, alegando que há apurações sigilosas em andamento.

Rede criminosa envolve empresas e lavagem mineral

As investigações revelam que a cadeia ilegal de minerais críticos funciona de maneira sofisticada e integrada.

A extração de terras raras exige técnicas complexas de separação e processamento. Embora esses elementos sejam relativamente abundantes na natureza, sua exploração comercial depende de grandes volumes de solo e de estrutura industrial para refino.

Autoridades brasileiras apontam que parte da matéria-prima retirada ilegalmente acaba sendo enviada para a China, responsável por concentrar grande parte do processamento mundial desses recursos.

Além das terras raras, operações policiais já identificaram exploração clandestina de manganês, mineral utilizado em baterias de veículos elétricos.

Segundo investigadores, a estrutura criminosa envolve garimpeiros, empresas de fachada, operadores financeiros, intermediários, servidores públicos e compradores internacionais.

Uma das estratégias utilizadas pelos grupos é a chamada “lavagem” mineral. Nesse modelo, cargas retiradas ilegalmente recebem documentação falsa para aparentar origem regular.

Em alguns casos, segundo autoridades, licenças ambientais são emitidas sem análises técnicas adequadas. Em outros, redes ligadas ao narcotráfico participam do transporte clandestino, enquanto agentes públicos são suspeitos de facilitar exportações ilícitas mediante pagamento de propina.

Rotas seguem caminhos do ouro e da cocaína

O transporte dos minerais ilegais segue trajetos já conhecidos pelas autoridades na Amazônia.

As cargas utilizam rotas semelhantes às usadas no contrabando de ouro e cocaína, atravessando rios, estradas clandestinas e pistas aéreas improvisadas até chegarem a centros logísticos e portos marítimos.

O agente aduaneiro da Receita Federal Rômulo Brandão Neto relatou que parte das cargas chega aos portos acompanhada de certificados fraudulentos.

Em uma das fiscalizações, ele verificou imagens de satélite da suposta área de origem do minério e constatou ausência total de atividade de mineração no local indicado.

“É uma mina fantasma”, afirmou.

Segundo Neto, os contrabandistas também utilizam estratégias para dificultar a identificação do material transportado. Em alguns casos, os minerais críticos são misturados a outras cargas ou declarados como minérios diferentes, como ferro, para driblar a fiscalização.

A dificuldade de rastreamento preocupa especialistas em segurança ambiental.

O diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, Robert Muggah, alertou para o crescimento da circulação de materiais sem controle adequado.

“Esses sacos de material estão aparecendo em barcaças, e ninguém sabe ao certo do que se trata”, disse.

Brasil vira peça-chave em disputa global

O interesse internacional sobre os minerais brasileiros se explica pelo tamanho das reservas existentes no país.

O Brasil é apontado como detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China. Estimativas indicam que o território brasileiro concentra entre 19% e 23% das reservas globais desses minerais.

Além disso, o país reúne praticamente toda a reserva mundial de nióbio, recurso usado na produção de ligas metálicas mais leves e resistentes aplicadas em gasodutos, motores aeronáuticos e estruturas de alta tecnologia.

Esse cenário transformou o Brasil em peça central da disputa geopolítica envolvendo minerais críticos.

Governos estrangeiros tentam reduzir a dependência da China, que domina grande parte da cadeia global de fornecimento e já sinalizou disposição para restringir exportações estratégicas em meio às tensões comerciais internacionais.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tenta estruturar uma cadeia produtiva nacional capaz de transformar essas reservas em produtos de maior valor agregado.

Especialistas alertam, porém, que o avanço da mineração ilegal ameaça comprometer a credibilidade internacional da produção mineral brasileira.

Impactos ambientais e sociais preocupam

Além da dimensão econômica e geopolítica, a expansão do garimpo clandestino amplia riscos ambientais em uma região considerada fundamental para o equilíbrio climático global.

A Amazônia desempenha papel decisivo na absorção de dióxido de carbono e na regulação do clima. Cientistas estimam que cerca de um quinto da floresta já tenha sido desmatado.

Pesquisadores alertam para o risco de aproximação de um ponto de inflexão ambiental, em que partes significativas da floresta poderiam sofrer alterações irreversíveis.

A mineração ilegal intensifica esse cenário ao provocar abertura de clareiras, destruição da vegetação, assoreamento de rios e contaminação do solo.

Organizações ambientais e entidades de direitos humanos também associam a atividade clandestina a violações graves, incluindo trabalho forçado, violência e impactos sobre comunidades indígenas.

As autoridades apontam ainda que a exploração ilegal fortalece economias criminosas já estabelecidas na região, conectando garimpo, narcotráfico, lavagem de dinheiro e contrabando internacional.

Governo prepara novas regras de controle

Diante do avanço das atividades ilegais, o Brasil discute mudanças na regulamentação do setor mineral.

Projetos em análise buscam ampliar mecanismos de rastreabilidade, definir áreas autorizadas para exploração e endurecer a fiscalização sobre a cadeia produtiva dos minerais críticos.

A Polícia Federal também trabalha em novas tecnologias para identificar a origem do material apreendido.

Segundo Humberto Freire de Barros, uma das medidas em desenvolvimento é a criação de um banco de dados com amostras capazes de associar minerais a regiões específicas de extração, modelo semelhante ao utilizado no combate ao comércio ilegal de ouro.

O objetivo das autoridades é atingir todos os níveis da estrutura criminosa.

“Estamos atacando cada elo dessa cadeia de abastecimento criminosa. Nosso objetivo é desmantelá-la”, afirmou o diretor da PF.

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