Garimpo ilegal se consolida como principal crime ambiental na fronteira amazônica, diz Abin

Mineração ilegal avança na fronteira da Amazônia e movimenta milhões em ouro extraído por redes criminosas

Um relatório inédito da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aponta que a mineração ilegal de ouro se expandiu de forma alarmante na fronteira entre o Brasil e a Colômbia, transformando-se na principal atividade criminosa e no maior ilícito ambiental da região amazônica. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o avanço é impulsionado por fatores combinados: a valorização do ouro no mercado internacional, a ausência de fiscalização efetiva do Estado e a facilidade de circulação nas fronteiras, o que favorece redes criminosas transnacionais.

O documento, elaborado em parceria com a Direção Nacional de Inteligência (DNI) da Colômbia, alerta que o garimpo ilegal, o narcotráfico e o tráfico humano formam um tripé de ameaças crescentes à segurança ambiental e social da Amazônia. Trata-se do primeiro relatório público conjunto entre agências de inteligência sul-americanas sobre o tema.

Segundo a Abin, a mineração ilegal responde por cerca de um terço da produção anual de ouro no Brasil. Na faixa de fronteira amazônica, o quadro é ainda mais crítico: praticamente todo o ouro extraído tem origem ilícita.

Ouro recordista e redes transnacionais

A alta histórica do ouro ampliou os lucros do garimpo ilegal. O preço do metal subiu mais de 40% em 2024, alcançando um recorde de US$ 3.000 (R$ 16,1 mil) por onça em março de 2025. O comércio clandestino se tornou um negócio bilionário na América Latina e no Caribe.

A extração ocorre principalmente por meio de balsas e dragas nos grandes rios amazônicos — Caquetá-Japurá, Putumayo-Içá e Solimões, entre outros. Essas embarcações escavam o leito dos rios em busca de ouro, utilizando motores de alta potência e tubos de sucção que chegam a 15 metros de profundidade.

O relatório descreve uma estrutura sofisticada: balsas que custam a partir de US$ 15 mil (R$ 80 mil) e dragas avaliadas em milhões de dólares. Os garimpeiros utilizam grandes volumes de combustíveis fósseis e mercúrio, cuja contaminação se espalha pelos rios, alterando a turbidez da água, reduzindo a penetração de luz e comprometendo a fauna aquática.

Impactos ambientais e sociais

A Abin alerta que os danos ambientais são amplos e de longo prazo. A poluição química e o assoreamento afetam diretamente comunidades ribeirinhas e povos indígenas, que dependem dos rios para subsistência, pesca e abastecimento.

Na região do rio Puruê, entre 2019 e agosto de 2024, a mineração ilegal devastou 2.559 hectares de floresta. Municípios como Japurá, Jutaí, Santo Antônio do Içá e Tabatinga (AM) tornaram-se polos logísticos do garimpo, com economias locais cada vez mais dependentes da atividade.

Essas cidades oferecem serviços essenciais à cadeia ilegal — desde o abastecimento de combustível até a comercialização do ouro, a manutenção de balsas e o recrutamento de trabalhadores.

Conexões com o narcotráfico

O relatório também expõe as conexões entre o garimpo ilegal e o crime organizado. No lado colombiano, grupos armados como os Comandos da Fronteira controlam áreas de mineração e utilizam o ouro como meio de lavagem de dinheiro, compra de armas e pagamento por remessas de cocaína.

Segundo o documento, esses grupos chegam a obter lucros superiores aos do próprio narcotráfico. Eles cooptam jovens indígenas para atuar na extração ilegal, no transporte de drogas e até na manutenção de plantações de coca. O pagamento é frequentemente feito em pasta base de cocaína, o que agrava o consumo e a violência nas comunidades.

No Brasil, a Abin não encontrou evidências de que facções como o Comando Vermelho e o PCC participem diretamente da extração de ouro, embora mantenham relações comerciais com grupos colombianos para o tráfico de drogas e o escoamento de mercadorias ilegais.

Rios sob pressão e regiões mais críticas

A pesquisa destaca áreas de risco elevado na fronteira amazônica.

Na bacia do Caquetá/Japurá, o rio Juami — dentro da Estação Ecológica Juami-Japurá — vive um dos piores cenários de mineração ilegal, com 116 alertas de garimpo em 2024. Já o rio Puruê é utilizado como rota de fuga para a Colômbia durante fiscalizações e apresenta intensa contaminação por mercúrio.

Na bacia do Jutaí, o rio Bóia sofre com balsas de grande porte e assoreamento severo. Garimpeiros avançam sobre unidades de conservação, como a Reserva Extrativista do Rio Jutaí e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Cujubim.

Na bacia do Putumayo/Içá, o rio Puretê serve de corredor para organizações criminosas e tem mineração associada ao tráfico. Em Santo Antônio do Içá, a atividade ilegal movimenta combustível, maquinário e ouro sem registro.

No norte da fronteira Brasil-Colômbia, o rio Traíra é usado como limite natural entre os dois países, com garimpeiros brasileiros e colombianos operando lado a lado. No departamento colombiano de Guainía, no rio Inírida, foram utilizados mais de 3 toneladas de mercúrio entre 2015 e 2023.

A cadeia do ouro ilegal

O relatório classifica quatro categorias de agentes na mineração clandestina.

As redes criminosas e empreendedores financiam e coordenam toda a operação, muitas vezes com ramificações internacionais. Os grupos armados não estatais, como os Comandos da Fronteira, impõem controle territorial, extorquem garimpeiros e mantêm atividades ligadas ao narcotráfico.

A mão de obra é composta por garimpeiros e trabalhadores locais, que atuam na extração, manutenção de equipamentos e transporte. Já os facilitadores — empresários, políticos e agentes públicos — são os responsáveis por “esquentar” o ouro, emitir notas fiscais fraudulentas e corromper estruturas legais.

No Brasil, parte do metal é vendida diretamente em áreas de garimpo e cidades amazônicas. Outra parcela segue para centros como Manaus e Itaituba (PA), onde entra no mercado formal por meio de documentação falsificada.

Um desafio regional de segurança e soberania

O relatório da Abin e da DNI alerta que o combate ao garimpo ilegal na Amazônia exige uma ação conjunta entre os países da região. A mineração clandestina, o tráfico e o desmatamento formam uma cadeia de crimes interligados que ameaçam não apenas a biodiversidade, mas também a segurança nacional e a integridade das fronteiras.

Com a COP30 se aproximando, o documento deve servir de base para novas estratégias de cooperação internacional e de fiscalização integrada, especialmente nas áreas mais remotas da floresta.

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