O Comando Vermelho está em meio a um ciclo acelerado de expansão territorial e econômica na Amazônia Legal. Com o domínio consolidado nos últimos anos desse território, a facção criminosa do Rio hoje exerce influência em 286 cidades na região, segundo revela o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”, divulgado nesta quarta-feira (19) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública durante a COP30, em Belém (PA).
É o equivalente a 83% dos municípios sob influência de facções na região, mais que o dobro em relação às 128 cidades com presença do CV identificadas no estudo de 2023. Essa expansão demonstra a hegemonia em comparação ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A facção criminosa paulista, que se mantém estável nos últimos três anos, está presente em 90 cidades da Amazônia Legal. O número é três vezes menor em comparação com o CV.
Os dados indicam o processo de “nacionalização” que já havia sido apontado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em um debate na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Senado, em Brasília. Segundo a agência, a estratégia do CV para buscar esses territórios foi o de construir alianças com grupos locais nos estados do Norte e Nordeste, aproveitando um vácuo de poder deixado pelo PCC, que passou a priorizar a exportação da droga para outros países. “O CV começa a oferecer para esses grupos uma rede de acesso logístico a armas e drogas, em uma cadeia de comando muito mais descentralizada do que a facção paulista. E, a partir disso, o CV foi se proliferando”, disse Pedro de Souza Mesquita, coordenador-geral de análise de conjuntura da Abin.

A facção do Rio se expandiu para a Amazônia em 2012, quando buscou as primeiras alianças com grupos locais em Belém, capital paraense. “O Rio se consolidou como aliado. Isso fez com que muitas lideranças do Pará passassem a buscar refúgio nas favelas cariocas. E, de lá, passaram a controlar o tráfico local, seguindo uma estrutura hierárquica de organização”, disse Aiala Couto, diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula.
Com a hegemonia na região, o CV diversificou a sua atividade criminosa no território, intensificando a participação em crimes ambientais. Com uma atuação mais sofisticada, a facção começou a explorar o ouro ilegal, a madeira, o garimpo clandestino, a grilagem, o desmatamento e até em postos de combustível para potencializar os seus lucros.
“Drogas e armas representam uma parcela da lucratividade. Hoje, o dono de um posto de gasolina tem que competir com alguém que bate na porta e quer comprar o negócio dele apontando uma arma, usando o negócio para fazer a lavagem de dinheiro. O caminho é inevitavelmente o avanço para a infiltração estatal e de usurpação de contratos públicos”.
Pedro de Souza Mesquita, Abin
Crimes ambientais e lavagem de dinheiro em terras indígenas
Análises técnicas fornecidas pelo Ministério dos Povos Indígenas indicam que as invasões são sustentadas por cadeias econômicas ilegais e redes organizadas que combinam crimes ambientais, lavagem de dinheiro e violência territorial.

É o que ocorre na Terra Indígena Sararé (MT), próximo à fronteira com a Bolívia, onde o garimpo passou a ser financiado e protegido por grupos armados ligados ao tráfico de drogas e armas. Em agosto deste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) inutilizou 100 escavadeiras hidráulicas, 312 motores estacionários e 428 acampamentos do garimpo ilegal na região. A ação contou com o apoio do Ministério dos Povos Indígenas, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), PF, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança Pública e da Abin.
“Há registros de cooperação entre garimpeiros e intermediários ligados ao CV e facções bolivianas que operam o comércio ilegal de ouro. Essas redes utilizam os garimpos para lavagem de dinheiro e compra de insumos químicos usados no refino de cocaína, ampliando a interconexão entre as economias do ouro e da droga”.
Um dos trechos do relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”
O documento cita, ainda, o efeito destrutivo desse tipo de aliança. “O impacto é duplo: ambiental, com poluição e desmatamento intensos, e criminal, com aumento da violência armada e ameaças a lideranças indígenas Nambikwára”, conclui.

CV aposta em domínio territorial, diz presidente do Fórum
Diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima explica que a expansão do CV na Amazônia Legal tem relação direta com o perfil das principais facções criminosas do país.
Enquanto o PCC aposta em uma lógica voltada ao tráfico internacional de drogas, a facção criminosa do Rio de Janeiro tem uma conduta ligada ao domínio de territórios.
“Quando controla o território, o CV começa a usar as terras indígenas para fazer a lavagem do dinheiro. As facções perceberam que há uma simbiose entre a tecnologia de lavagem de dinheiro e o faturamento com o crime ambiental. A Amazônia se transformou em uma região fundamental para os negócios das facções, que agora podem capturar mercados lícitos, como ouro, madeira e pesca”.
Renato Sérgio de Lima
O diretor-presidente do Fórum cita, ainda, a consolidação da rota pelo Alto dos Solimões como um dos principais percursos dominados pelo CV ligados ao tráfico. “Apesar da diversificação de negócios, a droga ainda é o produto mais rentável das facções”, diz.

Facções avançam 32% na Amazônia Legal
A presença de facções criminosas na Amazônia Legal atingiu, em 2025, o maior nível já registrado desde o início do monitoramento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em um ano, o total de municípios com atuação de grupos como CV e PCC saltou de 260 para 344, crescimento de 32%, segundo o relatório.
Em dois anos, o avanço praticamente dobrou: em 2023, eram 178 cidades com presença de facções, número que agora corresponde a 44,6% dos 772 municípios amazônicos. A pesquisa destaca que a expansão pode refletir tanto o crescimento real das organizações quanto melhorias metodológicas e o aumento de operações policiais, que revelam estruturas antes não identificadas.

O relatório revela que 84 novos municípios passaram a ter influência direta das facções somente em 2025. Em 2024, o salto já havia sido expressivo, com aumento de 46% em relação ao ano anterior. A expansão rompe o padrão urbano: dos 344 municípios listados, 166 são rurais. As organizações criminosas se fortalecem em rotas fluviais, áreas de fronteira internacional e regiões marcadas por garimpo ilegal, grilagem e exploração madeireira.
O Mato Grosso lidera o avanço: 50 dos 84 novos municípios estão no estado. O Pará aparece em seguida, com 18 novas cidades afetadas. Atualmente, 258 municípios têm a presença de uma facção, enquanto 86 registram disputa entre dois ou mais grupos.
A nova edição do levantamento aponta que a expansão das facções integra um ecossistema criminal mais amplo, que conecta narcotráfico, crimes ambientais e economias predatórias. Os pesquisadores descrevem esse fenômeno como uma “evolução estratégica”, capaz de reorganizar territórios, redes de poder e dinâmicas de violência.
Em muitas áreas, as facções operam como Estado paralelo: cobram pedágios sobre atividades ilegais, impõem regras e exercem controle violento. A disputa por rotas de drogas se transforma em uma forma de governança armada, especialmente em regiões onde o Estado está ausente.

O garimpo ilegal é apontado como o eixo central que conecta facções ao narcotráfico. O capital movimentado pelas drogas é reinvestido na extração mineral clandestina, e o ouro funciona como moeda de troca para a compra de cocaína na Colômbia e no Peru.
Grupos como o CV controlam cadeias de extração. Rotas clandestinas, fluviais e aéreas, servem simultaneamente ao transporte de ouro, cocaína, armas e trabalhadores cooptados. As facções também diversificam negócios, com vínculos com desmatamento ilegal, grilagem usada para lavagem de recursos, exploração madeireira e pesca predatória. Essa estratégia consolida um “portfólio interdependente de negócios ilícitos”, transformando a floresta em ativo econômico do crime organizado.
O avanço das facções altera a dinâmica da violência e intensifica riscos para mulheres, povos indígenas e moradores de áreas isoladas, que vivem distantes de serviços públicos essenciais. As taxas de violência sexual na Amazônia Legal são 33,8% superiores à média nacional. Em áreas de garimpo ilegal, mulheres enfrentam exploração sexual, punições e servidão por dívida, situação agravada pela presença de grupos armados.
Em Terras Indígenas como Vale do Javari, Yanomami, Sararé, Munduruku e Kayapó, facções impõem novas ameaças às comunidades, que passam a conviver com aliciamento de jovens, mercúrio no ambiente e degradação acelerada. O relatório aponta que, no Alto Solimões, o tráfico explora a ausência do Estado e usa territórios indígenas como corredores estratégicos para o escoamento internacional da cocaína.

Assassinatos na Amazônia Legal e avanço do CV
O número de vítimas de mortes violentas intencionais nos 772 municípios da Amazônia Legal foi de 8.047 em 2024. A taxa de 27,3 assassinatos por 100 mil habitantes é 31% superior à média nacional. O estado mais violento da região e do país foi o Amapá, com taxa de 45,1 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.
O Maranhão também se destacou negativamente por ter sido o único que apresentou aumento nas taxas de homicídio entre 2023 e 2024 (11,5%). O estado vive uma disputa territorial pelo controle do tráfico de drogas entre o Bonde dos 40, o CV e o PCC.
Entre as cidades mais violentas com até 20 mil habitantes, um dos destaques negativos é Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso. O número de assassinatos passou de 12 em 2022 para 42 em 2024, fenômeno relacionado ao avanço do CV. A cidade possui posição estratégica para o tráfico internacional de drogas pela proximidade com a Bolívia. E também abriga parte da Terra Indígena Sararé, que registrou crescimento exponencial do garimpo.


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