A Polícia Civil tem desvendado um esquema do Comando Vermelho (CV) para diversificar a sua forma de atuação, adotando táticas aos moldes da milícia para lucrar com a exploração dos próprios moradores na Zona Norte da capital fluminense.
Inquéritos policiais indicam que a principal facção criminosa do Rio de Janeiro tem usado depósitos clandestinos para monopolizar a venda de botijões de gás em favelas dominadas pelo tráfico de drogas. Esse tipo de estrutura foi montada na Tijuca e no Complexo do Lins, segundo as investigações.
Esse tipo de estabelecimento ilegal funciona como o braço econômico do CV. O sistema econômico em complemento ao lucro obtido pela venda ilegal de drogas é responsável pelo financiamento de ataques armados, segundo as investigações.

Concessionárias responsáveis pelo abastecimento confirmaram que, em diversas ocasiões, equipes técnicas foram expulsas e impedidas de restabelecer o serviço. Empresas de gás também relataram que não conseguiam entregar botijões por medo de represália.
Em abril deste ano, moradores denunciaram criminosos por proibirem a circulação de caminhões de gás em diversas ruas da Tijuca, impondo medo aos entregadores e dificultando o acesso dos moradores a um serviço essencial. O problema afetou até mesmo ruas de grande circulação, como a Conde de Bonfim e a São Miguel.
“O gás chegou em um carro sem identificação, e os botijões estavam escondidos. Foi tudo feito de forma muito discreta. Estamos sendo obrigados a comprar gás com eles. O Rio de Janeiro está se tornando uma terra de ninguém”.
Morador da Tijuca
A Polícia Militar informou ter feito ações para investigar os casos de extorsão e disse atuar em parceria com as delegacias da área para garantir a segurança de usuários e distribuidores.
O caso mais recente envolvendo a exploração ilegal de fornecimento de botijões de gás ocorreu em uma nova fase da Operação Contenção nesta sexta-feira (28) no Complexo do Lins, quando os agentes localizaram um depósito clandestino que monopolizava a venda de botijões de gás ligada ao CV.

Danos, ameaças e monopólio
As investigações que resultaram na apreensão de ao menos 700 unidades nesta sexta-feira (28 no Complexo do Lins ajudaram a Polícia Civil a descobrir como o CV tem diversificado a sua atuação criminosa.
Segundo a Polícia Civil, os criminosos inicialmente danificam o sistema de gás encanado para impedir o acesso a outras opções. Em um segundo momento, a ameaça. Para garantir o crime, o grupo faz intimidações, impedindo que técnicos da concessionária entrem no local. Sem condições para restabelecer o fornecimento do insumo e sob ameaça, eles desistem.
Os moradores então são obrigados a pagar R$ 300 pelos botijões, preço três vezes maior em comparação ao que era pago por esse tipo de produto, indica a Polícia Civil. Qualquer tentativa de comprar o botijão em outro estabelecimento era proibida sob ameaça. As investigações indicam que os responsáveis pelo depósito clandestino faziam pagamento às lideranças do CV em troca do monopólio do fornecimento de gás no local.

Domínio no Rio e expansão pelo país
Levantamento exclusivo obtido pela Agenda do Poder com fontes ligadas à cúpula da PM indica que 1.015 territórios sob o domínio do poder paralelo pertencem à principal facção criminosa no Estado. É o equivalente ao 62,5% das favelas ligadas ao tráfico de drogas. Um índice que dobrou nos últimos dez anos, segundo o levantamento.
Essa expansão não se limita ao Rio de Janeiro. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o CV já está presente em todos os estados brasileiros. E em franca expansão.

A facção criminosa do Rio está em meio a um ciclo acelerado de expansão territorial e econômica na Amazônia Legal. Com o domínio consolidado nos últimos anos desse território, o CV hoje exerce influência em 286 cidades na região, segundo revela o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”, divulgado no dia 19 deste mês pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública durante a COP30, em Belém (PA).
É o equivalente a 83% dos municípios sob influência de facções na região, mais que o dobro em relação às 128 cidades com presença do CV identificadas no estudo de 2023. Essa expansão demonstra a hegemonia em comparação ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A facção criminosa paulista, que se mantém estável nos últimos três anos, está presente em 90 cidades da Amazônia Legal. O número é três vezes menor em comparação com o CV.

Os dados indicam o processo de “nacionalização” que já havia sido apontado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em um debate na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Senado, em Brasília.
Segundo a agência, a estratégia do CV para buscar esses territórios foi o de construir alianças com grupos locais nos estados do Norte e Nordeste, aproveitando um vácuo de poder deixado pelo PCC, que passou a priorizar a exportação da droga para outros países.
“O CV começa a oferecer para esses grupos uma rede de acesso logístico a armas e drogas, em uma cadeia de comando muito mais descentralizada do que a facção paulista. E, a partir disso, o CV foi se proliferando”.
Pedro de Souza Mesquita, coordenador-geral de análise de conjuntura da Abin
Em meio a esse processo de nacionalização, o que tem preocupado é a diversificação do modelo de negócios , que não envolve apenas drogas e armas. Todo o território ocupado pela organização criminosa hoje é explorado com cobranças de taxas a moradores e comerciantes não só no Rio, como também em diversas regiões do país.
Com o avanço para regiões rurais, o CV expandiu a sua atuação para áreas indígenas, quilombolas e ribeirinhas em um vácuo deixado pelo próprio Estado. Com isso, também passou a se envolver em crimes, como o garimpo ilegal, a grilagem de terras e a extração predatória de madeira, em uma simbiose entre o tráfico e os crimes ambientais.


Deixe um comentário