Presidente do STJ usou dezenas de carros oficiais para turismo no Rio durante congresso sobre ética judicial

Evento idealizado por Herman Benjamin reuniu magistrados estrangeiros para debater conduta de juízes, mas passeio por pontos turísticos com veículos públicos e falta de transparência sobre custos geraram questionamentos

Um congresso internacional promovido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para discutir ética judicial e fortalecimento do Estado de Direito passou a ser alvo de questionamentos após a utilização de veículos oficiais para transportar convidados estrangeiros em um roteiro turístico pelo Rio de Janeiro, informa a coluna de Andreza Matais, no portal Metrópoles. A situação ganhou repercussão justamente por envolver um evento dedicado à reflexão sobre integridade, transparência e conduta de magistrados.

Batizado de “Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial”, o encontro foi idealizado pelo presidente do STJ, ministro Herman Benjamin, e reuniu representantes de tribunais de diversos países para debater temas relacionados à ética no Judiciário, inteligência artificial, redes sociais e defesa das instituições democráticas.

Embora a maior parte da programação tenha ocorrido em Brasília, uma etapa do evento foi realizada no Rio de Janeiro, onde convidados estrangeiros participaram de atividades ligadas à atualização dos Princípios de Bangalore de Conduta Judicial, conjunto de diretrizes difundido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para orientar a atuação de magistrados.

Entretanto, a programação na capital fluminense passou a chamar atenção por incluir visitas a alguns dos principais cartões-postais da cidade.

Passeio turístico com veículos oficiais

No sábado, integrantes da delegação internacional participaram de um roteiro turístico que incluiu visitas ao Cristo Redentor e ao Maracanã. Segundo informações apuradas pela coluna do Metrópoles, o deslocamento foi realizado com veículos oficiais pertencentes ao próprio STJ, ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).

De acordo com a publicação, aproximadamente cinquenta veículos teriam sido mobilizados para atender aos convidados estrangeiros.

A atividade turística não constava da programação oficial do congresso divulgada pelo STJ.

Questionado sobre o uso da estrutura pública, o tribunal confirmou apenas que os visitantes estrangeiros estiveram em pontos turísticos da cidade, mas não respondeu diretamente sobre a utilização dos carros oficiais.

Em nota, a Corte informou que os participantes “visitaram pontos turísticos do Rio de Janeiro, sem despesas de almoço e jantar para o STJ”.

Custos ainda não foram divulgados

Outro aspecto que despertou críticas foi a ausência de informações sobre os gastos totais do evento.

Apesar de já concluído, o congresso ainda não teve seus custos detalhados pelo tribunal.

Em resposta aos questionamentos, o STJ afirmou que os valores continuam em fase de levantamento e que os dados serão divulgados posteriormente.

Segundo a nota da Corte, os custos “serão disponibilizados oportunamente no prazo de duas semanas”.

O tribunal informou ainda que arcou apenas com as passagens aéreas de representantes de três países: África do Sul, Argentina e Peru. De acordo com o STJ, todas as viagens ocorreram em classe econômica.

Evento é visto como contraponto ao Fórum de Lisboa

Nos bastidores do meio jurídico, o congresso promovido pelo STJ vem sendo interpretado por parte dos participantes como uma alternativa institucional ao tradicional Fórum de Lisboa, evento realizado anualmente em Portugal e popularmente apelidado de “Gilmarpalooza”, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

Ao contrário do encontro realizado em Lisboa, que não conta com financiamento público, o congresso organizado pelo STJ foi custeado com recursos institucionais.

A comparação ampliou o debate sobre a utilização de verbas públicas para eventos voltados ao intercâmbio jurídico internacional.

Participação de Cármen Lúcia

Uma das presenças de destaque no encontro foi a da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal.

Durante sua participação nos debates, a magistrada ressaltou a importância da observância de princípios éticos por parte dos integrantes do Judiciário brasileiro.

“Eu acredito no Poder Judiciário brasileiro, nos juízes e juízas brasileiras, e sei que (existem) eventuais falhas, e elas há. Somos um grupo de pessoas humanas, com nossas falhas, nossos limites”, disse a ministra.

As discussões reuniram representantes de 23 tribunais estrangeiros, incluindo cortes constitucionais, para debater desafios contemporâneos relacionados à atividade judicial.

Debates sem transmissão e acesso restrito

Outro ponto que gerou questionamentos foi a realização de parte das atividades sem transmissão ao vivo e sem acesso da imprensa.

Segundo o STJ, a medida teve como objetivo permitir uma troca de experiências mais livre entre os participantes.

Em nota, a Corte explicou:

“Logo após o Congresso, será publicado um relatório público contendo os principais debates e conclusões do evento, sem identificação das contribuições individuais”.

A justificativa, porém, não impediu críticas relacionadas à transparência de um evento que tinha justamente a ética como tema central.

Crise de imagem atinge o tribunal

A realização do congresso ocorre em um momento particularmente delicado para o STJ.

Nos últimos anos, a Corte tem enfrentado uma série de episódios que provocaram desgaste institucional e colocaram em debate mecanismos internos de controle e fiscalização.

O principal deles envolve a Operação Sisamnes, conduzida pela Polícia Federal para investigar um suposto esquema de venda de decisões judiciais.

A investigação tem como principal alvo o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, que, segundo a PF, possuía acesso antecipado a minutas de votos e decisões produzidas dentro do tribunal.

As apurações alcançaram servidores e gabinetes ligados à Corte, aumentando a pressão sobre a instituição.

Na semana passada, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou denúncia contra o ex-assessor do STJ Márcio Toledo Pinto pelos crimes de corrupção, exploração de prestígio, violação de sigilo funcional e organização criminosa. Andreson também foi denunciado.

Até o momento, nenhum ministro do STJ foi incluído formalmente na acusação.

Investigação sobre ministro amplia desgaste

Outra frente de desgaste envolve o ministro Marco Buzzi, alvo de uma investigação interna relacionada a acusações de importunação sexual e assédio.

Segundo relatos divulgados pelo Metrópoles, o magistrado teria tentado agarrar uma jovem de 18 anos, filha de amigos, durante um período de férias em Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Em resposta às denúncias, o STJ instaurou sindicância, determinou o afastamento cautelar do ministro e prorrogou o procedimento investigativo.

Posteriormente, uma ex-funcionária terceirizada vinculada ao gabinete do magistrado também apresentou relato de suposto assédio sexual ocorrido no ambiente de trabalho.

As acusações ampliaram a repercussão do caso e aumentaram a pressão sobre o tribunal para demonstrar rigor na apuração dos fatos.

Marco Buzzi nega as acusações.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading