Presidente da Comissão de Educação da Alerj pretende criar CPI para investigar a Uerj

A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) poderá iniciar seus trabalhos em fevereiro com uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Uerj. O encaminhamento deverá ser feito pelo presidente da Comissão de Educação da Casa, deputado Alan Lopes (PL), com base no parecer da Controladoria Geral do Estado (CGE) que rejeitou a prestação de…

A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) poderá iniciar seus trabalhos em fevereiro com uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Uerj. O encaminhamento deverá ser feito pelo presidente da Comissão de Educação da Casa, deputado Alan Lopes (PL), com base no parecer da Controladoria Geral do Estado (CGE) que rejeitou a prestação de contas da universidade, referente a 2022, por supostas irregularidades.

O documento traz 70 apontamentos que devem ser corrigidos pela instituição. Entre eles estão a suspensão de pagamentos a pessoas falecidas; o atestamento do Habite-se do prédio da universidade; a elaboração de normas para o funcionamento do estacionamento do Campus Maracanã; e a limitação do uso do cartão corporativo – há registros de compras de joias, gravatas, ternos da marca Giorgio Armani e saques bancários de até R$ 55 mil.

Entre as recomendações feitas no parecer da CGE estão a apresentação de Habite-se.

O parecer já foi encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Segundo Lopes, essas práticas se repetem no âmbito administrativo da Uerj há tempos e, por isso, alega que chegou a hora de abrir “essa caixa-preta”. Ele toma como exemplo o uso do campus como estacionamento privado nos dias de jogos no Maracanã. Ao longo de 2023, o deputado agiu como uma espécie de pedra no sapato, vistoriando, levantando informações e apresentando denúncias junto aos órgãos de controle.

Numa dessas ações, realizada com os deputados Rodrigo Amorim (PTB) e Filippe Poubel (PL), foi impedido de acessar documentações no local. A Uerj acionou a Justiça e conseguiu uma liminar proibindo o ingresso dos parlamentares na instituição. Mesmo assim, Alan Lopes levantou informações que contribuíram para formalizar algumas das denúncias. O parecer da CGE seria uma espécie de dever cumprido.   

O documento da CGE que aponta que há irregularidades na prestação de contas da Uerj.

“É primeira vez que se rejeita as contas da universidade. Hoje, a Uerj cobra R$ 50 pelo estacionamento em dias de jogos. Só que isso não tem nenhum controle. Na fiscalização, não conseguimos acessar o borderô. Mas descobrimos que a contabilidade era escrita em papel de pão e realizada no dia seguinte ao evento. Eles alegam que o dinheiro arrecadado é investido na própria universidade, mas isso não é publicizado”, disse. E continua:

“A CGE apontou uma diferença de quase R$ 1 milhão entre o que foi arrecadado, algo em torno R$ 2,5 milhões, e o que foi depositado, pouco mais de R$ 800 mil, num período específico. Fora isso, levantamos a matrícula dos funcionários que estavam lá. Um deles recebeu um salário de R$ 40 mil. É estranho que com um salário desses a pessoa fique tomando conta de carro. Mas outros já eram investigados pelo MP, desde 2017, por suspeita de peculato.”

Extrato do uso do cartão corporativo pelos servidores da universidade.

Descentralização de recursos

O deputado, no entanto, alega que a instalação da CPI vai depender das investigações. Já se sabe que existem recomendações anteriores do TCE e da CGE que não foram implementadas pela Uerj. Outro problema, que não está no escopo do relatório, é a descentralização de recursos destinados a projetos coordenados pela universidade. Essa é uma prática que também precisaria ser investigada, de acordo com a avaliação de Lopes.

“O parecer tem desdobramentos, e o cartão corporativo é um deles. Me chama atenção quando a CGE aponta para compra de jóias, gravatas e ternos Armani. Também há saques no caixa que chegam a R$ 55 mil. Mais o que ainda é obscura é a descentralização de recursos para projetos. Um deles, o Na Régua, criado para reformar casas populares, recebeu R$ 60 milhões, mas gastou R$ 54 milhões com despesa de pessoal e, com o resto do dinheiro, comprou tablets. Ou seja, não houve reforma nenhuma”, lamenta.

Mesmo com um orçamento de R$ 1,5 bilhão para 2024, Lopes conclui que a Uerj é um “poço de problemas”. O primeiro trabalho da comissão, explica, foi revelar as denúncias ao CGE, ao TCE e ao MP. Agora é aguardar os desdobramentos.  

“Diante do andamento que derem as denúncias, podemos criar uma CPI. Ela seria o ideal porque aí se investigaria tudo isso. É preciso fazer justiça com o dinheiro do contribuinte, até porque vivemos um momento delicado no estado. As contas não estão fechando e temos um déficit bilionário. Não podemos achar normal que bilhões de reais sejam desviados”, argumenta.

Esclarecimentos

A Uerj informou que ainda não teve acesso ao parecer da CGE. Em nota, disse que os novos gestores assumiram a reitoria para o quadriênio 2024-2027, há dois dias, mas seguem “comprometidos com a transparência e a regularização de eventuais passivos da gestão anterior”.

Segundo o comunicado, uma das primeiras ações da reitora Gulnar Azevedo e do vice-reitor, Bruno Deusdará, foi realizar uma reunião no TCE, na quarta-feira (03/01), para “reafirmando o empenho em manter a tradição da Uerj de ter suas contas sempre aprovadas.”

Já a Controladoria disse que o parecer foi encaminhado ao TCE e, enquanto estiver sob análise do tribunal, não comentará a decisão.

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