Prefeitura de São Paulo identifica R$ 13 milhões em notas suspeitas de ONG ligada ao filme ‘Dark Horse’

Gestão Ricardo Nunes aponta inconsistências na prestação de contas do Instituto Conhecer Brasil, alvo de investigação sobre supostos desvios em contrato de R$ 108 milhões

A Prefeitura de São Paulo identificou R$ 13 milhões em notas fiscais consideradas suspeitas na prestação de contas do contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para a instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades da capital paulista, informa o portal Metrópoles. A entidade, presidida pela produtora Karina Ferreira da Gama, está no centro de uma investigação da Polícia Civil que apura supostos desvios de recursos públicos e a possível utilização de verbas do contrato para custear despesas da produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

As inconsistências foram formalizadas em uma notificação expedida pela administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na última quarta-feira (1º). O documento aponta falhas em notas fiscais referentes ao primeiro semestre de 2025, incluindo despesas com descrição genérica, ausência de comprovação dos serviços executados e documentos fiscais cancelados após o pagamento, circunstâncias que podem obrigar a entidade a devolver os recursos recebidos.

O contrato firmado entre o município e o ICB é de R$ 108 milhões e já vinha sendo investigado pela Polícia Civil na chamada Operação Sem Wi-Fi.

Prefeitura questiona prestação de contas milionária

Segundo a análise da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (Smit), cerca de R$ 11 milhões dos R$ 13 milhões questionados estão relacionados a pagamentos feitos às empresas Make One, Ultra IP, Complexsys e Favela Conectada.

De acordo com a prefeitura, a documentação apresentada não detalha aspectos essenciais da execução dos serviços, como as áreas atendidas, os pontos de acesso efetivamente instalados e o escopo das atividades realizadas.

A ausência dessas informações levou a administração municipal a exigir documentação complementar para comprovar que os serviços foram prestados conforme previsto no contrato.

Notas canceladas motivam pedidos de devolução

Entre as situações consideradas mais graves está um pagamento de R$ 500 mil destinado à empresa Favela Conectada. Após a prefeitura apontar irregularidades, a própria empresa cancelou a nota fiscal correspondente, tornando o documento sem validade.

Diante disso, o município determinou a devolução integral do valor.

Segundo informações do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Alex Leandro Bispo, representante da Favela Conectada, teria ingressado no Primeiro Comando da Capital (PCC) durante o período em que cumpriu pena na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista.

Outro caso envolve a JR Feijão Ltda., empresa do ramo alimentício. A prefeitura identificou três pagamentos realizados em 11 de abril, que somam R$ 406.752,50.

As notas fiscais haviam sido emitidas um dia antes com a descrição genérica de “aquisição de material”, mas foram canceladas pela empresa em 16 de abril. Como os pagamentos já haviam sido efetuados, a administração municipal concluiu que os gastos perderam respaldo documental e também determinou a restituição dos valores.

Despesas com comunicação também entram na mira

A prestação de contas inclui ainda dois pagamentos feitos à empresa Talk Comunicações, nos valores de R$ 166.666 e R$ 181.818, totalizando R$ 348.484.

Os recursos foram destinados à execução de um “contrato de comunicação massificada”. Entretanto, segundo a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, as notas fiscais não informam quais localidades foram atendidas nem apresentam detalhes das campanhas executadas.

Por essa razão, a prefeitura exigiu que o Instituto Conhecer Brasil apresente relatórios de mídia, comprovantes de veiculação e demais documentos capazes de demonstrar a efetiva realização dos serviços.

O instituto recebeu prazo de 30 dias, contado a partir do recebimento da notificação, para apresentar justificativas e documentação complementar. Caso as explicações não sejam consideradas suficientes, poderá ser obrigado a devolver os recursos questionados.

Faturamento da entidade cresceu 170 vezes em três anos

A investigação também chama atenção para a rápida expansão financeira do Instituto Conhecer Brasil.

Em apenas três anos, a receita declarada pela entidade saltou de R$ 306 mil, no encerramento de 2022, para R$ 54 milhões ao fim de 2025, um crescimento de aproximadamente 170 vezes.

Desse total, R$ 51,9 milhões tiveram origem em parcerias e subvenções governamentais. Outros R$ 2 milhões foram registrados como subvenções ligadas à educação, enquanto R$ 2,6 milhões correspondem à prestação de serviços.

Instituto nega irregularidades

Em nota, o Instituto Conhecer Brasil informou que não recebeu qualquer notificação relacionada aos R$ 13 milhões em notas fiscais questionadas pela Prefeitura de São Paulo.

A entidade declarou:

“Até o momento, toda a nossa prestação de contas junto aos órgãos competentes segue dentro da regularidade, conforme os procedimentos previstos em contrato.”

O instituto acrescentou ainda:

“permanece à disposição para prestar esclarecimentos às autoridades e aos veículos de comunicação sempre que for oficialmente comunicada sobre qualquer questionamento ou procedimento envolvendo suas atividades”.

Operação Sem Wi-Fi apura possível superfaturamento

As suspeitas envolvendo o contrato são investigadas pela Operação Sem Wi-Fi, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.

Segundo as investigações, a Prefeitura de São Paulo teria firmado um contrato com valores muito superiores aos praticados no mercado para a instalação de pontos de internet em comunidades periféricas.

Os investigadores apontam que a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306 por ponto, além de R$ 200 mensais de manutenção. Já o contrato firmado com o ICB previa pagamento fixo de R$ 1.800 por ponto, valor considerado incompatível com os parâmetros de mercado.

A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, afirma que o custo estimado da parceria para 2026 corresponde a R$ 1.280 por ponto ao mês, sustentando que esse valor é inferior às propostas apresentadas em 2022, que variavam entre R$ 2.026,26 e R$ 5.092,14 por ponto mensal.

Principais suspeitas investigadas

Além das inconsistências na prestação de contas, a investigação reúne outros pontos considerados relevantes pelas autoridades.

Entre eles está a suposta falta de capacidade técnica do Instituto Conhecer Brasil, já que, segundo a Polícia Civil, a entidade possuía histórico de atuação restrito à organização de feiras de livros e eventos religiosos, sem experiência comprovada em projetos de telecomunicações.

Os investigadores também apuram indícios de superfaturamento, descumprimento das metas contratuais e possíveis fraudes em aditivos assinados para prorrogar a execução do contrato.

De acordo com a investigação, dos 5 mil pontos de Wi-Fi previstos, apenas 3.200 teriam sido instalados, levando à celebração de três termos aditivos em curto espaço de tempo.

Outro ponto sob apuração diz respeito a supostos pagamentos antecipados. A Polícia Civil afirma que a administração municipal teria liberado cerca de R$ 26 milhões antes da efetiva prestação dos serviços. Segundo os investigadores, os repasses consideravam milhares de pontos de acesso como entregues, quando apenas seis estariam efetivamente em funcionamento no período analisado.

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