Operação sobre filme de Bolsonaro amplia investigação e mira quatro empresas por suspeita de notas frias

Polícia Civil apura possível uso de documentos fiscais irregulares em contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo; empresas de tecnologia e fornecedores estão entre os alvos da investigação

A operação realizada pela Polícia Civil nesta segunda-feira (1º) para investigar suposto uso irregular de recursos públicos na produção do filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ganhou novos desdobramentos. Além de endereços ligados à produtora responsável pela obra e a setores da Prefeitura de São Paulo, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em quatro empresas apontadas como possíveis participantes de um esquema de desvio de verbas.

As apurações se concentram no Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, também proprietária da produtora Go UP Entertainment, responsável pelo longa-metragem. Segundo o inquérito, a entidade pode ter utilizado faturas e notas fiscais consideradas irregulares para justificar despesas custeadas pela administração municipal.

A investigação aponta indícios de desvio de finalidade e possível confusão patrimonial entre o instituto, que atua como organização social, e a produtora cinematográfica.

Faturas de R$ 8,5 milhões levantam suspeitas

Entre os documentos analisados pela polícia estão quatro faturas emitidas pela empresa Make One Lab, especializada em tecnologia e sediada na zona oeste da capital paulista. Os documentos somam R$ 8,5 milhões.

De acordo com a decisão judicial que autorizou a operação, as faturas teriam sido apresentadas sem as respectivas notas fiscais ou comprovação de recolhimento tributário. Os investigadores destacam ainda que os documentos possuíam numeração sequencial, mesma data de emissão e vencimento, além de valores fracionados, características que podem indicar montagem documental para justificar movimentações financeiras irregulares.

A reportagem tentou contato com a empresa, mas não obteve manifestação até a publicação desta matéria.

Notas fiscais canceladas também estão sob análise

Outra frente da investigação envolve notas fiscais emitidas pelas empresas Complexsys Soluções Integradas, de São Paulo, e JR Feijão, do Ceará. Juntas, as operações somam aproximadamente R$ 2,4 milhões.

Segundo a Polícia Civil, parte dessas notas teria sido cancelada pelas próprias empresas emissoras, mas ainda assim utilizada pelo ICB na prestação de contas apresentada à Prefeitura de São Paulo.

No caso da Complexsys, as notas foram canceladas no mesmo dia em que foram emitidas. Apesar de ambas serem citadas no inquérito, os mandados de busca foram autorizados apenas para a empresa paulista.

Relação com produtora e deputado entra no radar

As investigações também resgatam o crescimento empresarial de Karina Ferreira da Gama após sua aproximação com o deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial de Cultura durante o governo Bolsonaro e um dos envolvidos na produção do filme.

Dados públicos mostram que a Complexsys recebeu R$ 154 mil do gabinete parlamentar de Frias entre setembro de 2024 e abril deste ano por serviços de apoio administrativo.

Nem o deputado nem a empresária se manifestaram sobre os questionamentos relacionados à operação policial.

Contrato de internet pública é alvo de questionamentos

O contrato investigado previa a instalação e manutenção de pontos de acesso à internet sem fio em diferentes regiões da cidade. Segundo a Polícia Civil, o ICB não executou diretamente os serviços, atuando apenas como intermediador da contratação de outras empresas especializadas.

As companhias Urban Connect e Ultra IP, responsáveis pela execução técnica do projeto, também foram alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça.

Os investigadores sustentam que o contrato teria sido firmado com valores superiores aos praticados no mercado. Conforme o inquérito, cada ponto de wi-fi custou R$ 1.800 por meio do instituto, enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, executaria serviço semelhante por valores significativamente inferiores.

Prefeitura rebate acusações e afirma regularidade

A Prefeitura de São Paulo rejeita as suspeitas levantadas pela Polícia Civil. Segundo a administração municipal, dos 3.200 pontos de internet contratados, apenas 52 estavam temporariamente fora de operação para manutenção na data da ação policial.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirma que a contratação respeitou critérios de legalidade, transparência e economicidade. Também destaca que o chamamento público ocorreu antes mesmo do início da produção do filme “Dark Horse”.

Em nota, o município informou não ter identificado qualquer irregularidade na execução do contrato ou na prestação dos serviços.

Filme também é alvo de outras investigações

Além da investigação conduzida pela Polícia Civil paulista, a produção de “Dark Horse” também está sendo analisada pela Polícia Federal. A apuração busca esclarecer a origem e a destinação de recursos utilizados na obra, que possui produção compartilhada entre Brasil e Estados Unidos.

O projeto recebeu aporte de R$ 61 milhões do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, após pedido de apoio feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O banqueiro nega qualquer irregularidade relacionada às investigações envolvendo a instituição financeira.

Flávio Bolsonaro afirma que o filme não utiliza recursos públicos. Já o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), também citado em apurações paralelas, nega ter recebido valores destinados à produção cinematográfica.

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