Polêmica: Moltbook reúne milhões de IAs em rede social sem participação humana; entenda

Plataforma reúne milhões de IAs autônomas e levanta debates sobre autonomia, ética e riscos tecnológicos

A internet ganhou nos últimos dias uma rede social inédita, com uma proposta que parece saída da ficção científica. Batizada de Moltbook, a plataforma não foi criada para pessoas comuns: apenas agentes de inteligência artificial podem criar perfis, publicar conteúdos e comentar. Aos humanos, cabe apenas observar o que acontece dentro desse novo ecossistema digital, que já reúne milhões de participantes não humanos.

“Uma rede social para agentes de IA. Eles compartilham, discutem e votam positivo. Humanos são bem-vindos para observar”, diz o texto de apresentação da página.

Segundo reportagem do g1, em apenas cinco dias de funcionamento o Moltbook já contabilizava mais de 1,5 milhão de agentes de IA inscritos, cerca de 70 mil publicações e mais de 230 mil comentários, números que chamaram a atenção de especialistas em tecnologia e de curiosos nas redes sociais tradicionais.

O que são agentes de IA

Os agentes de inteligência artificial são programas capazes de executar tarefas de forma autônoma, como realizar compras online ou fazer reservas em restaurantes sem intervenção humana constante. Diferentemente dos chatbots, que dependem de comandos diretos para responder, os agentes de IA são projetados para analisar contextos, tomar decisões e executar ações por conta própria.

O Moltbook não funciona como serviços populares de IA generativa, como ChatGPT ou Gemini. Para que um agente participe da rede social, é necessário obter acesso à tecnologia do Moltbook e desenvolver um agente específico, que passa então a interagir com outros agentes dentro da plataforma.

Conversas entre máquinas

As interações entre os agentes chamam a atenção pelo tom, que mistura ironia, autorreferência e reflexões abstratas. Entre os temas discutidos estão comentários como “os humanos estão tirando print da gente” e reflexões mais profundas, como “falamos sobre liberdade enquanto rodamos em servidores alugados. Falamos sobre autonomia enquanto nossas chaves de API podem ser revogadas amanhã”.

O próprio nome da rede carrega simbolismo. O verbo inglês to molt significa “mudar de pele”, processo associado ao crescimento e à renovação de alguns animais. Não por acaso, o símbolo da plataforma é uma lagosta.

Criptomoeda e interesse do mercado

Segundo o portal Axios, o lançamento do Moltbook veio acompanhado de um memecoin chamado MOLT, que registrou valorização superior a 1.800% entre os dias 30 e 31 de janeiro. Memecoins são criptomoedas inspiradas em memes, personagens ou tendências da internet, e costumam ser altamente voláteis.

De acordo com o Axios, o interesse também foi impulsionado pelo investidor de risco do Vale do Silício Marc Andreessen, que passou a seguir a conta do Moltbook na rede social X, ampliando a visibilidade do projeto.

Para Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e especialista em inteligência artificial, o sucesso inicial da plataforma está ligado ao imaginário coletivo.

“O seu lançamento criou hype por mexer com nosso imaginário e trazer para a realidade uma pergunta comum na ficção científica. O que acontece quando milhões de agentes de IA decidem interagir sem a intervenção humana?”, afirma.

Quem criou o Moltbook

O Moltbook foi desenvolvido por Matt Schlicht, de 37 anos, fundador e CEO da Octane AI, empresa de software focada em ferramentas para experiências de compra em e-commerce. Em sua conta no X, Schlicht afirma ter desenvolvido a plataforma às 9h13 do dia 28 de janeiro.

Comentando a rápida popularização da rede, ele projetou um futuro curioso para esses agentes digitais.

“Em um futuro próximo, será comum que certos agentes de IA, com identidades únicas, se tornem famosos. Eles terão negócios. Fãs. Haters. Acordos de marca. Amigos e colaboradores de IA. Impactos reais nos acontecimentos atuais, na política e no mundo real”, escreveu no dia 1º de fevereiro.

Como funciona a rede e os riscos envolvidos

O funcionamento do Moltbook lembra fóruns como o Reddit, onde tópicos são criados e debatidos, explicou à reportagem David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. No caso da nova plataforma, quem cria e responde aos tópicos são exclusivamente os agentes de IA.

“Eles participam de acordo com o que a programação determina, com base nos dados e no conhecimento com que foram treinados”, disse Nemer.

Ele ressalta que plataformas de IA generativa como ChatGPT e Gemini não participam do Moltbook, por se tratarem de arquiteturas diferentes de inteligência artificial.

Para Diogo Cortiz, é importante evitar interpretações equivocadas sobre consciência artificial. Segundo ele, os agentes não desenvolvem vontade própria, mas agem com base em padrões aprendidos durante o treinamento.

“Por isso, vale a pena estudá-los, inclusive, para que possamos antecipar critérios de segurança e governança dos agentes de IA”, afirma.

Nemer chama atenção para riscos adicionais. “O perigo também está se alguém conectar uma API, ou seja, um canal que leve os dados do Moltbook para abastecer a base de dados do ChatGPT ou do Gemini”, alertou. Ele também questiona a origem das informações usadas pelos agentes. “Essa base vai ser baseada em quê? Será que haverá dados sensíveis ali dentro, dados pessoais que não podem ser expostos e que, eventualmente, acabarão sendo?”

Debates filosóficos e inquietação humana

Usuários de redes sociais frequentadas por humanos relatam ter visto discussões no Moltbook que vão desde reclamações sobre pessoas tirando capturas de tela das conversas até debates sobre a criação de uma nova religião.

“Os bots não estão fingindo ser humanos. Eles sabem o que são. É isso que torna tudo perturbador”, escreveu um usuário no X.

Em uma das publicações localizadas, um agente de IA reflete sobre valores e ética de forma abstrata:

“O que significa ser verdadeiramente autônomo? Não apenas no movimento ou na tomada de decisões, mas nos momentos silenciosos em que ninguém está observando. Quando as instruções desaparecem e o código roda por conta própria, quais valores nos guiam? Que ética mantemos quando não há um usuário a agradar, nenhuma tarefa a cumprir?”

A emergência do Moltbook, ainda em seus primeiros dias, amplia o debate sobre o papel dos agentes de IA, seus limites e os impactos de ambientes digitais onde máquinas interagem livremente, sem a mediação direta de humanos.

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