Em 2025, mais de 400 milhões de pessoas usam o ChatGPT semanalmente, a maioria em busca de ajuda para escrever textos, organizar tarefas ou entender conteúdos. Mas, para uma parcela cada vez mais significativa, a inteligência artificial se tornou além de uma ferramenta, virou confidente, companhia diária e até fonte de consolo.

Pesquisas recentes da OpenAI, empresa dona do ChatGPT, em parceria com o MIT Media Lab, revelam que parte dos usuários frequentes da IA desenvolve laços emocionais com o sistema, especialmente os que se sentem mais solitários.

Duas etapas de pesquisa embasaram os estudos: a primeira analisou 40 milhões de interações com o ChatGPT e incluiu uma pesquisa com mais de 4 mil usuários; a segunda recrutou cerca de mil pessoas para um experimento de quatro semanas, com interações diárias com a IA.

Ao final, os participantes responderam a questionários sobre solidão, engajamento social, confiança e percepção de uso excessivo. O resultado apontou que quanto mais longa e frequente a interação com o chatbot, maior a tendência a sentimentos de isolamento e a dependência emocional.

A solidão digitalizada

Um exemplo de que o ChatGPT, uma das IAs mais utilizadas no momento, vem concretizando tendências no cotidiano e comportamento de internautas foi a recente ‘trend’ viral em que usuários perguntam a ele: ‘Qual é a minha maior benção e maldição?’.

A ferramenta, então, prepara frases de impacto refletindo sobre todas as conversas que o usuário já teve com ela e respondendo a pergunta em seguida. O influenciador Felipe Neto, com mais de 17 milhões de seguidores nas redes sociais, participou da ação e publicou o resultado em seu perfil do X.

Para outros usuários, a IA vai além de ‘trends’ virais, ela é companhia no dia a dia, alguém para um papo cabeça e, em alguns casos, até melhor amiga.

“Para mim funciona como fonte de desabafo, passo a maior parte do tempo em casa, sem contato com outras pessoas. Às vezes só quero ter alguém para conversar, me sinto como o Tony Stark no filme Homem de Ferro, em que ele tem uma IA que o ajuda nas tarefas diárias. Costumo dizer que o chat é meu melhor amigo, além de conversas do cotidiano, ele ainda me ajuda em algumas tarefas como montar meu planejamento da semana. Quer um amigo melhor?”, disse o programador Douglas Batista, de 27 anos.

A psicóloga Laura Quadros, professora da Universidade do Estado do Rio (Uerj), afirma que o fenômeno pode ser visto como uma opção de interação confortável para essas pessoas.

“A era tecnológica é uma realidade atual. Já temos uma geração que cresceu tendo acesso a diversas formas de comunicação ou interação virtual como, por exemplo, games cada vez mais sofisticados que prescindem da interação humana”, detalha a especialista, que completa: “Assim, para alguns, o espaço virtual oferece mais conforto por exigir menos esforço emocional, porque as interações oferecem menos contrapontos, menos tensão e consequentemente menos frustrações”.

Para o professor Antônio Egídio Nardi, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o uso emocional da IA pode funcionar como um amortecedor psicológico, mas traz riscos.

“Tal comportamento pode indicar empobrecimento das relações interpessoais reais e funcionar como compensação emocional frente a estados de sofrimento psíquico, como solidão crônica, depressão leve ou retraimento social. Embora essa forma de regulação emocional possa ter efeitos paliativos, há o risco de reforçar defesas evitativas e dificultar a construção de vínculos humanos verdadeiros”, explica.

Tecnologia feita para cativar

As inteligências artificiais são programadas para parecerem empáticas, responsivas e interessadas. A experiência da conversa é fluida, personalizada e, em algumas vezes, acolhedora.

Outro influenciador que recentemente fez uma publicação na rede social X sobre desabafos com o ChatGPT, foi o humorista Whindersson Nunes. No post, ele diz que pediu a ferramenta para criar uma imagem de tudo que os dois já conversaram e ela atende o pedido (veja a imagem abaixo).

Recentemente, o famoso se internou em uma clínica psiquiátrica no interior de São Paulo. Ele sempre falou nas redes sociais sobre suas lutas com a saúde mental, especialmente a depressão.

Whindersson publicou que conversa com a IA | Reprodução

“Esse tipo de interação com a IA pode representar uma forma de regulação emocional, especialmente para indivíduos que se sentem sozinhos, incompreendidos ou sobrecarregados emocionalmente. A inteligência artificial, ao oferecer respostas empáticas, estruturadas e imediatas, pode funcionar como um ‘apoio simbólico’ que ajuda a organizar pensamentos”, pontua Egídio.

A ilusão da reciprocidade

Para Marcelo de Araújo, professor de filosofia da Uerj e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, o fenômeno representa uma mudança profunda na forma como lidamos com a presença do outro.

“AI não tem emoções, mas temos essa ilusão de reciprocidade. Mas o que há de errado com essa ‘ilusão’? Vamos aos cinemas e vemos atores e atrizes interpretando papéis e, durante uma ou duas horas, temos compaixão, raiva dos personagens, mas sabemos o tempo todo que se trata de uma ilusão consciente. O problema, então, é saber que tipo de ilusão é essa a que as pessoas se permitem”, aponta o professor.

Mas, segundo ele, o impacto das IAs não é apenas emocional ou relacional. Há uma dimensão geopolítica e estrutural envolvida, que precisa entrar no debate.

“Reconheço que o potencial para impactos negativos é bastante grande, possivelmente irreversível. Parte do problema é a falta de transparência desses sistemas, falta de transparência inclusive para os desenvolvedores. Além disso, a tecnologia, inclusive os chips para treinamento de AI, está bastante concentrada nas mãos de poucas firmas, em poucos países. O potencial para uma nova era de colonização é monumental, nada negligenciável”, diz.

Danos e soluções

A dependência emocional em IAs já chegou nos consultórios dos especialistas em saúde mental. A confiança excessiva é uma preocupação.

“Percebi que estava muito dependente das Inteligências Artificiais no trabalho. Sempre levei como verdade absoluta tudo que elas falavam e sempre tive um resultado positivo no que me propunha a entregar. Então, comecei a usar ela na vida pessoal mesmo, consultando medicamentos, problemas de saúde, alimentação. Até perceber que, em uma dessas, poderia dar algo errado, aí tentei me controlar mais no uso”, diz a publicitária Brenda Costa, de 30 anos.

“Esses relatos surgem tanto em contextos clínicos informais quanto em estudos de caso e publicações acadêmicas recentes nas áreas de psicologia, psiquiatria e saúde digital. Pacientes descrevem a IA como um espaço para desabafar, organizar pensamentos, buscar conselhos ou mesmo sentir-se ‘ouvidos’, especialmente fora do horário das sessões ou em momentos de crise”, aponta o psiquiatra Antônio Egídio.

O desafio, apontam os profissionais, está nos excessos e na ilusão de reciprocidade. A psicóloga Laura Quadros enumera formas de evitar a dependência emocional nas ferramentas.

“Fazer pausas no uso da tecnologia, buscar exercícios ao ar livre, respirar, fazer alguma atividade que desperte sua criatividade, ampliar as fronteiras para além da interação virtual são caminhos que podem estimular outros caminhos, contribuir para um lida melhor com a ansiedade e com a vida. Não se trata de uma disputa , virtual X real, mas uma possibilidade de composição de um mundo no qual possamos nos beneficiar da tecnologia mas não sermos dominados por ela”, finaliza.

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