Antes de o ônibus seguir em direção ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, policiais militares que socorriam a fonoaudióloga Aline de Siqueira Affonso, de 53 anos, fizeram uma oração para tentar mantê-la calma e consciente. Baleada no pescoço durante um confronto em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio, ela perdia muito sangue e precisava chegar rapidamente a uma unidade de emergência.
O trabalho dos agentes naquele momento pode ter sido decisivo para preservar a vida da vítima. Em uma situação de extrema urgência, os PMs identificaram o sangramento, fizeram um curativo compressivo, acompanharam o estado de consciência da mulher e avaliaram que esperar uma ambulância poderia representar uma demora perigosa.
Aline estava dentro do ônibus da linha 629 (Irajá x Saens Peña), que ficou no meio de um confronto entre traficantes da Favela do Trem e policiais do 41º BPM (Irajá). Depois dos disparos, os demais passageiros correram para buscar abrigo. Ela permaneceu sozinha no coletivo, ferida e sem saber que havia sido atingida por uma bala.
Socorro começou dentro do ônibus
O 2º sargento Elimar das Chagas comandou os primeiros procedimentos. Segundo o policial, Aline apresentava um sangramento intenso e chegou a perder a consciência duas vezes durante o atendimento.
Para evitar que a vítima entrasse em pânico, os policiais não disseram inicialmente que ela havia sido baleada. Aline perguntava se o ferimento era grave, enquanto os agentes trabalhavam para controlar a hemorragia e mantê-la consciente.
A posição da fonoaudióloga também dificultava o atendimento. Ela estava praticamente embaixo de um banco, e os policiais não sabiam se havia alguma lesão na coluna. Por isso, retirar a vítima do local poderia agravar o quadro. A equipe precisou decidir rapidamente entre aguardar o socorro especializado ou encontrar uma forma de transportar Aline imediatamente.

Jhonanthan Vessados carrega uma cruz de São Francisco no seu uniforme
PM assume direção para acelerar atendimento
A solução surgiu com a chegada do sargento Jhonathan Vessados. O policial possui habilitação categoria D, que permite conduzir ônibus, e decidiu assumir o volante depois que o motorista do coletivo ficou abalado e sem condições de dirigir após o tiroteio.
Jhonathan havia feito um curso de extensão da Polícia Militar para conduzir ônibus e vans. Embora não utilizasse a habilitação no patrulhamento diário, já tinha experiência com veículos de grande porte em atividades internas da corporação.
A decisão foi tomada diante da gravidade do quadro. O motorista estava desorientado e relatava estar passando mal. Para os policiais, permitir que ele conduzisse poderia criar outro risco. Jhonathan então assumiu a direção e iniciou o deslocamento até o hospital.
PMs abriram caminho para o hospital
Viaturas e motocicletas da Polícia Militar foram acionadas para abrir caminho para o ônibus. Com sirenes ligadas e agentes auxiliando no trânsito, o coletivo seguiu pela Avenida Meriti e depois pela Avenida Brás de Pina.
O sargento Jhonathan entrou na calha do BRT e percorreu aproximadamente três quilômetros até o Hospital Estadual Getúlio Vargas em cerca de cinco minutos. Aline deu entrada na emergência às 7h34.
A rapidez do deslocamento foi fundamental diante da quantidade de sangue perdida pela vítima. Enquanto um policial dirigia, outros continuavam acompanhando Aline dentro do coletivo e mantendo os procedimentos necessários até a chegada ao hospital.
Vítima chegou consciente ao hospital
O caso impressionou até os profissionais de saúde. Segundo o sargento Chagas, Aline chegou à unidade em estado muito grave, mas ainda estava lúcida e conseguia conversar.
O boletim médico apontou que o disparo atingiu a região cervical, atravessou o pescoço e provocou lesões na coluna vertebral. A fonoaudióloga passou por uma cirurgia de aproximadamente quatro horas e meia.
Depois do procedimento, Aline foi intubada e encaminhada ao Centro de Terapia Intensiva (CTI), onde permanece internada em estado grave.
Trabalho policial foi decisivo no resgate
A atuação dos policiais envolveu uma sequência de decisões tomadas em poucos minutos: localizar a vítima, avaliar a gravidade do ferimento, controlar a hemorragia, evitar movimentos que poderiam agravar uma possível lesão na coluna, manter Aline consciente e encontrar uma alternativa rápida para levá-la ao hospital.
A oração feita pelos agentes também serviu como uma forma de tranquilizar a fonoaudióloga durante o momento de maior tensão. O sargento Jhonathan carrega uma cruz de São Francisco de Assis na farda e também é devoto de São Jorge.
Moradora da Vila da Penha, Aline trabalha como fonoaudióloga na Casa de Saúde São José, no Humaitá. Familiares acompanham sua recuperação no Hospital Estadual Getúlio Vargas e não quiseram falar com a imprensa.







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