O amor está no app e o golpista também: como o ‘match’ pode acabar em golpe
Reportagem Especial

O amor está no app e o golpista também: como o ‘match’ pode acabar em golpe

Segundo a Polícia Civil, golpes como ‘Boa noite, Cinderela’, estelionato sentimental e ‘sextorsão’ estão entre as modalidades mais aplicadas contra usuários de aplicativos de relacionamento

Com o surgimento dos aplicativos de relacionamento na última década, tentar a sorte no romance implicava ousadia e zelo na mesma dosagem. Inicialmente, a preocupação era encontrar pessoalmente alguém diferente do esperado. Hoje, no entanto, a Polícia Civil identifica diversos golpistas e quadrilhas que projetam nesses aplicativos um terreno fértil para golpes e crimes como extorsão e ameaças.

Por isso, quem utiliza esses aplicativos em busca de um relacionamento ou apenas de um encontro casual passou a conviver também com uma preocupação pertinente: a possibilidade de que, por trás de um perfil aparentemente comum, esteja alguém mal-intencionado.

De acordo com especialistas e autoridades ouvidos pela Agenda do Poder, os golpes utilizam os sentimentos e emoções alheios para causar prejuízos financeiros às vítimas, mesmo àquelas que seguem orientações de cuidado. “O crime mais comum nesse ambiente virtual é o uso de fotos de terceiros para aproximação com a vítima, ganhar credibilidade e, posteriormente, aplicar o golpe”, disse o delegado Felipe Santoro, titular da 37ª DP (Ilha do Governador).

Delegado Felipe Santoro, da 37ª DP (Ilha do Governador) alerta para o aumento do golpe ‘Boa Noite, Cinderela’ | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

Aliada à estratégia, os golpistas também se aproveitam da falta de verificação na criação de perfis nos aplicativos e sites de relacionamento e iniciam a escolha das vítimas. O mais comum é o famoso golpe “Boa noite, Cinderela”, em que a vítima é atraída, dopada com uma substância não identificada e roubada em seguida.

“Nós notamos também um aumento progressivo no crime de ‘Boa noite, Cinderela’, onde esses criminosos encontram a vítima e ministram uma substância psicoativa para dopá-la e roubá-la, especialmente celulares, equipamentos eletrônicos e dinheiro. Depois, fazem empréstimos e criam contas bancárias para fazer transferências fraudulentas”, explica Santoro.

Em reportagem anterior, Agenda do Poder investigou em detalhes como funciona a aplicação do Boa noite, Cinderela. Apesar de ser muito comum, no entanto, a modalidade de roubo não é a única que causa danos e prejuízos. Segundo a delegada Camila Pegorim, titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), também é comum o chamado “estelionato sentimental”.

Estelionato sentimental

Nesse caso, antes de qualquer cobrança ou conduta que torne a tentativa de golpe mais nítida, os bandidos estabelecem uma relação de confiança com a vítima — uma espécie de armadilha emocional. Depois do envolvimento, começam as extorsões. À essa altura, já sem tantos motivos para desconfiar do suposto relacionamento, se tornam presas fáceis.

“A gente sabe que o ‘Boa noite, Cinderela’ é muito conhecido, mas também podemos falar de estelionato sentimental: quando a vítima começa a desenvolver um relacionamento com golpista acreditando estar num caso virtual e o bandido começa a pedir dinheiro alegando as mais variadas desculpas e histórias”, aponta a delegada.

‘Sextorção’

Além do estelionato sentimental, outro crime recorrente é chamado pela polícia de ‘sextorção’. Ainda de acordo com a delegada da DRCI, nessa modalidade os golpistas ameaçam vítimas a fazerem transferências para que não tenham suas fotos íntimas vazadas.

“A vítima é extorquida a pagar uma quantidade, ou fazer determinada coisa para que ela não tenha fotos nuas vazadas. Isso pode acontecer de algumas formas: o nude foi enviado na conversa ou durante o relacionamento e, depois, a pessoa se vale dessas imagens para extorquir a vítima, inclusive invadindo seu celular com este fim”.

Não existe um tipo específico de vítima nesses casos. Os golpistas passaram a adaptar a abordagem a cada tipo de situação, o que torna qualquer um alvo fácil, mesmo os mais vigilantes. Ainda assim, alguns grupos são mais visados pelos criminosos. E, para esses perfis, existe um golpe mais usado. É o que explica a delegada:

“Não dá para generalizar, porque a gente vê vítimas de ambos os sexos, de qualquer orientação sexual. Mas, normalmente, os maiores registros são com mulheres vítimas, no caso de estelionato sentimental e ‘sextorção’. No ‘Boa noite, Cinderela’, as maiores vítimas são homens hétero e homossexuais. O tipo de perfil de vítima vai depender do tipo de delito” destacou.

Delegada Camila Pegorim, titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

Match perigoso

Com poucos meses morando e trabalhando em Niterói, na Região Metropolitana, um professor universitário de 31 anos, que preferiu não se identificar, viu a expectativa de um encontro virar promessa de ameaças.

Natural de Volta Redonda, ele contou em entrevista à Agenda do Poder que navegava pelo aplicativo Tinder despretensiosamente, em abril deste ano, tentando movimentar a vida de solteiro, quando deu um match (em inglês significa compatibilidade)  com uma mulher que se apresentava pelo nome de Sabrina.

“Era uma pessoa que parecia normal, sabe? Foto no Rio de Janeiro, nada que chamasse muita atenção, que parecesse ser muito mentiroso, nem nada. (…) Ela comentou que estava na cidade para visitar a família, que estava hospedada em um hotel e falou que iria embora em breve. Então, sugeri que a gente fosse tomar uma cerveja.”

A conversa evoluiu rapidamente. Em poucas horas, os dois marcaram um encontro para aquela mesma noite. Antes de sair de casa, a mulher enviou uma localização em tempo real do hotel onde dizia estar hospedada e uma foto em visualização única, o que fez o volta-redondense acreditar que a história era verdadeira.

Convite aceito, o professor foi até o hotel onde a golpista afirmava estar hospedada para, dali, seguirem juntos até um bar em Icaraí.

Ao chegar ao local, avisou por mensagem que já estava na porta e a mulher pediu uma foto para confirmar que ele realmente havia chegado. Foi somente naquele momento que a conversa mudou de figura. 

“Ela falou que, na realidade, era garota de programa e estava trabalhando. Disse que tinha gostado muito de mim, mas que, se saísse comigo, teria prejuízo porque perderia uma noite de trabalho. Aí começou a pedir R$ 150 para compensar.”

Sem nunca ter visto a mulher pessoalmente e afirmando que aquele não havia sido o combinado, o professor recusou o pagamento e decidiu encerrar a conversa. Os dois iniciaram o contato pelo Tinder, mas posteriormente mudaram de aplicativo e passaram a trocar mensagens pelo Whatsapp. “Eu falei que nada feito. Não era o combinado. Eu não estava contratando ninguém.”

Ameaças 

A recusa, porém, foi apenas o início da tentativa de golpe. Enquanto deixava o local, passou a receber mensagens de outro número de telefone. A pessoa voltou a exigir dinheiro e passou a fazer ameaças. “Ela falou: ‘Você não vai me deixar no prejuízo. Eu tenho amigos no Rio de Janeiro que podem fazer alguma coisa com você. Não vou deixar isso barato’”.

Pouco tempo depois, as intimidações aumentaram e assumiram uma face mais agressiva. Novos contatos passaram a enviar mensagens se apresentando como integrantes do Comando Vermelho. 

“Vieram falar que eu tinha dado calote na mulher, que era para resolver aquilo de forma pacífica. Depois começaram a mandar vídeos de pessoas armadas e vários dados meus dizendo que sabiam onde eu morava e ameaçando até a minha família.”

Vítima de golpe

Embora reconhecesse que boa parte daqueles dados já havia sido exposta em vazamentos antigos, o professor decidiu procurar a polícia e registrou um boletim de ocorrência na 77ª DP (Icaraí). 

“Foi aí que senti necessidade de fazer alguma coisa. Fiz o registro de ocorrência e, depois, fui chamado para prestar depoimento. Na delegacia, me disseram que esse tipo de golpe era muito comum.”

Apesar de não ter sofrido prejuízo financeiro, o episódio mudou sua relação com os aplicativos de relacionamento. Recém-chegado a Niterói, onde havia se mudado para trabalhar, ele utilizava as plataformas justamente para conhecer novas pessoas.

“Eu me mudei para Niterói faz um ano. Estava querendo conhecer gente, sair. Aqui é diferente, tem muita gente que eu não conheço. Mas depois disso eu dei uma desanimada. Penso muito antes de usar de novo. A experiência foi horrível.”

Golpista enviou fotos de homens armados para ameaçar a vítima | Crédito: Reprodução

O professor compartilhou a experiência com outras pessoas em uma postagem no aplicativo X. Depois disso, outros usuários também relataram suas experiências.  “Naquele post em que contei o que aconteceu apareceram vários outros relatos de pessoas que tiveram prejuízos muito maiores. Teve gente que viajou para outra cidade, quando chegaram foram ameaçadas e acabaram pagando por medo das ameaças.”

Confiança como ferramenta

Segundo a coordenadora do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab) da UFRJ, Luciane Bellin, o sucesso desse tipo de golpe se associa diretamente à forma como os aplicativos de relacionamento funcionam e à confiança que essas plataformas naturalmente despertam nos usuários.

Diferentemente de outras redes sociais, esses aplicativos foram criados justamente para aproximar desconhecidos. Esse ambiente favorece a criação de vínculos rápidos, mas também acaba sendo explorado por pessoas mal-intencionadas.

“Os aplicativos de relacionamento, assim como as plataformas digitais, não têm nenhuma garantia de que a pessoa que está ali com o seu perfil, que tem as fotos, a descrição do perfil, ela seja de fato quem ela está dizendo ser. Então, as plataformas digitais, de modo geral, facilitam a presença de pessoas que se escondem atrás de perfis falsos.”

E cair num golpe, de acordo com o Breno Sanvicente-Vieira, professor do Departamento de Psicologia da PUC-Rio e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Diferenças Individuais e Psicopatologia (LaDIP), pode gerar uma série de reações na saúde mental.

Para o especialista, os golpes amorosos exploram mecanismos psicológicos comuns a qualquer pessoa, e não a falta de inteligência ou de senso crítico das vítimas. Isso começa por um roteiro bem denifinido. 

“Os golpistas fazem uma espécie de roteiro. Eles começam a agradar a pessoa, oferecem atenção, às vezes diariamente, declaram sentimentos muito cedo. Frequentemente também, como uma forma de proteção, eles retiram a conversa do aplicativo, da interface onde a interação começou”.

Ainda conforme Vieira, esse processo é favorecido pela própria dinâmica das relações virtuais, em que cada pessoa revela apenas aquilo que deseja mostrar. “O golpista, ou mesmo em interações normais e saudáveis on-line, revela aquilo que quer revelar. Cada parte vai mostrando um pedaço de si. Muitas vezes, o que o golpista revela é justamente a qualidade que o outro quer ver. Não apresenta os defeitos, as questões negativas.”

Nesse processo, o cérebro tende a completar as informações que faltam. Isso torna a pessoa do outro lado da tela ainda mais idealizada e, essa atividade recebe o nome de confabulação. 

“O que acontece é que eu não sei direito como ele vai no trabalho, como ele vai nas relações, se ele é assim. Só que o ser humano tem um jeito de fechar a narrativa. A gente fecha a história daquilo que falta”, explica o psicólogo, que acrescenta: 

“Isso é um processo da memória. Quando a gente lembra de uma parte e não lembra da outra, às vezes acontece um processo que a gente chama de confabulação, que é justamente fechar essa história. A gente cria um pedaço da narrativa e acredita nela.”

Na prática, segundo Breno, a combinação entre idealização e envolvimento emocional reduz a capacidade de avaliar situações de risco. O psicólogo ressalta que qualquer pessoa pode ser alvo desse tipo de crime.  “Qualquer pessoa que esteja aberta a se relacionar, eventualmente, é um alvo possível.”

Prejuízos 

Além dos prejuízos financeiros,  as vítimas desses golpes frequentemente enfrentam consequências emocionais importantes. Segundo ele, podem surgir sintomas como ansiedade, depressão, baixa autoestima, lembranças recorrentes do episódio e até reações traumáticas. Em alguns casos, o sofrimento está menos relacionado ao dinheiro perdido do que ao fim abrupto de um relacionamento que, para a vítima, parecia verdadeiro.

“Nesses golpes que envolvem aplicativos de relacionamento, as pessoas acabam sofrendo duas vezes, frequentemente. Uma, quando perdem dinheiro, quando têm informações vazadas, enfim. Mas também tem um aspecto que muitas vezes a gente ignora, que é o da relação.”

Para que essa relação pareça verdadeira, no entanto, os criminosos também recorrem a recursos tecnológicos e às informações que as próprias vítimas disponibilizam na internet. Segundo o professor do Instituto de Computação da UFF e coordenador do Comitê Técnico de Cibersegurança da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Igor Moraes, o aplicativo não é o responsável pelo golpe, mas funciona como um canal que aproxima criminosos e vítimas.

“A tecnologia, na verdade, é só um instrumento que facilita o criminoso, o que a gente chama de atacante ou ator malicioso, a encontrar sua vítima.” Conforme destaca Moraes, as estratégia se tornam ainda mais sofisticadas com o avanço da inteligência artificial (IA). 

“Hoje em dia, resumindo, é muito fácil criar um perfil falso e fazer esse perfil parecer real usando informações disponibilizadas por outros usuários nas redes sociais. E, cada vez mais, isso também acontece com o uso da inteligência artificial.” Para lutar contra isso, existem outras ferramentas de IA que ajudam a identificar quando uma foto foi manipulada.

“Há, por exemplo, uma ferramenta chamada zero GPT. O zero GPT é gratuito, é uma página da internet, mas você pode colocar a sua foto lá e perguntar se foi gerada por inteligência artificial. É a inteligência artificial sendo usada para combater o mau uso da inteligência artificial”, sugere.

Guia de segurança 

Diante do aumento de crimes praticados a partir de aplicativos de relacionamento, a Polícia Civil passou a investir também em ações de prevenção.  O delegado Felipe Santoro, da 37ª DP, elaborou um guia com orientações para ajudar usuários a identificar sinais de fraude e agir rapidamente caso sejam vítimas.

Uma das providências que podem ser adotadas após um golpe, segundo Santoro, é acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) para tentar reaver transferências via Pix realizadas mediante fraude e registrar imediatamente a ocorrência para facilitar a investigação.

“É importante ressaltar que é necessário que seja feita uma comunicação na sede policial para que possamos responsabilizar esses criminosos e evitar a prática de novos crimes e o acometimento de novas vítimas”, concluiu. 

Entre as principais recomendações da cartilha estão:

  • Pesquise o perfil antes do encontro: faça busca reversa da foto, confira as redes sociais, pesquise o nome completo e desconfie de perfis recém-criados ou com informações inconsistentes.
  • Marque o primeiro encontro em local público: prefira bares, restaurantes, cafés ou shoppings movimentados, avise alguém de confiança sobre onde estará e vá e volte por conta própria.
  • Redobre a atenção com bebidas: não aceite copos já servidos, acompanhe o preparo e nunca deixe a bebida desacompanhada. Mudanças repentinas de local, insistência ou tentativas de isolamento são sinais de alerta.
  • Se for vítima de um golpe, procure ajuda imediatamente: guarde prints das conversas e comprovantes, registre ocorrência em uma delegacia ou na Delegacia Online e, em situações de emergência, acione a Polícia Militar (190) ou o Samu (192).

Procurada, desde a terça-feira (4), as assessorias dos aplicativos Tinder, Grindr e Bumble não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo