Ele lembrava apenas da primeira taça. Estava em um bar na zona mais badalada da cidade, cercado de música, luzes e pessoas dançando, quando uma mulher simpática puxou conversa. Minutos depois, aceitou um drink oferecido por ela. O resto da noite simplesmente sumiu da memória. Vulnerável, só voltou a si horas depois, no quarto de um hotel, com a conta bancária zerada e uma sensação de fragilidade que jamais esqueceria.
Esse roteiro, quase cinematográfico, tem se repetido com frequência no Rio de Janeiro. Trata-se do chamado golpe “Boa noite, Cinderela” — criminosos dopam as vítimas com substâncias misturadas a bebidas alcoólicas e, em seguida, realizam saques, transferências bancárias ou levam seus pertences.
De março a setembro deste ano, a Agenda do Poder contabilizou pelo menos seis prisões relacionadas a esse tipo de crime. Alguns dos envolvidos atuavam sozinhos, outros em grupos organizados. As vítimas seguiam um padrão: na maioria, homens turistas em busca de diversão. Todos enganados, drogados e roubados, acordando sem entender o que havia acontecido.
Em agosto, o caso de dois britânicos encontrados inconscientes nas areias de Ipanema, após serem sedados durante uma roda de samba, ganhou repercussão internacional. A cena, registrada em vídeo por uma testemunha, viralizou rapidamente nas redes sociais. O alerta da polícia é claro: os casos tendem a aumentar nos meses de alta temporada turística, especialmente durante o verão.
Diante da recorrência e sofisticação do golpe, surgem perguntas inevitáveis: como surgiu essa prática criminosa? Que tipo de substância é usada para dopar as vítimas? Como turistas e moradores podem se proteger?
Entender as origens, o modo de operação e, principalmente, como evitar cair nesse tipo de armadilha é hoje uma questão de segurança pública — e de sobrevivência para quem vive ou visita o Rio.
De onde vem o nome
O golpe ‘Boa noite, Cinderela’ é velho conhecido das autoridades. A circulação data de décadas na cidade e, se o nome remete a um conto infantil, a origem é diversa. Pela lógica, talvez a princesa mais adequada à comparação seja a Bela Adormecida, já que as vítimas são dopadas e caem em sono profundo. Uma das hipóteses remete a um quadro homônimo de televisão dos anos 1970, apresentado por Silvio Santos. Na atração, jovens ganhavam uma noite especial, com direito a tratamento de princesa.
Outra versão sustenta que a escolha se deve ao próprio enredo de Cinderela, que vive sua transformação mágica em um baile noturno — o mesmo ambiente em que o golpe é frequentemente aplicado.
“Chamamos de golpe, mas é um crime grave. O suspeito, através de uma medicação, tira a consciência da outra pessoa e acaba subtraindo os pertences ou faz muitas transações bancárias”, explica a delegada Patrícia Alemany, titular da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo.
Turistas estrangeiros são alvos preferenciais e aplicativos de relacionamento também têm sido usados para atrair homens — sobretudo gays — para encontros que terminam mal.
“Temos um perfil de homens que vêm para um turismo de entretenimento. E também há um perfil de um grupo LGBTQIAPN+ que, em razão do uso de aplicativos [de namoro], facilitam muito esses encontros para os criminosos”, aponta Patrícia.
Dentro da bebida, uma droga de efeito rápido: muitas vezes um ansiolítico de uso controlado, potencializado pela mistura com álcool e, em alguns casos, até com outras drogas.
“Esse remédio deixa a bebida mais doce. Quando o medicamento é colocado na caipirinha, é mais fácil de enganar a vítima. Já tivemos casos de morte, inclusive com a mistura de álcool e de outras drogas”
Patrícia Alemany
A droga por trás do crime

Segundo a Polícia Civil, a substância mais usada pelos bandidos atualmente é o clonazepam, um ansiolítico de uso controlado. Misturado ao álcool — e, em alguns casos, a outras drogas — ele provoca sonolência intensa, perda de reflexos e lapsos de memória.
Thalmanny Fernandes, perito criminal e membro da Sociedade Brasileira de Toxicologia, explica que a medicação é usada em diversas aplicações na medicina, como, por exemplo, tratamento de convulsões.
“Ele é, basicamente, um indutor de sono, mas que também atua junto com outros medicamentos e tratamentos, por exemplo, anticonvulsivantes. Ele deprime a atividade do sistema nervoso central, e por isso tem indicações [de uso]. Uma característica do clonazepam é a potência: ele precisa de uma concentração menor em relação a outros medicamentos dessa classe, como o diazepam”, destaca o especialista.
Misturado ao álcool, os efeitos se intensificam e podem colocar a vida em risco. O perito enumera como o corpo reage à substância.
“O primeiro sinal é a tontura. Quando a concentração no sangue vai aumentando, existe um efeito somatório em que a bebida por si só não possibilitaria causar de forma tão rápida. Depois, é a quebra do lapso temporal, onde você não não consegue mais entender ou recordar em que momento se deu aquela perda de memória. E há risco de morte quando o medicamento é associado, por exemplo, com bebidas alcoólicas”.
E como essa morte acontece? “Há duas substâncias que são depressoras do sistema nervoso central, o etanol e o clonazepam. O nosso sistema nervoso central está levando impulsos nervosos para diversas partes do corpo. Por exemplo, o movimento de abrir e fechar a mão é voluntário. O batimento cardíaco, a respiração e outros, involuntários. Quando você tem a diminuição da atividade generalizada do sistema nervoso central, pelo uso associativo entre benzodiazepines e etanol, os involuntários são comprometidos”, diz Fernandes.
O especialista destaca ainda que o reflexo respiratório sofre interrupção e o impulso nervoso responsável pelas batidas do coração é reduzido, o que pode levar a uma parada cardiorrespiratória.
A forma como os golpistas conseguem a medicação foi descoberta em uma das prisões feitas pela 12ª DP (Copacabana): “Eles conseguem comprar sem qualquer dificuldade em farmácias de subúrbio, embora nossa legislação determine a necessidade do receituário médico”, diz o delegado Angelo Lages, titular da distrital.
O crime na era do Pix
Se antes as vítimas eram apenas furtadas, o avanço das transferências digitais como o Pix tornou o golpe mais lucrativo. Em minutos, criminosos conseguem movimentar quantias altas, além de levar celulares e objetos de valor.

Segundo a polícia, os casos recentes se concentram em áreas turísticas como Copacabana, Ipanema e Lapa, onde a vida noturna é intensa. Lages foi responsável pelas três prisões mais recentes, todas esse mês.
Alexandra de Souza Dias e Fabiana Ferreira de Lima trabalharam em conjunto para atrair um homem, em janeiro deste ano, até um hotel de Copacabana. A vítima curtia a noite na Lapa quando encontrou as duas em uma boate. Persuadido pelas mulheres depois de beber, os três seguiram para um hotel e ele perdeu os sentidos no local.
Horas depois, ao acordar, percebeu que R$ 10 mil sumiram de sua conta através de transferências Pix. As investigações apontam ainda que Fabiana mandou parte do valor para conhecidos, na tentativa de camuflar seus passos. Apesar do golpe seguir o mesmo padrão, dessa vez há um diferencial: a vítima era carioca.
“A vítima não era um turista, era um morador aqui de Copacabana que estava em uma boate, conheceu a duas e resolveram fazer um programa. Eles foram para um hotel, o doparam e a gente conseguiu identificar ambas justamente pelas transferências bancárias. Pegaram o celular da vítima e fizeram várias dessas operações”, detalha o delegado.
As duas foram presas na quinta-feira passada (18).

Casos que chocaram
- Turista francês jogado de carro
Em dezembro de 2024, um francês que estava na Pedra do Sal, na Região Central, foi levado por três mulheres — todas garotas de programa — para um hotel em Copacabana, na Zona Sul.
Dopado, o turista perdeu o celular, R$ 150 em espécie e teve cerca de R$ 50 mil transferidos de sua conta. Depois, as mulheres o agrediram e o arremessaram de um carro em movimento.
Em março deste ano, Haina Rocha da Cruz, de 19 anos, foi presa em Belford Roxo pelo crime. Seis meses depois, outra comparsa também foi capturada.
- Belgas drogados em bar
Em abril, dois turistas belgas denunciaram que foram dopados, agredidos e roubados em Madureira, Zona Norte. Eles estavam na Pedra do Sal quando três brasileiros os convenceram a seguir até um bar no bairro.
No local, segundo as vítimas, o grupo colocou algo em suas bebidas. Os turistas desmaiaram em frente ao estabelecimento e tiveram celulares, cartões e cerca de R$ 200 levados.
Também foram registradas transações indevidas: 160 euros (R$ 1.021,04) retirados da conta de um deles e mais de 3 mil euros (cerca de R$ 19,1 mil) do outro.
- Ingleses dopados em Ipanema
Em um dos casos mais recentes que chocou o mundo, dois estudantes britânicos foram drogados e roubados por três mulheres em Ipanema.
Uma testemunha que passava pelo local chegou a filmar uma das vítimas caída na areia da praia, sem conseguir reagir, enquanto o trio entrava em um táxi e fugia. Duas delas estão presas: Amanda Couto Deloca e Mayara Ketelyn Américo da Silva. A terceira, Raiane Campos de Oliveira, segue foragida e, segundo a polícia, está escondida no Complexo do Chapadão.
O Ministério Público denunciou as mulheres pelos crimes de roubo qualificado, furto qualificado mediante fraude eletrônica e associação criminosa.
E a Justiça?
Os crimes são tipificados como roubo, agravados pelo uso de substâncias para dopar as vítimas. Por isso, ainda é difícil calcular com precisão o número de casos registrados neste ano. Uma atualização recente no sistema da Polícia Civil, no entanto, começou a permitir checar as ocorrências pelo nome do golpe.
Até a publicação desta reportagem, a última pessoa presa por praticar o crime no Rio foi Paloma Cristina Cavalcanti Bacalhau. Entre suas vítimas estão turistas da Alemanha, Suíça e Noruega, além de viajantes de São Paulo e Minas Gerais.
Ela agia com ajuda de Eduardo Fonseca de Freitas, preso em flagrante em dezembro de 2024. Em junho deste ano, ele passou a responder ao processo em liberdade.
“Esse golpe, na nossa legislação, é tipificado como crime de roubo, ou seja, quando o autor reduz a possibilidade de defesa da vítima usando um sedativo, como eles fazem, isso é enquadrado como roubo. Então, via de regra, eles deveriam responder presos. Evidentemente que depois de um tempo, a Justiça eventualmente pode entender que eles têm condições de responder em liberdade. Como foi o caso do Eduardo”, explica o delegado Lages.
O advogado Bruno Vergilio ressalta que, embora cause sensação de impunidade, a liberdade provisória não é uma falha do sistema, mas um princípio constitucional.
“O princípio da presunção da inocência está no inciso 57 do artigo 5º da nossa Constituição. O Estado determina que a liberdade é a regra do sistema penal, justamente para evitar injustiças históricas, punições arbitrárias. Em crimes como o chamado ‘Boa noite, Cinderela’, é necessário que o Estado demonstre de forma clara a necessidade de restringir esse direito”, explica.
Ele acrescenta que, em casos de criminosos reincidentes ou que atuam em quadrilha, já existe entendimento judicial para decretar prisão preventiva, diante do risco de fuga, de interferência na investigação ou de ameaça à ordem pública. Ainda assim, reforça que cada decisão exige equilíbrio.
“O Judiciário precisa ponderar muito bem entre restringir a liberdade e a realidade que nós vivemos: superlotação dos presídios e morosidade processual. Por isso que são sempre decisões complexas que têm que se atentar ao caso concreto, às vezes causando indignação da população porque muitos desses criminosos respondem esses processos em liberdade”, pontua.
Vítimas fatais
D’wayne Antônio Morris
O americano de 43 anos morreu em 9 de agosto de 2024. Ele estava no Rio com um amigo quando conheceu duas mulheres na Lapa e as levou para um apartamento em Copacabana, Zona Sul.
Eles dormiram e, pela manhã, o amigo encontrou D’wayne com a boca espumando. Todos os pertences das vítimas foram furtados pela dupla — uma das mulheres está presa.

Manuel Felipe Martínez Mantilla
Professor da Universidade Nacional da Colômbia e funcionário do Ministério da Fazenda do país, Manuel, de 33 anos, morreu em 15 de outubro de 2024, após passar mal e ser levado para o Hospital Federal de Bonsucesso, Zona Norte.
Ele estava no Rio para participar de um congresso e conheceu duas mulheres em uma roda de samba no Centro. Dopado com altas doses de sedativo, não resistiu. Nesta sexta-feira (26), a Justiça condenou uma das envolvidas a 20 anos de cadeia.

Ronald Tejeda Sobarzo
O chileno de 29 anos morreu em 17 de maio de 2023. Ele e um amigo conheceram duas garotas de programa em uma casa noturna na Lapa. As mulheres os levaram até o Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, e os jogaram de uma altura de dez metros.
Ronald não sobreviveu à queda. As criminosas foram condenadas a 30 anos de prisão.

Saiba como se proteger
As autoridades reforçam que a principal forma de evitar o golpe é adotar cuidados simples, mas essenciais, ao sair para bares, festas ou encontros.
“É muito complicado você conhecer uma pessoa na rua e levar essa pessoa para dentro da sua casa ou para o local em que você esteja hospedado. Muitos desses turistas estavam hospedados aqui em Copacabana por aplicativos [de aluguel]. Esses locais não são totalmente seguros, você não tem uma recepção. A dica é evitar, no primeiro contato, levá-la para dentro da sua residência”, alerta o delegado Angelo Lages.
Segundo a delegada Patrícia Alemany, da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo, há campanhas permanentes de conscientização junto ao setor hoteleiro, agências de viagem e consulados para alertar turistas.
“Não é fácil controlar encontros, mas a gente faz um esforço para dar esses alertas”, diz.
Ela reforça que, além de evitar encontros privados logo no primeiro contato, é fundamental adotar cuidados básicos com a bebida. “Sempre ficar atento quando você vai sair com uma pessoa desconhecida, que você encontrou por aplicativo. Procure ir para um lugar público, não trazer diretamente para sua casa, para seu apartamento de temporada. Observe sua bebida, quando a pessoa oferecer uma caipirinha para você e não aceite, isso acontece muito. Cuide de sua bebida”, orienta.


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