Grupos extremistas violentos estão migrando do Discord para plataformas digitais menores e menos monitoradas para continuar organizando atividades criminosas. A movimentação foi identificada por investigadores depois que a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão do sistema de transmissões ao vivo criptografadas do aplicativo. informa O Globo. Um dos serviços que passaram a receber essas comunidades é o Root, utilizado para transmitir agressões contra uma adolescente de 14 anos em Vila Velha, no Espírito Santo.
O caso veio a público no início do mês passado, quando um adolescente de 15 anos foi apreendido suspeito de estuprar e torturar a namorada. As agressões foram transmitidas ao vivo para centenas de jovens. A investigação foi conduzida a partir de informações reunidas pelo Laboratório de Operações Cibernéticas, ligado ao Ministério da Justiça, que encaminhou um relatório à Polícia Civil capixaba.
Plataformas menores atraem grupos extremistas
Lançado no ano passado, o Root tem cerca de 100 mil downloads na loja do Google, número muito inferior aos mais de 500 milhões registrados pelo Discord. Para pesquisadores, a menor popularidade e a fiscalização menos intensa facilitam a instalação de grupos extremistas nesses ambientes.
O fenômeno, porém, não é novo. Em 2022, a suspensão temporária do Telegram por determinação judicial levou comunidades extremistas a buscar alternativas, incluindo o Discord. Em 2024, o aumento da moderação no próprio aplicativo provocou outra migração, dessa vez para a rede social Project Z.
Embora o Root proíba oficialmente discurso de ódio, violência coordenada e glorificação de atos violentos, as regras não impediram a chegada das chamadas “panelas”, comunidades fechadas que reúnem integrantes com hierarquia e funções específicas.
Transmissão de agressões reuniu 300 espectadores
Segundo o delegado Brenno Andrade, sete integrantes ocupavam posições de comando durante a transmissão das agressões contra a adolescente, acompanhada em tempo real por aproximadamente 300 pessoas. A maioria dos envolvidos é menor de idade. Nas comunidades, foram identificados estímulos à automutilação, racismo e tortura de animais.
O adolescente apreendido em 8 de outubro, três dias depois das agressões, confirmou os atos e afirmou ter cogitado matar a namorada. A motivação seria uma suposta traição virtual envolvendo outros participantes do grupo. A polícia ainda trabalha para identificar os demais integrantes.
O promotor Fábio Costa, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, aponta que a facilidade de migrar entre serviços digitais dificulta o trabalho das autoridades. Segundo ele, redes conhecidas, como Instagram e X, podem funcionar como porta de entrada para atrair jovens, enquanto a violência acontece em plataformas alternativas, administradas por empresas menores.
Autoridades acompanham uso do Root
O Laboratório de Operações Cibernéticas informou que monitora a utilização do Root por grupos extremistas e identificou possíveis descumprimentos das obrigações de proteção de crianças e adolescentes previstas no ECA Digital. O órgão iniciou contatos com os responsáveis pelo serviço para estabelecer mecanismos de cooperação com as autoridades policiais.
Para o promotor Fábio Costa, essas comunidades exploram a busca de pertencimento entre crianças e adolescentes. O especialista afirma que a violência e o sadismo funcionam como instrumentos de reconhecimento dentro dos grupos, que ganharam força durante a pandemia, quando a socialização digital se intensificou.
Discord continua sob fiscalização
Mais de dois meses depois da suspensão das transmissões ao vivo, o Discord teve negado pela Superintendência de Fiscalização da ANPD um recurso que solicitava a retomada da funcionalidade. A decisão definitiva ainda cabe ao Conselho Diretor da agência.
A restrição foi determinada depois que uma adolescente de Naviraí (MS) foi induzida à automutilação e ao suicídio em um grupo fechado do aplicativo. O episódio levou a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, a cobrar publicamente medidas contra a plataforma.







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