PGR diz ao STF que há provas para condenar acusados pela morte de Marielle

Primeira Turma do STF inicia julgamento nesta terça (24) e decide se condena ou absolve os apontados como mandantes do assassinato da vereadora e de Anderson Gomes

A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que reuniu provas suficientes para a condenação dos acusados de mandar matar a vereadora Marielle Franco (Psol) e o motorista Anderson Gomes.

O crime ocorreu em março de 2018, no Centro do Rio de Janeiro. Na ocasião, a assessora Fernanda Chaves, que estava no veículo com as vítimas, sobreviveu ao atentado. As provas apresentadas pela PGR também abrangem a tentativa de homicídio contra ela.

Organização criminosa e atuação de milícias

Em manifestação com mais de 200 páginas, a PGR afirma que os irmãos Brazão e Robson Calixto integravam uma organização criminosa voltada a atividades de milícia.

De acordo com a acusação, o grupo atuava na exploração ilegal de atividades imobiliárias, com grilagem de terras e formação de currais eleitorais em áreas dominadas por milicianos, especialmente na Zona Oeste do Rio.

Para a Procuradoria, a execução de Marielle foi motivada por sua atuação política, que contrariava interesses do grupo, principalmente em temas ligados à regularização fundiária e projetos urbanísticos.

Provas e delação premiada

O ponto de partida da investigação foi a delação do ex-policial militar Ronnie Lessa, assassino confesso de Marielle e Anderson. A PGR utilizou depoimentos, dados de celulares, informações de geolocalização, documentos da Polícia Civil e da CPI das Milícias, além de quebras de sigilo bancário.

Segundo a Polícia Federal e a Procuradoria, testemunhas foram enfáticas ao afirmar que a atuação política da vereadora prejudicava diretamente os interesses dos irmãos Brazão.

A investigação indica que o planejamento do atentado começou no segundo semestre de 2017. Teriam sido contratados dois serviços: a execução, atribuída a Lessa, e a “garantia de impunidade”, que, segundo a acusação, teria sido prometida por Rivaldo Barbosa.

Tentativas de obstrução e falhas nas apurações

A PGR também aponta que houve tentativas de atrapalhar a elucidação do crime, incluindo desaparecimento de provas e o surgimento de uma falsa testemunha que tentou incriminar um miliciano, hipótese posteriormente descartada.

Durante cinco anos, a investigação ficou sob responsabilidade da polícia do Rio de Janeiro, sem que fossem identificados os mandantes do crime.

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand, afirmou que os irmãos Brazão decidiram matar Marielle “com o objetivo de eliminar o obstáculo”, citando a atuação da parlamentar em pautas de habitação e urbanismo que afetariam interesses econômicos e eleitorais do grupo.

Segundo ele, o crime foi praticado mediante promessa de recompensa e por motivo torpe, visando manter a lucratividade de negócios ilícitos. A acusação também destaca que os disparos foram feitos em via pública, colocando outras pessoas em risco, e que as vítimas estavam desarmadas e não perceberam a aproximação dos atiradores.

A Primeira Turma do STF começa a julgar nesta terça-feira (24) se condena ou absolve os réus apontados como mandantes e articuladores do assassinato.

Quem são os acusados no julgamento

Respondem ao processo Domingos Inácio Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; João Francisco Inácio Brazão, deputado cassado; Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, delegado e ex-chefe da Polícia Civil do RJ; Ronald Paulo Alves Pereira, major da Polícia Militar; e Robson Calixto Fonseca, policial militar e ex-assessor de Domingos Brazão.

Segundo a PGR, os irmãos Brazão são apontados como mandantes do assassinato. Rivaldo Barbosa teria participado do planejamento do crime e garantido, conforme a acusação, a promessa de impunidade.

Já Ronald Paulo Alves Pereira é acusado de monitorar os deslocamentos de Marielle, enquanto Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, teria integrado a organização criminosa ligada aos irmãos Brazão.

Como ocorreu o assassinato de Marielle

Marielle Franco e Anderson Gomes foram mortos na noite de 14 de março de 2018. O carro em que estavam foi seguido desde a Lapa, onde a vereadora participou de um debate.

No bairro do Estácio, um Cobalt prata emparelhou com o veículo conduzido por Anderson. Do banco de trás partiram diversos disparos. Marielle e o motorista morreram no local, enquanto Fernanda Chaves conseguiu sobreviver.

Em 2019, foram presos os ex-policiais Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz. Lessa é apontado como autor dos 13 tiros que atingiram as vítimas, e Élcio teria dirigido o carro usado na ação.

Prisões e andamento do processo

Domingos Brazão, Rivaldo Barbosa, Ronald Paulo e Robson Calixto estão presos preventivamente desde 24 de março de 2024, sob a justificativa de risco às investigações.

Em abril de 2025, o ex-deputado Chiquinho Brazão passou para o regime de prisão domiciliar após a defesa apresentar diagnóstico de múltiplas doenças graves.

Ao longo do processo, as defesas negaram envolvimento no crime, apontaram supostas falhas processuais e sustentaram que não há provas que vinculem os réus às mortes. Em interrogatório no STF, todos negaram participação nos assassinatos.

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