PF e PGR querem que Vorcaro admita crimes e apresente informações inéditas para aceitarem delação

Após rejeição da primeira proposta, banqueiro tenta reabrir negociações, mas autoridades exigem mudança de postura para avançar

As negociações para uma nova tentativa de acordo de delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro foram retomadas na última semana, em meio a reuniões separadas entre seus advogados, integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e delegados da Polícia Federal. Embora os contatos tenham sido reabertos, interlocutores envolvidos nas tratativas afirmam que ainda não houve avanço concreto capaz de indicar uma aproximação efetiva entre as partes. As informações são da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

O principal recado transmitido tanto pela PGR quanto pela Polícia Federal foi direto: para que uma nova proposta tenha alguma chance de prosperar, Vorcaro precisará abandonar a estratégia de defesa adotada até agora e assumir responsabilidade pelos crimes investigados.

A exigência surge após a rejeição da primeira proposta de colaboração, descartada no último dia 20. Na avaliação dos investigadores, o material apresentado era insuficiente, seletivo e deixava de abordar fatos já conhecidos pelas autoridades. Além disso, a proposta teria omitido informações consideradas relevantes e evitado envolver personagens que, na visão dos órgãos de investigação, deveriam necessariamente aparecer nos relatos.

Críticas à primeira proposta

Fontes ligadas às negociações afirmam que a principal fragilidade do acordo rejeitado foi a resistência de Vorcaro em admitir participação nos fatos que levaram à sua prisão. Para os investigadores, a postura comprometeu a credibilidade da colaboração.

Um dos exemplos citados internamente envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo relatos de pessoas que acompanharam a análise dos anexos apresentados, o material não tratava de supostos pagamentos mensais de R$ 500 mil nem de despesas relacionadas a viagens e jantares de luxo na Europa.

Por outro lado, o documento mencionava a participação societária em uma empresa utilizada como veículo de negócios, mas deixava de abordar a chamada “emenda Master”, proposta que buscava ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para investidores que adquirissem certificados de depósito bancário (CDBs).

A avaliação feita por investigadores foi de que o relato apresentado sobre o parlamentar era excessivamente brando. Nos bastidores, o capítulo dedicado a Ciro Nogueira chegou a receber um apelido irônico: “a beatificação de Ciro”.

Outro ponto considerado sensível foi a ausência de informações detalhadas sobre a influência atribuída ao ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, em aportes realizados pelo Rioprevidência em títulos vinculados ao Banco Master.

Mudança de postura é considerada essencial

Para integrantes da equipe responsável pelas negociações, a simples inclusão de novos anexos não será suficiente para viabilizar uma futura homologação do acordo.

Segundo um investigador envolvido nas conversas, o problema central não está apenas na quantidade de informações apresentadas, mas na postura adotada pelo banqueiro ao longo das negociações.

“Ele precisa aceitar que uma delação presume confissão de crimes, não é instrumento de defesa”, diz esse investigador.

A percepção predominante entre os negociadores é que uma colaboração premiada exige não apenas a revelação de fatos inéditos, mas também o reconhecimento da própria participação nas irregularidades narradas.

Tentativa de reconstruir relação com André Mendonça

Paralelamente às negociações com os órgãos de investigação, a defesa de Vorcaro também trabalha para restabelecer o diálogo com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso.

A relação entre o magistrado e a equipe jurídica do banqueiro se deteriorou durante a tramitação da primeira proposta de colaboração. Segundo relatos de bastidores, Mendonça passou a restringir o contato aos canais formais do processo, comunicando-se exclusivamente por meio de petições.

A mudança ocorreu após o então advogado de Vorcaro, José de Oliveira Lima, sustentar perante o ministro a proposta de colaboração apresentada. Na ocasião, foi informado ao relator que a defesa recorreria à Segunda Turma do STF caso a homologação fosse negada.

O movimento foi interpretado por Mendonça como uma forma de pressão sobre o tribunal, o que levou ao esfriamento das relações entre o gabinete do ministro e os representantes do banqueiro.

Mudanças na prisão

A rejeição da proposta de delação também teve reflexos imediatos na situação prisional de Vorcaro. Após o fracasso das negociações, ele deixou a sala de Estado-Maior da Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal e foi transferido para uma cela de passagem.

De acordo com seus advogados, as condições do novo espaço eram significativamente inferiores às encontradas em outras unidades pelas quais o executivo passou desde sua prisão.

Posteriormente, André Mendonça autorizou o retorno de Vorcaro à sala de Estado-Maior. O local ficou conhecido por já ter abrigado o ex-presidente Jair Bolsonaro antes de sua transferência para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.

Nos bastidores, a decisão do ministro foi interpretada como uma oportunidade para recomeçar as negociações em novas bases. Agora, a expectativa dos investigadores é que a defesa consiga convencer o banqueiro a alterar sua estratégia e apresentar uma colaboração mais abrangente, capaz de atender às exigências consideradas indispensáveis para a celebração de um acordo.

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