Pesquisa revela que um em cada dez apostadores já deixou de pagar contas para apostar

Dados apresentados na Alerj acendem alerta sobre endividamento, vício em jogos e impactos das plataformas de apostas na saúde mental dos brasileiros

Um em cada dez participantes de uma pesquisa realizada pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro afirmou já ter deixado de pagar contas básicas para apostar em plataformas de apostas on-line.

O levantamento foi apresentado nesta quarta-feira (24), durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), e reforçou o alerta de especialistas sobre os impactos econômicos e psicológicos associados ao crescimento das chamadas bets.

O levantamento foi divulgado pela coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), Luciana Telles da Cunha, durante reunião promovida pela Comissão de Legislação Participativa da Casa.

Segundo ela, a pesquisa aponta para um cenário de endividamento crescente impulsionado pela percepção equivocada de que as apostas representam uma oportunidade de investimento.

“O apostador acredita que o jogo é um investimento capaz de multiplicar seu dinheiro. Na verdade, essa falsa noção leva ao aumento do endividamento da população”, afirmou.

Endividamento em alta

O dado de que 10% dos entrevistados deixaram de pagar despesas essenciais para apostar foi um dos pontos centrais da audiência. Para os participantes do debate, o número evidencia como as plataformas de apostas passaram a competir diretamente com gastos básicos das famílias.

Luciana destacou que o avanço do setor ocorreu em um período de pouca regulamentação. Embora as apostas esportivas tenham sido autorizadas em 2018, as regras para funcionamento das plataformas só foram definidas cinco anos depois.

“Tivemos cinco anos de total liberdade para as plataformas trabalharem como elas quisessem. O resultado foi uma publicidade agressiva e, por consequência, a entrada das apostas no cotidiano do brasileiro”, declarou.

Crescimento e preocupação

Os números apresentados reforçaram a avaliação de que as apostas deixaram de ser uma atividade restrita a um grupo específico e passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.

O presidente da Comissão de Legislação Participativa da Alerj, deputado Yuri Moura (Psol), que realizou o encontro, afirmou que o fenômeno já produz impactos econômicos, sociais e de saúde pública.

“Não é uma luta fácil, mas é a luta correta pelas famílias, pela economia e pela saúde mental dos brasileiros”, disse. Segundo o parlamentar, a preocupação também envolve possíveis práticas de lavagem de dinheiro e a necessidade de ampliar a fiscalização do setor.

Saúde mental em alerta

Outro ponto destacado durante a audiência foi a relação entre as apostas e o adoecimento mental. Representando o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Thiago Rodrigues lembrou que a ludopatia — condição caracterizada pelo comportamento compulsivo em jogos de azar — já é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental.

Segundo ele, o mecanismo das apostas cria um ciclo difícil de ser interrompido. “O consumidor já gastou tanto tempo, dinheiro e esperança de que o jogo vai trazer o benefício, que ele sente que não pode voltar atrás. Vem disso a necessidade de continuar, pensando estar mais perto do retorno positivo. Como isso muitas vezes não acontece, a pessoa adoece”, explicou.

Histórias por trás dos números

Além dos dados estatísticos, a audiência também trouxe relatos sobre os efeitos concretos do vício em apostas. A advogada e auditora fiscal Juliana Prates relatou a experiência de seu irmão, Otacílio Prates, que desenvolveu dependência relacionada às apostas e enfrentou dificuldades financeiras antes de morrer. Segundo ela, o caso demonstra que o problema não está restrito a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

“Me indigna saber que meu irmão, um auditor concursado e estudado, caiu nessa”, afirmou.

Os números apresentados pela Defensoria Pública e os relatos compartilhados durante o debate reforçaram a necessidade de ampliar ações de conscientização, fiscalização e prevenção diante do avanço das apostas on-line no país.

Atualmente, tramitam na Alerj propostas voltadas à educação financeira, prevenção da dependência, combate à lavagem de dinheiro e ampliação da fiscalização das plataformas digitais de apostas.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading