Uma pesquisa de doutorado desenvolvida pelo cientista político Paulo Renato Marques aponta que o ódio se tornou um dos principais elementos organizadores da vida social contemporânea. Intitulado As novas fronteiras do discurso do ódio no Brasil, o estudo analisa como transformações sociais, políticas e tecnológicas contribuíram para a expansão de discursos hostis e da polarização no país.
A investigação parte da hipótese de que o ódio deixou de ser apenas uma manifestação emocional individual para assumir um papel central na construção de identidades, na definição de adversários e na organização de grupos sociais. Para sustentar a análise, a pesquisa reúne referências teóricas de pensadores como Hannah Arendt, Michel Foucault, Pierre Dardot, Christian Laval e Jean-Pierre Lebrun.
Segundo Paulo Renato Marques, o fenômeno não pode ser compreendido apenas como um problema associado a grupos extremistas. “O ódio passou a funcionar como uma espécie de linguagem política e social que organiza identidades, produz pertencimentos e define adversários”, afirma o pesquisador.
Redes sociais
Como parte do estudo, foi realizada uma ampla pesquisa netnográfica em plataformas digitais, especialmente Instagram e Facebook. Ao todo, foram analisados mais de 22 mil comentários extraídos de 55 casos de grande repercussão nas redes sociais.
O levantamento se concentrou em oito áreas temáticas: intolerância política, racismo, LGBTfobia, machismo e feminismo, intolerância religiosa, xenofobia, gordofobia e etarismo. Os resultados preliminares indicam que o discurso de ódio costuma se desenvolver em dinâmicas de confronto entre grupos antagônicos, alimentando ciclos contínuos de hostilidade e radicalização.
De acordo com o pesquisador, a análise mostrou que os conflitos observados nas redes raramente seguem uma lógica simples de agressor e vítima. Em muitos casos, o enfrentamento acaba fortalecendo a identidade dos próprios grupos envolvidos e ampliando a polarização.
Lógica agressor x vítima
A pesquisa também destaca o papel das plataformas digitais nesse processo. Segundo Marques, os mecanismos de engajamento e visibilidade das redes sociais favorecem a circulação de conteúdos polarizados e incentivam disputas morais, religiosas, políticas e identitárias.
Os resultados sugerem ainda que a polarização política passou a atravessar diferentes debates públicos, influenciando discussões sobre raça, religião, gênero e cultura. Para o pesquisador, compreender essas dinâmicas é fundamental para refletir sobre os desafios da democracia, da convivência social e da cultura digital no século XXI.






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