O Brasil vive um cenário cada vez mais preocupante de violência escolar impulsionada por dinâmicas do ambiente digital, informa Cristina Fibe em sua coluna no portal UOL. Segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (11) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a empresa Timelens, o aumento de discursos de ódio nas redes sociais e a ausência de apoio emocional em casa e nas escolas têm criado um terreno fértil para a radicalização de crianças e adolescentes.
O estudo identifica um tripé que sustenta esse fenômeno: “em casa, ausência emocional; na escola, falta de escuta; nas redes, o acolhimento, mesmo que venha por discursos de ódio”. Esse acolhimento distorcido tem contribuído diretamente para o aumento da violência extrema nos ambientes escolares.
De acordo com o levantamento, o número de postagens com ameaças a escolas cresceu 360% entre 2021 e maio de 2025. O discurso de ódio, antes restrito à deep web, hoje circula livremente em plataformas públicas. Um dado especialmente alarmante mostra que os comentários favoráveis aos autores de ataques passaram de 0,2% no episódio de Realengo, em 2011, para 21% em 2025. Expressões como “heroísmo”, “legítima defesa” e “vingança justa” são recorrentes nas publicações que exaltam agressores.
No caso mais recente, ocorrido em 8 de maio deste ano, em que uma estudante de 14 anos foi assassinada a facadas por um colega de turma, quase 30% das reações nas redes foram positivas ao agressor. O crescimento desse tipo de engajamento ocorre em paralelo ao número de ataques em escolas brasileiras: entre 2001 e 2018, o país não registrava mais de dois casos por ano; a partir de 2019, os episódios se tornaram mais frequentes, com picos em 2022 e 2023 — quando foram contabilizados, respectivamente, 10 e 15 atentados.
Segundo o Observatório Violência nas Escolas, até 2023 todos os autores de ataques eram homens influenciados por discursos de ódio e por comunidades digitais extremistas. Os estudos apontam como causas principais desse fenômeno o crescimento do extremismo online, a ausência de regulação de conteúdos violentos, a cultura armamentista, o bullying escolar, e a precariedade da formação docente para lidar com mediação de conflitos.
Apesar do cenário crítico, o relatório destaca que os esforços coordenados pelo Ministério da Educação a partir de 2024 começaram a surtir efeito, estabilizando a curva de crescimento dos ataques. Mesmo com o ambiente digital em processo de radicalização, medidas preventivas, formação de educadores e ações interinstitucionais conseguiram conter novos surtos de violência.
O estudo alerta, no entanto, que o risco persiste e está enraizado em um contexto de “raiva silenciosa que estamos ignorando — até que ela exploda. Quando explode, é recebida com honra nos canais que a moldaram”.
A pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Manoela Miklos, ressalta que “todos os estudos apontam para uma maior vitimização de meninas e mulheres no Brasil”, e que este trabalho “ilumina a violência que passa pelas redes e atinge uma geração nativa da internet, para quem offline e online são uma mesma experiência”.
“É uma vida híbrida, o digital e o real são, juntos, o real”, explica Miklos. E prossegue: “Temos que fazer um exercício de entender o que acontece dentro dos computadores dessas crianças, e dentro da cabeça dessas crianças. A gente precisa estar atento. E aí trabalhar, como sociedade, atribuindo as responsabilidades adequadas a cada um — Legislativo, Judiciário, escolas, sistema de saúde, famílias —, para que meninas e meninos tenham mais segurança nessa jornada.”
Renato Dolci, diretor de dados da Timelens, afirma que “o estudo é a constatação de que a violência digital deixou de ser exceção para se tornar paisagem. Ela não explode de repente, ela se forma no silêncio, na solidão e na ausência de referências emocionais. Hoje, parte do ressentimento juvenil encontra nas redes um roteiro pronto: primeiro o acolhimento, depois a radicalização.”
Para Dolci, não se trata de um crescimento súbito da violência online, mas de uma naturalização desse ambiente entre os jovens: “Não é que a violência tenha aumentado nas redes, é que ela ficou mais confortável por lá”. Ele conclui: “O discurso de ódio encontrou público, linguagem, recompensa e impunidade. O dado nos mostra uma mudança estrutural: jovens não estão apenas consumindo conteúdo, estão formando identidade em ambientes que premiam o exagero e a exclusão”.





