“Eu fico monitorando a hora que meu filho volta da escola. Deu um determinado horário, se ele ainda não chegou, já fico preocupada, mando mensagem. E, diariamente, tem sido essa a tensão”. O relato é da mãe de um aluno do Instituto de Educação Sarah Kubitschek, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, onde o banheiro masculino foi pichado com frases racistas, homofóbicas e de intolerância religiosa, além de uma suástica vermelha — símbolo do nazismo.

O caso aconteceu na última sexta-feira (29) e chegou ao conhecimento da direção da unidade, que disse ter identificado o grupo responsável e acionado o Conselho Tutelar junto aos pais dos envolvidos. A Polícia Civil investiga o episódio.

Poucos dias depois, em Botafogo, na Zona Sul, um jogo das Olimpíadas Escolares no Colégio PH terminou em briga generalizada. O estopim: um aluno branco imitou gestos de macaco para um colega negro, bolsista. O estudante agressor foi expulso da instituição.

“Lamentamos profundamente o erro cometido por nosso filho, que o reconhece, e manifestamos nossa solidariedade ao jovem vitimado e à sua família”, disseram os pais do adolescente, em nota.

Na Região dos Lagos, em Cabo Frio, outro episódio gerou alarme. Um vídeo que circulou nas redes sociais em agosto mostra uma adolescente de 14 anos sendo agredida com chutes no pátio da Escola Municipal Professor Edilson Duarte por um colega de 15. À Agenda do Poder, a mãe da jovem contestou boatos sobre a filha estar armada.

“Minha filha é desenhista, ela desenhou uma personagem de anime no quadro da sala. Ele (agressor) apagou o desenho e gerou uma rivalidade entre as meninas. Depois, espalhou que minha filha estava com uma navalha e iria cortar outra aluna, o que é mentira”, explicou. Os três episódios trazem à tona um fenômeno que preocupa especialistas: o avanço dos discursos de ódio no ambiente escolar.

A escalada do ódio

Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a empresa Timelens, só entre janeiro e maio de 2025 foram registradas mais de 88 mil publicações de ódio contra alunos, professores e escolas nas principais redes sociais do país. O número se aproxima muito de todo o ano de 2024 (105,1 mil). Em 2021, eram 43,8 mil mensagens — menos da metade.

Dados mostram um crescimento alarmante nas publicações de ódio | Reprodução

Mas quando esses discursos saem do digital e invadem as salas de aula? Para a professora Marília Arreguy, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), a normalização da violência nesses espaços digitais é uma força propulsora para esses episódios nas escolas.

“Essa questão da intolerância, da violência nas escolas, sempre existiu. Atualmente, a gente vê um forte impulsionamento por conta de um modelo de violência que se tornou a norma dentro das plataformas digitais, das redes sociais, sobretudo, escalonando esse processo. A violência, as discussões, o bullying, a discriminação, o racismo têm uma mola propulsora dentro da internet e que vai explodir na realidade”, destaca.

O mesmo ponto é reforçado por Daniela Frida Drelich, da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio (Uerj).

“O fato é que temos vivido imersos num espaço de proliferação de ódio dirigido às pessoas negras e periféricas, às mulheres, vide o aumento do feminicídio e dos estupros, e não nos esqueçamos que matamos como ninguém pessoas LGBT+. É possível dizer que há uma política de ódio que atualiza práticas discriminatórias longevas no Brasil”, explica.

Da tela para o pátio

Rodrigo Nejm, coordenador do Eixo Digital e especialista do Instituto Alana, aponta que o ambiente virtual serve como catalisador de comportamentos que antes ficavam restritos ao privado.

“Esses ambientes, tanto o digital quanto a escola, passam a ser, cada dia mais, os ambientes principais de socialização, de aprendizagem, de convivência com adversidades. E quando vemos o volume dessa presença do conteúdo de ódio nas redes, conseguimos ver que o movimento é duplo também. Tanto que as violências, que já aconteciam nas escolas, passam a ocupar o espaço digital, que permite contato com conteúdo de ódio de outros lugares”.

Ele alerta ainda que tal tipo de conteúdo tem mais potencial de engajamento nas plataformas: “É um modelo de negócio baseado na maximização do tempo de conexão, no tempo de engajamento. E há evidências científicas provando que o ódio, a violência e conteúdos de alto teor emocional engajam mais. As plataformas não só têm feito ‘vista grossa’ para os conteúdos de ódio, mas às vezes até estimulam que esse conteúdo chegue mais facilmente aos usuários”, analisa.

Família em alerta

Desde o episódio no Instituto Sara Kubitschek, o medo é o sentimento que mais marca a rotina da família.

“Foi um baque, principalmente pelo símbolo do nazismo. A forma como (o símbolo) foi feito com a tinta vermelha que, para mim, também tem uma representação forte. A interpretação que eu fiz foi de ler uma ameaça de fato à vida dos jovens que estavam ali naquela escola. Me causou muita preocupação”, narra a mãe do jovem.

Mensagens de ódio e suástica foram desenhadas na parede | Arquivo pessoal

Apesar de terem procurado a polícia e registrado o caso, a família considera que a Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) poderia ter um posicionamento mais incisivo.

“Nós entendemos que a escola poderia ter acionado a polícia, porque é algo que tem que ter uma investigação criminal para identificar a autoria. E assim, saber se a ideia de fazer isso foi realmente das crianças ou se elas foram aliciadas”, diz.

Em Cabo Frio, por decisão do colégio e da mãe, a menina agredida foi remanejada para outra unidade de ensino. A aluna passou por um exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) de Cabo Frio, que apontou lesões na região nasal, lábio inferior e ombro esquerdo.

“No vídeo, dá para ver que ele pisou no rosto e ombro dela, mesmo quando ela já estava sentada. Ele poderia ter soltado, mas não fez isso

Mãe da aluna agredida

Efeitos duradouros

A psicóloga pós-graduada em neuropsicopedagogia Andressa Nascimento explica que episódios de racismo, homofobia ou intolerância religiosa na escola têm efeitos profundos e duradouros na vida das vítimas.

“Eles podem desenvolver sentimentos intensos de medo, vergonha e inadequação, além de carregar a sensação de que não pertencem àquele espaço. O cérebro, em estado constante de alerta, acaba consumindo energia que deveria ser destinada ao aprendizado. Então, em vez de se concentrar em absorver conteúdo, o estudante está gastando recursos mentais para se proteger de uma ameaça”, afirma.

Esse processo, segundo a especialista, compromete diretamente o desempenho acadêmico.

“Quando a escola, que deveria ser um lugar de segurança, se torna também um espaço de ameaça, a motivação natural para aprender se reduz. O estudante pode passar a evitar participar de atividades, faltar mais às aulas e até desistir de se engajar academicamente”

Andressa Nascimento, psicóloga
Aluna é agredida dentro da escola | Reprodução

Do ponto de vista psicológico, o dano pode ser comparado a uma experiência traumática.

“A mensagem que fica é: ‘Se nem aqui eu estou protegido, onde estarei?’. Essa insegurança abala profundamente a forma como a criança ou adolescente se relaciona com o mundo”, destaca a profissional.

Investigações e manifestações das instituições

Os três casos citados nesta reportagem são investigados pela Polícia Civil.

No Instituto de Educação Sarah Kubitschek, agentes da 35ª DP (Campo Grande) informaram que seguem apurando as denúncias.

A Seeduc disse que todas as medidas necessárias estão sendo tomadas e que repudia veementemente atos de bullying, preconceito religioso ou qualquer outro tipo de violência no ambiente escolar.

“O caso foi incluído no Registro de Violência Escolar – RVE, uma ferramenta interna utilizada na formulação de estratégias preventivas. A Seeduc realiza ações pedagógicas de conscientização, escuta ativa e diálogo com os alunos, trabalhando para que a cultura de paz esteja sempre presente dentro e fora dos muros das escolas”, diz a nota.

Questionada se os alunos foram punidos ou mesmo expulsos, a pasta não deu um retorno até o fechamento desta reportagem.

Já em Botafogo, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) conduz as investigações. Em nota, o Colégio Ph lamentou o ocorrido.

“A direção do Colégio tomou as medidas necessárias. O aluno autor das ofensas não continuará na nossa escola, e os alunos que foram alvo estão sendo acolhidos. Repudiamos qualquer atitude discriminatória. O ocorrido não condiz com os valores e diretrizes adotados pelo colégio, que zela pelo bem-estar e acolhimento de todos os seus alunos. Temos o compromisso com uma cultura antirracista, reafirmando que a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva e igualitária é – e sempre será – uma responsabilidade diária do pH. Entre nossas ações permanentes, estão os projetos de Educação Decolonial Antirracista, o Percurso Antirracismo e Antidiscriminação, que se estende a todas as áreas e segmentos, além de programas estruturantes como as Equipes de Ajuda e o Programa Antibullying.”

Na escola municipal de Cabo Frio, na Região dos Lagos, o caso foi parar na 126ª DP (Cabo Frio). A Polícia Civil informou que o adolescente agressor foi apreendido por ato infracional análogo ao crime de lesão corporal e o caso foi encaminhado à Justiça.

Procurada, a Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio informou que realizou todas as medidas protocolares em relação ao episódio. Leia a nota na íntegra:

“A Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio informa que tomou conhecimento do episódio de violência envolvendo estudantes da escola e que adotou todas as medidas protocolares no sentido de garantir o amplo direito dos adolescentes envolvidos.

A Secretaria de Educação repudia qualquer tipo de violência, dentro e fora do ambiente escolar e, em articulação com outras instituições públicas, viabiliza atendimento médico e psicológico para os alunos e familiares envolvidos, além de estratégias para a prevenção da violência nas suas mais diferentes formas”.

E agora?

Seja em pichações, provocações racistas ou mensagens de ódio na internet, o consenso entre os especialistas da área é que os casos reforçam a urgência de medidas estruturais.

“A cultura escolar deve estimular as discussões sobre racismo e homofobia, através de diferentes metodologias. Deve punir, conforme o caso, violências. Assim, nas salas de aula, independentemente da disciplina que se pretenda ensinar, cabem os conteúdos que se referem à educação em Direitos Humanos. Não é um dia, uma palestra, um seminário, mas mais do que isso um compromisso político pedagógico assumido pelas escolas e seus sujeitos”, enfatiza a professora Daniela Drelich.

Andressa concorda e levanta ainda outros pontos: “A empatia se desenvolve quando eu consigo compreender a experiência do outro. Atividades que envolvam contato com diferentes histórias e culturas ajudam nesse processo. Além disso, trabalhar com práticas de autorregulação emocional, como técnicas de respiração, meditação guiada ou rodas de conversa, permite que os alunos aprendam a lidar melhor com suas próprias emoções”.

“Cada vez mais, temos esse desafio de fazer prolongar a educação digital. É preciso ensinar para as crianças os que significam diferenças de conteúdo na internet, como funcionam os algoritmos, como denunciar, quais são as consequências para quem cometer violência na internet etc. Tudo isso é fundamental para que as escolas também apliquem essas medidas no currículo”, detalha Nejm.

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