O fortalecimento de discursos de ódio e seus impactos diretos na vida da população LGBTI+ dominou as discussões do seminário “Movimentos Sociais LGBTI+ e Democracia: Construindo Novos Presentes”, realizado ao longo de dois dias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Pesquisadores, ativistas e representantes de instituições públicas apresentaram diagnósticos, experiências e caminhos para ampliar a proteção de direitos no Brasil e na Argentina. O evento foi organizado pela Comissão do Cumpra-se
O deputado Carlos Minc (PSB, presidente colegiado, ressaltou a importância da troca de experiências entre os países e lembrou iniciativas como o programa Rio Sem LGBTFobia, considerado referência no atendimento à população.
“É importante para os movimentos se conectarem mais e aprenderem uns com os outros. Como por exemplo, aqui no nosso estado, temos o Programa ‘Rio Sem LGBTFobia’, que é um programa de referência”, disse.
A força do discurso de ódio
O antropólogo Sérgio Carrara, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), destacou que o discurso de ódio se tornou um dos principais desafios enfrentados pelos movimentos LGBTI+. Pesquisador sobre o tema, ele ressaltou o impacto dessa violência nas instituições brasileiras.
Carrara explicou que seus estudos sobre violência letal contra pessoas LGBTI+ nasceram em um período em que o assunto ainda não era tipificado como crime. Ele descreveu que a estratégia de reunir reportagens e buscar processos ajudou a mostrar a dimensão do problema.
Ao comentar o cenário atual, afirmou que existe um tipo de discurso que insiste em afirmar que pessoas LGBTI+ não deveriam existir, acusando o movimento de destruir famílias e ameaçar crianças. Para ele, essas narrativas, muitas vezes baseadas em fake news e teorias pseudocientíficas, exigem reação firme.
“Para as pessoas que pregam esses discursos, o movimento LGBTI+ não merece ter direito de existir, porque estão destruindo as famílias e vulnerabilizando as crianças. E esse discurso é mais difícil de combater porque espalham-se muitas fake News. Precisamos desmontar qualquer narrativa que seja falsa”, comentou.
Extremismo e falta de políticas públicas
Integrante do Conselho Nacional dos Direitos Humanos e representante do Grupo Arco-Íris, o advogado Carlos Nicodemos apresentou resultados de um projeto sobre extremismo no Brasil. Ele contou que, desde 2023, lidera uma relatoria especial dedicada a essa questão e já realizou missões em quatro estados.
Nicodemos afirmou que o país ainda não possui uma política nacional para enfrentar discursos de ódio e defendeu que a resposta não pode ficar restrita à área de segurança pública. Segundo ele, cultura e educação têm mais capacidade de promover mudanças profundas e políticas públicas nessas áreas são essenciais para desconstruir o extremismo.
Violências e desigualdades na Argentina
O pesquisador Pascual Scarpino, da Universidad Nacional de Córdoba, apresentou dados recentes sobre a situação na Argentina, mostrando um quadro preocupante. Ele relatou que, em 2025, houve aumento de 70% nos crimes de ódio no país, com a maior parte das vítimas sendo transexuais e mulheres.
Scarpino detalhou ainda desigualdades no mercado de trabalho, onde mais de 30% das pessoas trans afirmam enfrentar tratamento desigual. Na área de saúde, 59% relataram já ter vivido ideação suicida, enquanto discriminação e agressões representam 20% dos relatos em serviços de saúde e 12% em órgãos públicos.
Em espaços públicos, mais de 33% dizem ter sofrido ameaças, zombarias ou agressões. Para o pesquisador, conhecer e identificar essas formas de violência é indispensável para combatê-las.






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