PEC da escala 6×1 abre batalha no Senado e governo ameaça expor votos da oposição

Governistas querem transformar votação em tema do segundo turno, enquanto aliados de Flávio Bolsonaro tentam ganhar tempo para construir alternativa; A sessão começou com 47 senadores presentes e nenhum representante do PL

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O início da discussão da PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 abriu, nesta terça-feira (6), uma nova frente da disputa entre governo e oposição no Congresso, agora diretamente atravessada pelo segundo turno da eleição presidencial. Enquanto governistas ameaçam divulgar e explorar politicamente os votos dos parlamentares contrários à mudança, aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentam retardar o andamento da proposta e ganhar tempo para definir uma estratégia capaz de reduzir o desgaste eleitoral.

A primeira de cinco sessões de discussão necessárias antes da votação da Proposta de Emenda à Constituição começou no Senado em meio a uma tentativa de obstrução. A oposição considera a iniciativa uma medida de caráter eleitoral destinada a favorecer o presidente Lula (PT), enquanto o Palácio do Planalto pretende pressionar os adversários a se posicionarem publicamente sobre um tema de forte apelo entre os trabalhadores.

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, deixou explícita a estratégia governista após reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

“Eu quero ver a turma do Flávio Bolsonaro votar contra. Eu estou pagando pra ver, pra ver essa atitude que eles puderem tomar”, afirmou.

Governo quer levar votação para a campanha

A estratégia também foi verbalizada pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo. Segundo ele, existe disposição da base para votar a PEC, mas os aliados de Flávio Bolsonaro precisam apresentar uma posição.

“Eu estou vindo ao plenário porque, pelo que eu percebo, o pessoal da oposição, ou seja, os torcedores do candidato Flávio Bolsonaro, não estão dando presença na tentativa de inviabilizar o debate do fim do trabalho aos sábados”, disse Wagner. “O candidato terá que mostrar a cara e dizer que é contra.”

A PEC já havia passado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em setembro. Na ocasião, parlamentares próximos a Flávio, entre eles o coordenador de sua campanha presidencial, Rogério Marinho (PL-RN), posicionaram-se contra o texto.

Desde então, governistas acusam a oposição de bloquear o avanço da matéria. A avaliação política é que uma votação antes do segundo turno permitiria à campanha de Lula explorar nominalmente o posicionamento de senadores ligados ao adversário.

Segundo Guimarães, Alcolumbre se comprometeu a colocar a matéria em votação antes do segundo turno. Integrantes da base, entretanto, reconhecem que não há garantia de aprovação. “Vamos tentar”, afirmou a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE).

Oposição obstrui e busca alternativa

Do outro lado, senadores de oposição iniciaram uma operação para ganhar tempo. A orientação nesta terça foi dificultar a formação de quórum, impedindo ou retardando o cumprimento das etapas necessárias para levar a PEC à votação.

A sessão começou com 47 senadores presentes e nenhum representante do PL. Posteriormente, Efraim Filho (PL-PB) foi o primeiro integrante do partido a registrar presença.

A resistência, porém, envolve um cálculo político delicado. Parlamentares da oposição reconhecem a popularidade da redução da jornada e avaliam que uma rejeição pura e simples ao texto poderia produzir desgaste no segundo turno. Por isso, novas reuniões devem definir a estratégia definitiva da bancada.

Uma das possibilidades é concentrar esforços em uma proposta alternativa, evitando que a disputa seja apresentada apenas como um confronto entre quem é favorável ou contrário ao fim da escala 6×1.

Flávio defende negociação da jornada

Flávio Bolsonaro voltou nesta terça-feira a defender a alternativa apresentada por Rogério Marinho. O texto permite redução da jornada acompanhada de redução proporcional do salário, desde que exista acordo entre trabalhador e empregador.

“Eu tenho uma proposta infinitamente melhor que é dar liberdade para o trabalhador negociar sua carga horária. Vamos dar essa liberdade para que o trabalhador monte a sua jornada conforme as suas possibilidades”, afirmou o candidato do PL.

A disputa ocorre em um momento de transformação da correlação de forças no Congresso. O resultado das eleições fortaleceu a direita no Senado que assumirá em 2027, mas a atual composição da Casa ainda será responsável por decidir se a PEC avançará antes do segundo turno.

Com isso, uma discussão originalmente centrada na legislação trabalhista passa também a funcionar como teste político para Lula e Flávio Bolsonaro. O governo quer colocar os adversários diante de uma votação potencialmente desgastante; a oposição busca evitar essa armadilha e apresentar ao eleitorado uma alternativa própria para a jornada de trabalho.

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