PAULO BAÍA: “A intolerância política na internet e a urgência de superação da polarização calcificadora na sociedade brasileira”

“Esse ambiente de antagonismos irreconciliáveis gera um tipo de ativismo convicto de suas próprias certezas, que não admite dúvidas, contrapontos ou ambiguidades”, escreve o cienstista politico.

* Paulo Baía

A intolerância política é, hoje, um dos sintomas mais alarmantes da crise democrática que atravessa a sociedade brasileira. Desde a intensificação dos conflitos políticos no país, a partir da segunda década do século XXI, o debate público passou a ser dominado por uma lógica de polarização emocional, alimentada por discursos extremados, deslegitimadores e incapazes de reconhecer a legitimidade do outro. Nesse cenário, as redes sociais se tornaram ambientes propícios à radicalização, substituindo o diálogo por slogans, e a escuta por reações impulsivas. A internet, nesse processo, não apenas espelha as fissuras políticas e sociais, mas também age como amplificadora de afetos negativos que “calcificam” as relações sociais e corroem a possibilidade da convivência democrática.

Essa calcificação das relações sociais se manifesta na consolidação de dois campos antagônicos, que se veem como únicos porta-vozes legítimos de toda a população. Cada lado constrói para si uma narrativa autojustificadora, onde todas as virtudes residem em seu campo e todos os defeitos, no campo oposto. Essa visão binária dificulta o reconhecimento da pluralidade de perspectivas que caracteriza uma sociedade complexa e diversa como a brasileira. O que se observa, em consequência, é a substituição da política como espaço de mediação e negociação por uma arena de confronto existencial, em que os adversários deixam de ser interlocutores legítimos e passam a ser inimigos a serem eliminados simbolicamente — e, por vezes, fisicamente.

Esse ambiente de antagonismos irreconciliáveis gera um tipo de ativismo convicto de suas próprias certezas, que não admite dúvidas, contrapontos ou ambiguidades. A política se converte em um campo moralizante, onde cada grupo se arroga o monopólio da verdade, da justiça e da virtude. Nesse modelo, emoções políticas complexas como o cuidado, a compaixão ou a escuta se tornam quase impossíveis de serem expressas, pois são vistas como sinais de fraqueza ou traição à causa. A intolerância cresce como consequência natural dessa dinâmica, afetando não apenas o debate público, mas também a saúde mental da população, que se vê submetida a uma constante atmosfera de tensão, medo e ressentimento.

As lideranças políticas, longe de conter essa escalada, muitas vezes a incentivam, pois sabem que o engajamento emocional — mesmo que negativo — é um instrumento poderoso de mobilização. O medo do outro, a raiva diante da diferença e a crença de que o adversário representa uma ameaça existencial alimentam campanhas políticas e estratégias de poder. Não se trata apenas de disputa por votos, mas de construção de identidades políticas fechadas, que se fundamentam na exclusão do diferente e na reafirmação constante de uma suposta superioridade moral. O resultado disso é a transformação dos manuais de comunicação política em verdadeiros “manuais de combate existencial”, onde a linguagem serve menos para argumentar e mais para atacar, desmoralizar e destruir.

Nesse contexto, torna-se urgente enfrentar com coragem e responsabilidade o processo de polarização que endurece mentes e sentimentos, e que estabelece “verdades” sem reflexão crítica ou estudo aprofundado. A política, para cumprir seu papel civilizatório, deve ser um espaço de aprendizado mútuo e não de doutrinação. É preciso reconhecer que há outras visões de mundo possíveis, outras experiências legítimas de existência, e que o desacordo faz parte da vida democrática. Isso implica abandonar a arrogância intelectual e afetiva, que acredita possuir todas as respostas e que recusa qualquer possibilidade de escuta ou revisão de suas próprias certezas.

A intolerância política na internet é a expressão mais visível desse processo, pois ali a agressividade encontra terreno fértil para se manifestar sem freios. As redes sociais, organizadas por algoritmos que favorecem o engajamento emocional e a viralização de conteúdos polarizadores, criam bolhas informacionais onde se reforçam preconceitos, se produzem desinformações e se alimenta o ódio. O anonimato e a despersonalização das interações online contribuem para a intensificação das violências simbólicas, que frequentemente transbordam para o mundo offline. Casos de agressões físicas, ameaças, cancelamentos e até homicídios motivados por divergências políticas vêm se tornando mais comuns, e não podem ser naturalizados.

Esse ambiente de hostilidade constante corrói as bases da democracia, pois inviabiliza a formação de consensos mínimos e destrói as condições para a deliberação pública. A política, que deveria ser espaço de construção coletiva, passa a ser percebida como guerra permanente, onde só pode haver vencedores e vencidos. A ideia de bem comum é substituída por estratégias de sobrevivência discursiva e territorial. A consequência disso é o enfraquecimento das instituições, o descrédito nos processos eleitorais e o aumento da violência política. A democracia, quando submetida a essa lógica, deixa de ser um regime de convivência com a diferença e se aproxima perigosamente da tirania das maiorias.

O Brasil vive hoje essa encruzilhada. Ou se reconstrói um ethos político fundado na tolerância, na escuta ativa e no respeito à pluralidade, ou estaremos condenados a uma escalada contínua de conflitos, ressentimentos e rupturas. Isso exige, antes de tudo, uma revalorização da paz cotidiana. A convivência democrática não se constrói apenas nas urnas ou nos tribunais, mas no dia-a-dia das interações sociais, familiares, comunitárias e digitais. Precisamos reaprender a conviver com a divergência, sem que ela se transforme em motivo de ódio ou desprezo. Precisamos incorporar a ideia de que o outro, mesmo quando pensa diferente, é parte integrante do mesmo corpo social e merece consideração.

As emoções políticas precisam ser reconectadas com práticas de cuidado, empatia e responsabilidade. Isso significa construir uma pedagogia da escuta e da convivência, que ensine a lidar com a diferença como algo constitutivo da vida pública e não como ameaça. Também é necessário investir em educação midiática e literacia digital, para que os cidadãos sejam capazes de discernir entre discurso legítimo e manipulação emocional, entre crítica política e incitação ao ódio. Os meios de comunicação e as plataformas digitais têm responsabilidade nesse processo, devendo promover ambientes mais seguros, plurais e respeitosos.

Abandonar a arrogância é, portanto, um gesto de maturidade democrática. É reconhecer que nenhuma posição é absoluta, que todos os lados podem aprender com os outros, e que a construção de um país mais justo e democrático passa pela valorização do diálogo e da escuta. A superação da polarização calcificadora não será um processo simples, mas é um caminho necessário. Precisamos substituir os “manuais de combate existencial” por manuais de convivência democrática, onde a política seja compreendida como espaço de encontros possíveis, de divergências produtivas e de construção coletiva do futuro.

Se quisermos preservar a democracia como forma de vida, precisamos urgentemente recuperar a capacidade de conviver com a diferença. Precisamos de paz, tolerância e escuta no dia-a-dia.

Precisamos abrir espaço para novos sentimentos e emoções políticas que reflitam a diversidade e a complexidade do povo brasileiro. E, acima de tudo, precisamos reaprender que a política não é a arte de destruir o outro, mas a arte de viver juntos.

* Sociólogo, cientista social e professor da UFRJ

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