Paes não conseguiu brilhar mas não perdeu um voto sequer no debate da Band

É sabido que, em debates eleitorais, o que importa não é exatamente o êxito da apresentação, mas sim a capacidade de resiliência ante a ataques.

RICARDO BRUNO

Não houve brilho, mas o prefeito Eduardo Paes manteve incólume seu patrimônio eleitoral. Alvo de todos os demais postulantes, o candidato à reeleição, conseguiu, no limite do possível, defender o legado de sua gestão, responder aos questionamentos administrativos e se esquivar das provocações. Experiente, não caiu nas armadilhas dos adversários, que, a todo momento, tentaram desequilibra-lo com golpes retóricos de natureza teatral.

É sabido que, em debates eleitorais, o que importa não é exatamente o êxito da apresentação, mas sim a capacidade de resiliência ante a ataques. Candidatos que lideram a disputa têm naturalmente dificuldade de performar com lustro. Os adversários não lhe dão espaço, tentando emparedá-lo em questões que supostamente poderiam gerar desgaste. A despeito de deter muito mais conhecimento sobre os problemas da cidade do que os concorrentes, por isso não conseguiu se sobrepor com exuberância.

Quando pode, o alcaide trouxe o debate para administração, terreno que domina com maestria em oposição aos demais, especialmente o candidato bolsonarista Alexandre Ramagem, seu principal concorrente. Debates no primeiro turno não permitem muitos  confrontos entre os dois principais postulantes de eleições polarizadas como a do Rio. Foram apenas dois momentos.

No primeiro bloco, Paes conseguiu escapar das críticas de que pouco fez em favor da segurança pública. Lembrou a proximidade entre Ramagem e o governador Cláudio Castro, principal responsável pela política de segurança no estado. Disse que há politização na área com  indicação de deputados  para cargos de comando.  De quebra, vinculou o delegado ao ex-governador Wilson Witzel, afastado por corrupção.  No segundo bloco, novamente ficaram tête-à-tête por iniciativa de Ramagem, que lhe dirigiu pergunta sobre falta de vagas em creches.

 Foram  momentos importantes porque permitiram o cotejo entre os dois que podem eventualmente ir ao segundo turno. Nestas ocasiões, houve oportunidade de comparação, através da qual eventualmente se formará juízo definidor do voto.

Com esgares e trejeitos que traíram o nervosismo diante das câmeras, Ramagem fez o dever de casa. Se preparou sobre temas administrativos, não ficando restrito à pauta de segurança. Percebeu-se claramente que foi instruído para tentar surpreender em outros terrenos. Como pouco se esperava dele em temas sobre a máquina administrativa, mostrou preparo, por exemplo,  ao apresentar os valores dispendidos  em  cargos de livre nomeação comparados aos  recursos necessários para abrir vagas em creches – informação nitidamente resultante de estudo prévio.

Do ponto de vista da imagem, numa abstração do conteúdo, como se o aparelho de televisão estivesse com o som desligado, Ramagem projetou uma fotografia ruim. Semblante carregado, sempre sério, olhos fixos quase sempre fora da câmera, mostrou-se pouco à vontade. Era como não estivesse em seu habitat natural, em comparação aos demais – todos escolados em refregas eleitorais anteriores e no pinga fogo do parlamento. Neste particular, Rodrigo Amorim o superou deixando para trás o principal nome da direita. O coadjuvante foi mais natural em suas imprecações ideológicas.

Outro a apresentar bom desempenho foi Marcelo Queiroz. Mostrou conhecimento espontâneo sobre a máquina. Discorreu com naturalidade sobre temas da administração revelando deter boa carga de informação,  sobre a meandros da gestão municipal, adquirida certamente como vereador e como secretário de Eduardo Paes e de Marcelo Crivella. Seguro, não parecia repetir decorebas preparadas por assessor. Com poucas chances eleitorais, se mostrou preparado.

Com verve e capacidade retórica reconhecidas, Tarcísio iMotta tentou se firmar como o único candidato da esquerda, trazendo Lula para o debate em confronto com os bolsonaristas Ramagem e Amorim. A ele interessava o embate puramente ideológico. Por isso, se alongou em duelos com Rodrigo Amorim. Desejava passar a ideia de que era o único a se opor visceralmente ao bolsonarismo na captura da fração de eleitores puramente ideológicos.

Amorim foi Amorim. Conservador, radical, incisivo e teatral. Se impôs como o nome da extrema direita, de olho certamente nos votos de Daniel Silveira e outros  imponderados. Com teto, é possível que cresça se firmando como o nome mais radical da direita fluminense. Não por acaso, confrontou o quanto pode o psolista Tarcísio Motta. A iniciativa não era exatamente de quem mira de fato a prefeitura do Rio mas sim de quem tenta se consolidar no nicho dos ideologicamente extremados.

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