* Paulo Baía
O Brasil acorda todos os dias sob o manto do medo. No calor das madrugadas urbanas, o medo não dorme, ronda. É o ar invisível que circula entre as vielas, os becos, os túneis, as avenidas largas e as favelas amontoadas sobre os morros. O medo é o paradigma da população, o eixo invisível que estrutura a vida cotidiana. Ele define o gesto, o olhar, a pressa, o trajeto e até o silêncio. No Rio de Janeiro, ele se tornou uma gramática, um idioma que todos sabem conjugar sem jamais tê-lo aprendido. Como disse o jornalista e escritor Fernando Molica, os verbos parecem estar cansados. E é verdade. No Rio de Janeiro, até as palavras se exaurem de tanto anunciar o que nunca muda.
Há décadas o Estado e a cidade do Rio de Janeiro vivem sob a ilusão de que é possível reinventar a segurança pública sem enfrentar as suas entranhas. A cada governo, um novo slogan. A cada promessa, um novo fracasso. As fardas mudam de cor, os comandos se alternam, as siglas se multiplicam, mas o medo permanece, sólido, estável, cotidiano. Há quem diga que o Rio é laboratório do Brasil. Talvez seja. Mas é um laboratório em que o experimento não muda o resultado: o medo continua sendo o reagente principal.
Houve tempos em que a esperança tinha nome e rosto. Leonel Brizola acreditava que a segurança se construía com escolas e dignidade. Garotinho falava de um Estado mais humano e de proximidade com o povo. Ambos tiveram boas ideias, discursos vigorosos, compromissos com a civilidade e a justiça social. Mas lhes faltou o essencial: uma política de governo, de Estado, de continuidade. Tinham bons nomes, mas não uma estrutura. O coronel Nazaré Cerqueira, o coronel Jorge da Silva e o jurista e professor Nilo Batista foram vozes lúcidas em meio ao ruído das armas. Eram intelectuais e gestores de espírito público, homens que pensavam a segurança como um fenômeno social, e não apenas policial. Mas estavam isolados, como ilhas em um arquipélago de improvisos, distantes do cotidiano concreto das polícias Militar, Civil e Penal. Suas ideias não se transformaram em políticas, seus projetos não se consolidaram em instituições.
Sérgio Cabral foi o único governador que ousou enfrentar essa lógica de forma pragmática, com método, técnica e articulação entre inteligência e operação. Com ele, a política de segurança pública tornou-se um projeto real, com metas, indicadores, planejamento e resultados visíveis. A criação das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, representou um momento singular. Durante algum tempo, o medo pareceu recuar. A esperança retornou aos becos, os jovens voltaram a brincar nas ruas, o turismo floresceu, o Estado experimentou uma breve sensação de civilidade. Cabral, com todos os seus equívocos e contradições, foi o único a compreender que a segurança pública exige uma política de Estado e não apenas de governo.
Mas o tempo, esse algoz da utopia, mostrou também as fissuras do modelo, a corrosão da política pela corrupção, a degradação das intenções. O projeto se esvaiu como areia escorrendo entre os dedos. A cidade voltou a sentir o cerco, a bala perdida retomou seu posto de protagonista trágico, as favelas foram novamente transformadas em territórios de exceção. E o medo voltou a ocupar o seu trono.
Hoje, sob o governo de Cláudio Castro, o Rio repete o seu velho roteiro. O governador, herdeiro simbólico de um ciclo que remonta a Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Chagas Freitas, Faria Lima, Moreira Franco, Marcelo Alencar, Rosinha e tantos outros, encena o mesmo drama da improvisação e da ausência de horizonte. Cada um desses nomes representou, em seu tempo, a tentativa de administrar o caos com o verniz da autoridade. Alguns com técnica, outros com carisma, outros ainda com populismo ou violência. Mas todos, em alguma medida, sucumbiram ao mesmo impasse: a incapacidade de transformar o medo em política pública e o controle em cidadania.
A frase de Fernando Molica, “os verbos parecem estar cansados”, ecoa como um epitáfio sobre a história recente do Rio. Cansados estão os verbos que prometem, que anunciam, que decretam. Cansadas estão as palavras que justificam o inaceitável, que disfarçam o fracasso, que tentam dar sentido ao que não tem solução. O verbo “pacificar” morreu de overdose semântica. O verbo “combater” envelheceu em discursos. O verbo “proteger” foi sequestrado pelos que fazem da violência uma forma de poder. E o verbo “governar” perdeu a carne, o corpo, a alma.
O medo é o sujeito oculto de todas as orações políticas do Rio. Ele se conjuga com o verbo sobreviver. É ele que faz o trabalhador olhar para os lados antes de atravessar a rua, a mãe verificar a mochila do filho antes da escola, o jovem escolher o caminho mais longo para evitar o confronto. A cidade aprendeu a conviver com a tensão como quem se adapta à dor crônica. O medo se tornou uma estética, uma economia, uma moral. O medo pauta o comportamento, as campanhas eleitorais, os investimentos, os noticiários, as conversas. No Rio, o medo é tão natural quanto o mar. Mas, ao contrário do mar, não tem horizonte.
Há investimento em inteligência, é verdade, mas trata-se de uma inteligência policial que serve apenas às práticas do mais do mesmo. São informações para as operações da mesmice. É uma inteligência que repete, que mapeia, que arquiva e reconstrói, mas que não transforma. É uma máquina que se move, mas não avança. O aparato de coleta de dados, de vigilância e de monitoramento se sofisticou, mas continua a serviço de uma lógica que não se questiona. Inteligência sem reflexão é apenas técnica. E a técnica, sem ética, é instrumento da repetição. Assim, o que se chama de inteligência no contexto da segurança pública do Rio é apenas o prolongamento digital do velho hábito de reprimir. Uma inteligência que não pensa o porquê das coisas, mas apenas o como.
A política de segurança pública no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, perdeu a capacidade de pensar o longo prazo. O Estado vive sob o império do improviso e da violência como política. Cada operação é um espetáculo de guerra, cada balanço é uma contabilidade de corpos. A sociedade, exausta, acostumou-se a medir a eficiência pelo número de mortos. O medo se institucionalizou, transformou-se em política de Estado. E o mais grave é que, ao mesmo tempo em que se proclama o avanço tecnológico das forças policiais, continua-se incapaz de prevenir o crime, de compreender suas causas, de reconstruir o tecido social.
Enquanto isso, o verbo “esperar” se mistura ao verbo “resistir”. O Rio ainda pulsa, ainda canta, ainda cria. Porque o medo, mesmo sendo paradigma, não é totalidade. Há sempre quem sonhe, quem lute, quem insista em acreditar que é possível uma cidade sem medo. Mas esses sonhadores estão cansados. Como os verbos. Como as promessas. Como os discursos.
O que se vê é um Estado que mantém a aparência da força, mas vive de joelhos diante da complexidade que não entende. A violência não é apenas um fato, é uma estrutura, um sistema que produz lucros, votos, narrativas e poder. O medo é um mercado. O medo é um discurso. O medo é um instrumento. E os governos, em sucessão, aprenderam a manejá-lo com maestria. O governador Cláudio Castro, como antes Marcelo Alencar, Moreira Franco, Rosinha, Chagas Freitas e Carlos Lacerda, transforma a segurança em palco e o medo em política. O ciclo se repete, como uma ladainha que já não espanta ninguém.
A crônica da segurança pública no Rio é também a crônica da alma brasileira. Um país que se acostumou a viver com a ausência de Estado, com a indiferença diante da tragédia, com a estética da violência como espetáculo. O medo é o fio invisível que costura o tecido social e político da nação. No Rio, ele é o espelho onde o Brasil se reconhece e se recusa.
Mas há ainda uma centelha, pequena, teimosa, resistente. Há professores, pesquisadores, policiais, mães de vítimas, coletivos de bairro, líderes comunitários que não desistiram. São as vozes que não aparecem nos noticiários, que não empunham armas, mas empunham palavras, projetos, solidariedade. São eles que lembram que a segurança é uma construção coletiva e não um ato de força.
Os verbos parecem estar cansados, sim, mas há quem continue a escrevê-los. Há quem diga que o medo não é destino, é escolha política. Que a segurança pública não é guerra, é convivência. Que a cidade não é trincheira, é território de vida. Que o Rio, cansado, exausto, ferido, ainda pode reaprender a respirar sem medo.
O verbo viver continua a resistir. O verbo sonhar se recusa a morrer. O verbo reconstruir insiste em nascer todos os dias. Mesmo que os verbos pareçam cansados, há sempre um instante em que a palavra se refaz, em que a esperança volta a se conjugar. Porque enquanto houver vida, haverá verbo. E enquanto houver verbo, haverá a possibilidade de reinventar o Rio. De reinventar o Brasil. De reinventar o sentido da palavra segurança.
* Sociólogo , cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






Deixe um comentário