Entre a estabilidade e o medo: crônica da insegurança e dos humores brasileiros

Levantamento da Quaest revela um país dividido entre esperança e medo, onde a segurança pública supera a economia e redefine o eixo emocional e político do governo Lula

* Paulo Baía

A pesquisa Quaest de novembro de 2025 revela um Brasil que respira sob o mesmo compasso de sempre, mas com o fôlego entrecortado. A popularidade de Lula permanece estável, mas essa estabilidade não é calma, não é paz, não é repouso. É uma estabilidade inquieta, pulsante, feita de oscilações que se movem como marés dentro da margem de erro. São as pequenas variações que dizem muito, os números que se movem um ou dois pontos acima ou abaixo, sinalizando não apenas estatísticas, mas estados de alma. A política no Brasil, mais do que números, é uma sucessão de respirações coletivas, uma alternância de esperança e desconfiança, de crença e temor.

Lula mantém algo em torno de metade do país ao seu lado. É um dado monumental num país de fissuras. A aprovação em 47% e a desaprovação em 50% são quase um empate técnico, mas na alma coletiva não há empates técnicos. Há sentimentos. E o sentimento predominante, como revelam as entrelinhas das pesquisas qualitativas, é o medo. Um medo que já não é apenas econômico, mas físico, cotidiano, existencial. O medo da bala perdida, o medo da ausência do Estado, o medo da injustiça que se torna rotina. A sociedade brasileira vive um enorme sentimento de insegurança, e essa insegurança se tornou o novo centro gravitacional da política.

As pesquisas indicam que o tema da segurança pública ultrapassou a economia como principal preocupação nacional. Isso é mais do que um dado, é um diagnóstico de tempo. A política brasileira, historicamente moldada pelo pão e pela promessa, volta-se agora para a busca da proteção. O Brasil parece querer não apenas viver melhor, mas antes disso, conseguir continuar vivo. A ascensão da pauta da segurança revela um deslocamento profundo da consciência pública: o país que há duas décadas acreditava que o consumo seria o passaporte para a cidadania, agora se refugia no desejo primário de sobreviver.

No coração desse cenário de medo e expectativa, a megaoperação policial conduzida pelo governador Cláudio Castro nos Complexos da Penha e do Alemão agitou o país. Denominada “Operação Contenção”, tornou-se, em poucos dias, o maior e mais letal episódio policial da história recente do Brasil. A palavra “contenção” carrega uma ambiguidade que revela a própria alma do país: conter o quê, conter quem, conter como. De um lado, um Estado que tenta afirmar seu domínio sobre territórios que há décadas o desafiam. De outro, populações que vivem entre o fogo cruzado, reféns da violência do tráfico e da violência do poder.

Os números da operação são brutais, mas igualmente complexos. O impacto público foi imediato. As redes sociais fervilharam entre aplausos e indignações. Instituições se dividiram. O governo federal reagiu com cautela, tentando equilibrar o discurso humanista com a pressão da opinião pública. E as pesquisas seguintes mostraram o resultado dessa colisão simbólica: a aprovação de Lula oscilou negativamente dentro da margem de erro. O dado em si não derruba um governo, mas revela o quanto o sentimento nacional é volátil e o quanto a agenda da segurança pública pode corroer a base simbólica de qualquer governante.

A operação “Contenção” foi aprovada pela maioria da população segundo diferentes levantamentos quantitativos e qualitativos. Essa aprovação popular, paradoxalmente, convive com a consciência da violência e com a dor dos que vivem nos territórios atingidos. É um tipo de consentimento social que mistura desespero e pragmatismo. O povo brasileiro, cansado da sensação de desordem, aceita a brutalidade como último recurso, como quem admite que a democracia ainda não encontrou meios eficazes de proteger a vida sem destruir o corpo social. É a velha contradição latino-americana entre o Estado que mata e o Estado que se omite.

Politicamente, o efeito da operação foi profundo. Cláudio Castro, governador do Rio, ganhou projeção nacional, consolidou-se como figura emblemática da direita fluminense e se transformou, em poucos dias, num nome em torno do qual orbitam discursos de ordem e força. Ele emergiu como expressão de um tempo em que a sociedade, cansada do caos, parece flertar novamente com a ideia de autoridade. A operação foi, nesse sentido, também uma operação de marketing político, de comunicação simbólica, de disputa pela narrativa do poder.

Enquanto isso, Lula, que há décadas encarna a esperança e a compaixão dos setores mais vulneráveis, viu sua popularidade oscilar não por causa da economia, mas por causa do medo. O povo que o apoia ainda o reconhece como o homem do diálogo, mas começa a perguntar se esse diálogo basta para enfrentar o caos das ruas. É nesse ponto que o equilíbrio político se torna frágil, porque o sentimento de segurança ou insegurança não se mede em estatísticas, mas em pulsos e respirações. O cidadão que teme pela vida é um eleitor à beira da exaustão.

A crônica da política brasileira em 2025 é a crônica da instabilidade dentro da estabilidade. Lula continua forte, mas seu poder repousa sobre um terreno que treme. A cada operação policial, a cada manchete de violência, a cada imagem de corpos caídos, o país inteiro repensa o sentido de Estado e de justiça. A aprovação presidencial se move como um pêndulo que balança entre a gratidão e a dúvida. Não há ruptura, mas há tensão.

Estatisticamente, tudo está dentro da margem de erro. Politicamente, nada está dentro da margem de tranquilidade. O Brasil se tornou um país de extremos emocionais: ora amor eufórico, ora medo crônico. A popularidade presidencial é como uma superfície calma que esconde correntes subterrâneas. Um ponto a mais, um ponto a menos, e já se sente o abalo. É o preço de governar um país em que a estatística é também literatura de tragédia.

Sociologicamente, o que se observa é a transformação da agenda pública em espelho das angústias sociais. O crescimento da pauta da segurança pública reflete um Brasil urbano, desigual e cansado. A violência é a linguagem com que a exclusão fala. A operação “Contenção” expôs a ferida aberta que o país teima em cobrir com discursos técnicos e promessas eleitorais. Cada morro cercado, cada casa invadida, cada corpo tombado, é também uma metáfora da política que perdeu o sentido da mediação e da escuta.

E, no entanto, há beleza e tragédia nesse movimento. O Brasil é um país que continua a acreditar, mesmo que a esperança se desfaça todos os dias. A figura de Lula ainda é a tradução dessa esperança, porque representa a memória de tempos em que o Estado parecia um aliado do povo e não apenas um administrador do medo. É essa memória que mantém sua aprovação estável. Mas as sombras da insegurança rondam sua imagem e testam o quanto a narrativa de compaixão resiste diante da brutalidade.

No fundo, a estabilidade da popularidade de Lula não é a estabilidade do consenso, mas a estabilidade do conflito. É a manutenção de um equilíbrio precário entre amor e medo, entre lembrança e expectativa. É o reflexo de um país que quer justiça, mas teme o preço dela. E que, no silêncio das madrugadas, entre o som das sirenes e das estatísticas, pergunta a si mesmo o que é, afinal, segurança.

O Brasil de hoje é um corpo tenso que respira entre a fé e a incerteza. As margens de erro são margens da alma. A estabilidade é apenas o nome técnico da esperança que ainda resiste. E a política, essa crônica interminável de sentimentos coletivos, continua a oscilar, como o coração de um povo que, mesmo cansado, insiste em acreditar que o amanhã pode ser menos violento. Mesmo quando tudo indica o contrário.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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