Os caminhos de mulheres que vivem além da expectativa de ser mãe no Brasil
Reportagem Especial

Os caminhos de mulheres que vivem além da expectativa de ser mãe no Brasil

Entre dúvidas e desejos, país vê crescer o número de mulheres que escolheram outras narrativas para si

Era com uma boneca no colo, um carrinho cor-de-rosa empurrado pelo quintal e panelinhas fervendo de imaginação que conheciam muitas meninas, ainda na primeira infância, a ideia de “ser mãe”. Não como uma possibilidade, mas como destino atrelado ao sexo feminino. O instinto materno, como se diz, era tratado quase como lei biológica. Mas o tempo passa. E com ele vem a pergunta: e se a maternidade não for desejo?

No Brasil de 2022, a taxa de fecundidade atingiu 1,55 filho por mulher, segundo o IBGE, o menor patamar da série histórica, bem abaixo da taxa de reposição populacional (2,1). Desde os anos 1960, quando cada mulher tinha em média seis filhos, essa curva despencou, com uma transformação nos modos da mulher ser e estar no mundo.

“A quebra da expectativa de um ‘destino comum’ para as mulheres permite que elas explorem múltiplos projetos de vida, desafiando ideias antigas sobre o que é ‘ser mulher’. No plano demográfico, a diminuição da taxa de natalidade leva a desafios como o envelhecimento da população e a pressão sobre os sistemas de previdência e saúde pública. Mas, antes de tudo, é uma afirmação de liberdade”, afirma a cientista social Thalita Medina, da Universidade Cidade de São Paulo. 

Fabíola Vanessa e a fila invisível

Fabiola Vanessa é natural de Três Rios, mas mora atualmente em Niterói I Crédito: Arquivo

A assessora de imprensa Fabíola Vanessa, 24 anos, caçula de cinco irmãos, cresceu no Sul Fluminense ouvindo um conselho que a mãe repetia como quem entrega um talismã: “Não case com a pessoa errada. Não tenha filhos com a pessoa errada”. 

“Minha mãe foi mãe sozinha. E ela dizia isso para mim e para minha irmã: que não queria que a gente repetisse o que ela passou. Então, eu cresci com isso na cabeça: se um dia eu fosse ser mãe, teria que ser com a pessoa certa. Mas aí você cresce, entende a sua história e percebe que talvez nem precise ser”, conta Fabíola.

Apesar de não viver cobranças explícitas dentro de casa, ela ainda enfrenta a curiosidade alheia, manifestada pela famosa pergunta: “E aí, quando vai ser você?”. A questão incomoda, especialmente porque a jovem tem aspirações maiores: se estabilizar profissionalmente, morar sozinha, ser dona da própria história.

“As mulheres buscam cada vez mais segurança financeira, emocional e afetiva antes de decidirem ter filhos”, explica a ginecologista, obstetra e sexóloga Maria Carolina Dalboni. “Querem estabilidade para oferecer qualidade de vida, mas também querem conquistar realização no trabalho, cuidar do próprio corpo, viajar. E isso adia a maternidade.”

A recusa e adiamento da maternidade, porém, segue estigmatizada e ultrapassa as questões socioeconômicas e reprodutivas. A religião também influi sobre as decisões de ser ou não, mãe no Brasil. Para muitas, especialmente em meios religiosos, a maternidade segue sendo considerada um propósito divino.

É o que também dizem os números. Segundo os dados do Censo, a menor Taxa de Fecundação Total (TFT) foi a das mulheres Espíritas (1,01) e a segunda menor, a das mulheres da Umbanda e Candomblé (1,25). As mulheres de outras religiões (1,39), sem religião (1,47) e católicas (1,49) tiveram taxas semelhantes e ainda abaixo da média do país (1,55). O único grupo com TFT acima da média foi o das mulheres evangélicas (1,74).

“No plano religioso e político, há embates sobre valores, com religiões que reforçam a maternidade como missão.  Muitas mulheres evangélicas ainda veem a maternidade como um propósito divino. No entanto, outras tradições religiosas têm buscado reinterpretar o papel da mulher de forma mais ampla, como no espiritismo, onde a liberdade de escolha é vista como uma expressão da espiritualidade”, explica Thalita Medina. 

Lina Silva 

Lina Silva e Marcus Silva estão juntos há 9 anos e não pretendem ter filhos I Crédito: Arquivo

A confeiteira autônoma Lina Silva, de 25 anos, era uma menina que cresceu com o desejo de se tornar mãe. Na adolescência, vivia imaginando que tipo de maternidade iria construir, até que se deparou com a consciência e o desejo virou recusa. 

“Eu queria muito ser mãe, muito. E conforme eu fui me tornando adulta, parei e percebi que não é simplesmente só você colocar uma criança no mundo. As coisas estão caminhando para um destino cada vez pior, já existe tanta gente no mundo, e para que eu vou querer colocar uma criança para suprir o meu desejo de ser mãe? Por que eu vou parir mais um ser humano para sofrer? Por questões climáticas, financeiras?”, divide. 

Noiva de Marcus Silva, de 28 anos, para ela, o equilíbrio financeiro se sobrepõe às expectativas maternas, mas não fecha as portas: “Hoje eu já decidi que eu não quero ser mãe, mas se eu chegar numa determinada idade e mudar de ideia e não conseguir engravidar naturalmente, eu adoto”, diz, com simplicidade e certeza. 

Mas nem sempre não querer é uma escolha livre. Para muitas mulheres, a maternidade ainda é imposta, às vezes dentro de casa, outras pela família, algumas pela religião ou pela cultura. É a chamada maternidade compulsória, que se manifesta de forma dolorosa, como observa a pesquisadora e professora de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Bruna Brito:

“Enquanto algumas mulheres adiam ou recusam, outras viveram a maternidade compulsória e sofrem uma sobrecarga que não podem sequer reclamar. Tem que agradecer, achar tudo lindo e maravilhoso. Existe um sofrimento silencioso, porque se você reclama, ouve: ‘Mas você quis’. Nem sempre quis. É aquele ditado: ‘Quem pariu que embale’”, explica.

Romper com esse tradicionalismo também dói, lembra Bruna, ainda mais num país em que demografia, economia e valores familiares se entrelaçam. O Brasil vive sua menor taxa de fecundidade, mas os custos de criar um filho só aumentam. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em maio de 2025 o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.528,56, quase cinco vezes o piso oficial de R$ 1.518,00. E escolher não arcar com esses custos, também revela um sofrimento psíquico.

“Romper com determinadas caixinhas que as mulheres são colocadas causa sofrimento. A posição que você assume, em que ordem, dimensão e como isso vai se manifestar, é da singularidade de cada mulher. O que nós sabemos é que isso causa sofrimento”, resume a pesquisadora.

Relógio biológico

Por outro lado, adiar a maternidade não é só questão de desejo: o corpo também impõe limites. Daí cresce a preocupação com a fertilidade e o peso do relógio biológico. Nesse momento, entram questões de classe. “A tecnologia ajuda a mediar esse conflito, com o congelamento de óvulos, por exemplo. Mas isso é elitizado, quem tem acesso a isso é um nicho pequeno. No SUS, a reprodução assistida só é acessível em casos de infertilidade. Mulheres que não possuem problemas de fertilidade, como as mulheres lésbicas e que querem adiar, não têm esse recurso”, explica Bruna.

Ainda assim, o mercado viu um crescimento nos negócios. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o número de ciclos anuais para congelamento de óvulos em mulheres abaixo dos 35 anos cresceu 49% entre 2020 e 2023. Para quem já passou dessa idade, o aumento foi de 40%. No mesmo período, o número total de óvulos congelados no país quase dobrou, de 56.710 para 111.413.

Segundo a ginecologista e obstetra Priscilla Frauches, a partir dos 35 anos a mulher já tem uma queda tanto da quantidade quanto de qualidade dos óvulos produzidos, o que aumenta a chance de alterações genéticas, perdas gestacionais progressivas e, além disso, a chance de surgirem outras comorbidades. 

“Muitas mulheres que estão abaixo dos seus 35 anos, em torno dos seus 30, 32, 33 anos, e veem que a vida naquele momento ainda não cabe uma maternidade, mas ela é um sonho a ser conquistado, já procuram o congelamento de óvulos de forma preventiva, não por desespero. Isso já mostra que ela já está entendendo como que o corpo dela funciona, querendo entender sua reserva ovariana. É um poder de decisão”, explica Priscilla.

Camila Ferreira  

Para Camila, a escolha por enquanto é a de não ser mãe I Crédito: Arquivo

A professora de Educação Física Camila Ferreira Gopp, de 32 anos, trocou o Rio pela Suíça e admite a pontada de dúvida quando o ponteiro do relógio biológico bate forte:

“Não vou ser hipócrita de dizer que eu não tenho a minha dúvida, porque às vezes ela chega assim, sabe? No pé do ouvido. Fico com medo de me arrepender. Eu já tenho 32 anos e o ponteiro está batendo, vem a pressão, mas aí, eu venho e me pergunto: será que esse medo vai se preencher depois que eu gerar uma vida? Mas, no outro lado da moeda, eu sei que a liberdade também pesa nesse sentido”, expressa.

Ainda assim, para ela, o seu “não agora” é, na verdade, um “sim” para outras formas de cuidado. Segundo a professora, existem dois tipos de mulheres cis. As que sonham com o quartinho dos bebês e as que sonham em viajar o mundo, sem que nenhuma delas seja superior.

“Se eu fosse fazer um paradigma das mulheres que ficam sonhando com os nomes dos filhos e das filhas, eu fico sonhando com os lugares que ainda não estive. Eu amo viajar. Eu amo a minha liberdade. Amo o silêncio. Eu amo a minha noite bem dormida, eu amo dormir. E aí, eu fico pensando que, em vez de gerar uma vida, eu escolhi multiplicar outras coisas: ideias, afetos, arte”, conta. 

E, quem sabe, outras formas de amor possam preencher. “Se esse desejo vier desesperadamente, eu vou achar um jeito. Amo bicho, amo ter bicho, penso até em adotar uma criança se meu relógio biológico parar”, finaliza. 

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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