ONG e Defensoria apontam falhas em câmeras corporais nas 117 mortes da megaoperação no Rio

Human Rights Watch e Defensoria Pública não encontraram registros das mortes nas imagens analisadas; relatório aponta obstruções nos equipamentos e questiona procedimentos da ação na Penha e no Alemão

Adicione a Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

A megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, completou um ano nesta quarta-feira (28) sem que as câmeras corporais analisadas pela organização Human Rights Watch (HRW) registrassem qualquer uma das 117 mortes de pessoas que não eram policiais. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro também chegou à mesma conclusão após ter acesso às gravações.

Para produzir o relatório, a ONG entrevistou 41 testemunhas, familiares de vítimas e autoridades. Também analisou 4.400 horas de gravações de câmeras corporais, nove mil páginas de documentos oficiais, 122 laudos de autópsia, registros judiciais e centenas de vídeos e fotografias.

Segundo a organização, há indícios de uso excessivo da força e de que policiais podem ter matado intencionalmente dezenas das vítimas. O relatório também sugere que a adulteração de imagens de câmeras corporais teria ocorrido em momentos cruciais, durante prisões, tiroteios ou quando policiais entravam nas casas de moradores.

A ação, realizada em 28 de outubro de 2025 e batizada de Operação Contenção, terminou com 122 mortos, incluindo cinco policiais. O balanço sobre as imagens foi apresentado em um relatório que identificou problemas no uso dos equipamentos durante a operação.

Segundo a HRW, a análise encontrou indícios de obstrução e possíveis manipulações das câmeras em momentos relevantes, como tiroteios, prisões e entradas de agentes em residências. O documento também aponta falhas na investigação das mortes e indícios de uso excessivo da força.

Relatório analisou 4,4 mil horas de gravações

A investigação da organização internacional reuniu aproximadamente 4,4 mil horas de imagens registradas pelas câmeras corporais de 527 policiais militares. Os pesquisadores também examinaram laudos de necropsia, documentos do procedimento investigatório do Ministério Público, fotografias e vídeos.

Além da análise documental, a equipe ouviu 41 pessoas, entre testemunhas, familiares de vítimas e autoridades. Mesmo com o volume de material examinado, nenhuma das 117 mortes de pessoas que não eram policiais apareceu nas gravações analisadas pela entidade.

O levantamento também identificou problemas relacionados à cobertura dos equipamentos durante a ação policial, o que compromete o registro de momentos importantes para a apuração dos acontecimentos.

Apenas 23% dos policiais usavam câmeras

De acordo com dados do governo estadual citados no relatório, somente 23% dos cerca de 2,5 mil policiais que participaram da megaoperação utilizavam câmeras corporais.

A HRW apontou ainda que, em 36% dos momentos em que disparos foram registrados pelas câmeras dos agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), as lentes estavam obstruídas.

Os dados levantam questionamentos sobre a capacidade dos equipamentos de documentar a atuação policial durante a operação. A ausência de registros das mortes nas imagens examinadas também dificulta a reconstituição desses episódios a partir das gravações corporais.

Moradores da Penha relatam falta de mudanças

Um ano depois da operação, moradores da Penha afirmam que a ação não trouxe mudanças concretas para a rotina da comunidade. Segundo os relatos reunidos pela reportagem, a presença do tráfico e a falta de melhorias nos serviços públicos continuam entre as preocupações da população.

Um dos moradores afirmou que a repercussão da megaoperação não foi acompanhada por transformações duradouras na comunidade. Ele também relatou a percepção de que os moradores passaram a ser vistos de forma negativa após a ação.

“Fizeram esse alvoroço todo pra depois, no outro dia, tá a mesma coisa. Eles tão aí. E nós tamo aqui. Sabe? Vivendo, tentando”, disse.

Outro morador afirmou que, depois da operação, não foram apresentadas iniciativas do poder público para melhorar as condições de vida na comunidade, especialmente na área da educação.

Operação terminou com 122 mortos

A Operação Contenção foi realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão. O objetivo anunciado pelas forças de segurança era cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho.

Ao todo, 122 pessoas morreram durante a ação: 117 que não eram policiais e cinco agentes de segurança. O principal alvo da operação, Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, não foi preso.

O relatório divulgado pela Human Rights Watch no aniversário de um ano da operação concentra-se nas falhas identificadas nas gravações, na obstrução de câmeras e nas dificuldades para documentar as mortes. As conclusões também reforçam os questionamentos sobre a investigação dos episódios ocorridos durante a ação policial.

Relacionadas

Deixe um comentário