O Rio de Janeiro de 2026: quando as máquinas envelhecem e a política volta a surpreender

O Estado do Rio de Janeiro se aproxima das eleições gerais de outubro de 2026 vivendo um daqueles momentos em que a política parece andar mais rápido do que os seus próprios personagens

Existe uma certa angústia no ar. Não é medo. Também não é exatamente pessimismo. É a sensação de que alguma coisa terminou antes do previsto e de que ninguém sabe ao certo o que nascerá das ruínas.

O Estado do Rio de Janeiro se aproxima das eleições gerais de outubro de 2026 vivendo um daqueles momentos em que a política parece andar mais rápido do que os seus próprios personagens. Há ciclos que se encerram por derrota eleitoral. Outros terminam pelo desgaste natural do tempo. No Rio de Janeiro, entretanto, alguns ciclos acabam de maneira mais dramática. Acabam aos pedaços.

A engrenagem política e eleitoral que funcionava a partir da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro já não é a mesma. Prisões, operações de busca e apreensão, cassações de mandatos e o esvaziamento das antigas estruturas de poder desmontaram uma máquina que, durante anos, foi decisiva na organização das disputas municipais e estaduais. As engrenagens continuam ali. Mas perderam força, prestígio e capacidade de produzir consensos.

A inelegibilidade do governador Cláudio Castro produziu um impacto maior do que muitos imaginavam. Não apenas pela desistência de concorrer ao Senado Federal. O que entrou em declínio foi um arranjo político inteiro, uma forma de exercer o poder e de distribuir influência.

O PL mantém o comando da Alerj sob a presidência de Douglas Ruas. O partido de Flávio Bolsonaro conserva posições institucionais importantes. Mas a política ensina, repetidas vezes, que ocupar cargos não significa necessariamente produzir liderança. A máquina que antes impulsionava candidaturas perdeu combustível. E candidaturas sem energia política tendem a permanecer no mesmo lugar. Não avançam. Não criam entusiasmo. Apenas aguardam.

Enquanto isso, uma situação absolutamente inusitada se consolidou. Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, transformou-se em governador interino e deverá permanecer no cargo até dezembro de 2026. Independentemente das discussões jurídicas sobre o mérito dessa interinidade, é impossível ignorar um fato político: a maioria da opinião pública parece ter acolhido essa solução excepcional com relativa tranquilidade.

Talvez porque a sociedade esteja cansada de crises. Talvez porque exista uma demanda por estabilidade. Talvez porque, em determinados momentos, as pessoas passem a valorizar menos a retórica e mais a previsibilidade. O certo é que Ricardo Couto, vindo do Poder Judiciário, acabou se convertendo em personagem central de uma conjuntura que ninguém imaginava há poucos meses.

Nesse cenário, Eduardo Paes vai consolidando sua posição como favorito ao governo do Estado pelo PSD. Sua vantagem é visível. Sua presença política é consistente. Mas liderança não significa inevitabilidade. A história eleitoral fluminense recomenda prudência aos que acreditam em vitórias antecipadas.

É justamente aí que merece atenção o movimento de Anthony Garotinho, do Republicanos. Há quem olhe para Garotinho como uma figura pertencente exclusivamente ao passado. A sociologia política, contudo, costuma ser menos apressada. Os personagens podem envelhecer, mas os sentimentos sociais que os sustentam nem sempre desaparecem.

Em tempos de desorganização das elites e de enfraquecimento das máquinas tradicionais, nomes conhecidos voltam a circular, recuperam espaços e reaprendem a conversar com parcelas do eleitorado.

Garotinho representa uma curiosa mistura entre memória e permanência. É uma presença que atravessa gerações da política fluminense. E sua campanha, sobretudo ao longo do mês de maio e no início de junho, vem demonstrando regularidade, disciplina e capacidade de ocupar espaços deixados vagos pelos adversários.

A política raramente aceita o vazio. Quando um campo perde vitalidade, outro se movimenta. E é exatamente isso que começa a acontecer.
Não me surpreenderia se Anthony Garotinho terminasse por disputar o segundo lugar com Eduardo Paes. Não porque o ex-governador represente uma novidade. Ao contrário. Justamente porque, em determinadas conjunturas, a familiaridade se transforma em ativo político.

Eduardo Paes lidera a corrida. Mas não parece caminhar para uma vitória em primeiro turno. Rosinha Garotinho, em 2002, e Cláudio Castro, em 2022, conseguiram realizar essa façanha em circunstâncias muito particulares. O quadro atual é mais fragmentado, mais imprevisível e mais sujeito às turbulências produzidas pela própria decomposição do sistema político estadual.

A verdade é que as eleições de 2026 começam com uma característica singular. Não existe uma grande máquina hegemônica organizando a sucessão estadual. Existe um vazio. E vazios, em política, nunca permanecem vazios por muito tempo.

O Rio de Janeiro volta a ser aquilo que sempre foi em sua história republicana: um laboratório das surpresas.

Quando as máquinas envelhecem, quando os acordos se desfazem e quando as certezas desaparecem, a política reaprende a arte de produzir o inesperado. E o inesperado, entre nós, costuma ser menos uma exceção e mais uma tradição.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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