O incômodo do real: uma resenha de O País Dividido, de Jairo Nicolau

Análise destaca como obra de Jairo Nicolau desafia certezas ideológicas e reconstrói, com base em dados e evidências, o processo histórico que levou à polarização política no Brasil

* Paulo Baía

A leitura do livro O País dividido, de Jairo Nicolau, é uma leitura para quem deseja conhecer a realidade política e eleitoral brasileira para além das certezas militantes de todos os lados. Trata-se de uma obra que não oferece abrigo confortável, não concede indulgência às convicções prévias, não dialoga com o desejo de confirmação que atravessa o debate público contemporâneo. É, antes de tudo, um exercício de exposição. Um desvelamento. Um enfrentamento direto com o incômodo do real social e político sem máscaras, sem floreios, sem maquiagem de disfarces. Um livro que recusa as frases prontas, que escapa das simplificações e que se afasta deliberadamente das platitudes que organizam boa parte das narrativas ideológicas correntes. Jairo Nicolau não escreve para convencer os convencidos. Escreve para quem não quer se iludir.

E talvez resida aí uma de suas maiores virtudes e, ao mesmo tempo, uma de suas maiores tensões. Porque a leitura de O País Dividido pode provocar um tipo específico de desconforto, quase um deslocamento íntimo, em todos aqueles que se habituaram a interpretar a política por meio de certezas rígidas. Não há concessão. Não há complacência. Há método. Há rigor. Há dados. Há um trabalho de fôlego estatístico e sociológico que se inscreve com precisão na tradição mais exigente da sociologia política e eleitoral brasileira.

Trata-se de uma obra que não quer agradar. Quer explicar.

O ponto de partida do livro é uma recusa intelectual decisiva. Jairo Nicolau rejeita, de maneira sistemática, a ideia de que o Brasil sempre foi um país polarizado. Essa recusa não é apenas retórica, nem um gesto argumentativo superficial. Ela organiza toda a arquitetura do livro. Ao negar a naturalização da polarização, Jairo Nicolau transforma o fenômeno em problema analítico. Se o país está dividido, é necessário compreender como essa divisão se construiu. Se ela se consolidou, é preciso identificar seus mecanismos. Se ela se expressa eleitoralmente, ela pode ser medida, comparada, interpretada.

A eleição, nesse contexto, deixa de ser um evento episódico e assume a condição de ferramenta metodológica. Uma lente. Um dispositivo de leitura da sociedade.

Não se trata apenas de observar resultados. Trata-se de interpretar padrões.

O recorte temporal escolhido, que vai de 2002 a 2022, revela a ambição da obra. Não é um intervalo qualquer. É um período que acompanha a ascensão de um ciclo político, sua consolidação, sua crise e sua transformação em outra configuração. É o tempo em que o Brasil passa de um sistema relativamente fluido para um cenário de divisão estruturada. Jairo Nicolau não se move por impressões. Move-se por evidências. Mapas eleitorais, séries históricas, cruzamentos de variáveis sociais. O argumento é construído por acumulação. A narrativa se ergue por demonstração.

E é nesse terreno que a eleição de 2002 assume seu papel inaugural. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva não é tratada como um simples triunfo eleitoral. Ela é interpretada como a formação de uma maioria política com base social ampliada. Lula não vence apenas como líder partidário. Ele articula uma coalizão que atravessa classes, regiões, interesses. Há trabalhadores, há setores populares, há segmentos médios, há frações empresariais. O eleitorado ainda não está rigidamente organizado por identidades políticas cristalizadas. Há mobilidade. Há fluidez. Há margem para deslocamentos.

É um país que ainda não se reconhece dividido.

Mas esse quadro começa a se alterar no decorrer do primeiro governo Lula. Jairo Nicolau identifica um fenômeno central. Um realinhamento eleitoral. Esse conceito não é acessório. Ele é estruturante. Significa que os eleitores não apenas escolhem candidatos em eleições específicas. Eles reorganizam suas preferências de maneira duradoura. Políticas públicas, especialmente aquelas voltadas para os setores de menor renda, produzem efeitos que vão além do campo econômico. Produzem vínculos políticos. Criam identificação. Reconfiguram expectativas sociais.

A eleição de 2006 torna visível esse movimento. O apoio ao lulismo se consolida entre os mais pobres. O Nordeste emerge como território de forte adesão. A oposição começa a perder capilaridade nos segmentos populares e passa a concentrar apoio em áreas de maior renda.

Surge, ali, o embrião de uma divisão.

Ainda não há polarização intensa. Mas há diferenciação.

A eleição de 2010 confirma a consistência desse padrão. A vitória de Dilma Rousseff indica que o lulismo não depende exclusivamente da figura de Lula. Há uma base social estruturada que sustenta esse projeto político. O mapa eleitoral mantém estabilidade. Regiões reproduzem comportamentos anteriores. Mas sinais de tensão começam a atravessar o sistema. A oposição se reorganiza. As clivagens regionais se tornam mais visíveis. O voto passa a refletir, com maior nitidez, as diferenças sociais.

E então chega 2014.

Uma eleição que não é apenas disputada. É tensa. É apertada. É reveladora.

A diferença mínima entre os candidatos expõe um país que já não é o mesmo. A retórica política se torna mais agressiva. O debate público se intensifica. A rejeição ao adversário passa a ocupar um lugar central no comportamento do eleitor. O voto deixa de ser apenas escolha. Passa a ser também recusa.

É aqui que o sistema começa a se deslocar de competição para antagonismo.

A partir de 2015, o livro adentra um território decisivo. A crise. Não uma crise isolada. Uma crise múltipla. Econômica, política, institucional, representativa. A economia desacelera. A capacidade distributiva do Estado diminui. Escândalos corroem a confiança nas instituições. Partidos perdem credibilidade. Lideranças são questionadas.

O sistema entra em desgaste.

E o eleitor percebe.

O efeito desse cenário sobre o comportamento eleitoral é profundo. O voto deixa de ser predominantemente pragmático. Torna-se mais carregado de emoção, de moralidade, de identidade. O antipetismo emerge como uma força estruturante. Não é apenas rejeição a um partido. É uma forma de pertencimento político. Uma identidade negativa que organiza preferências.

O eleitor muda.

E muda de forma qualitativa.

A eleição de 2018 representa a ruptura. A vitória de Jair Bolsonaro não é tratada como um acidente histórico. É interpretada como consequência de um processo. Um sistema que perdeu sua capacidade de mediação. Um eleitorado que busca alternativas fora das estruturas tradicionais. Uma campanha que se organiza por novas formas de comunicação, especialmente as redes sociais.

O sistema partidário perde centralidade.

A política se personaliza.

A mediação se enfraquece.

O eleitor se conecta diretamente com lideranças.

É uma reconfiguração.

E ela não é superficial.

Um dos aspectos mais sofisticados da análise de Jairo Nicolau está na transformação da natureza do voto. Ao longo das duas décadas analisadas, o voto deixa de ser predominantemente econômico. Passa a incorporar dimensões culturais. Morais. Religiosas. Identitárias. O eleitor não escolhe apenas quem governa melhor. Escolhe quem representa o que ele é.

E isso muda tudo.

Votos baseados em identidade são mais estáveis. Mais resistentes. Menos voláteis. Criam vínculos duradouros. Sustentam divisões persistentes.

A polarização ganha estrutura.

A eleição de 2022 consolida esse processo. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro evidencia um país organizado em dois grandes campos. A volatilidade eleitoral diminui. Os eleitores se mantêm mais fiéis às suas posições. A rejeição ao adversário se torna central. A eleição é decidida na margem, mas dentro de uma estrutura já definida.

O país não está apenas dividido.

Está estruturado em torno dessa divisão.

Jairo Nicolau demonstra que essa divisão não é homogênea. Ela se organiza por clivagens. A clivagem regional é evidente. O Nordeste se consolida como base do campo progressista. O Sul e partes do Sudeste apresentam maior inclinação à direita. A clivagem socioeconômica também é consistente. Renda e posição social influenciam o voto. A clivagem cultural ganha força. Escolaridade, religião, valores passam a moldar o comportamento político.

Essas clivagens dão estabilidade ao sistema.

Transformam a divisão em estrutura.

O sistema político, por sua vez, se transforma. Partidos perdem protagonismo. Lideranças ganham centralidade. A lógica de coalizão cede espaço à lógica de confronto. A democracia continua funcionando. Eleições ocorrem. Resultados são aceitos. Mas o ambiente político é mais tenso. Mais conflituoso. Menos propenso ao consenso.

A política se reorganiza em torno do dissenso.

A conclusão de Jairo Nicolau é direta. Sem concessões. O Brasil tornou-se um país dividido como resultado de um processo histórico identificável. A polarização não surge de forma abrupta. Ela é construída. Ela é acumulada. Ela é estruturada por transformações sociais, econômicas e culturais que reorganizam o comportamento dos eleitores.

A leitura de O País Dividido exige disposição.

Exige abertura.

Exige coragem intelectual.

Não há atalhos. Não há simplificações. Há um esforço contínuo de compreender o Brasil a partir de evidências. Um livro que não busca agradar. Busca esclarecer. Um livro que não oferece conforto ideológico. Oferece interpretação rigorosa. Um livro que não reforça ilusões. As desmonta.

E talvez seja exatamente por isso que sua leitura se torna indispensável.

Porque compreender o Brasil contemporâneo exige abandonar certezas fáceis.

E encarar, com lucidez, a complexidade de sua divisão.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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