A ascensão da extrema direita no Brasil está relacionada, em parte, ao enfraquecimento das organizações que historicamente ajudaram a mobilizar eleitores de esquerda. A avaliação é da socióloga política Elizabeth McKenna, em artigo de opinião publicado pelo jornal norte-americano The New York Times na segunda-feira (5).
Segundo ela, a sindicalização no Brasil caiu quase pela metade entre 2012 e 2025. Para a socióloga, a redução da presença dos sindicatos representa uma mudança importante na forma como parcelas da população são organizadas e mobilizadas politicamente.
Os sindicatos tiveram papel histórico na formação de bases políticas ligadas à esquerda brasileira, especialmente entre trabalhadores urbanos. Além da atuação nas relações trabalhistas, essas organizações funcionaram durante décadas como espaços de mobilização social, formação política e participação em campanhas eleitorais.
Na análise publicada pelo New York Times, a perda desse espaço abriu uma oportunidade para que outras organizações passassem a desempenhar parte dessas funções. Entre elas, McKenna destaca as igrejas evangélicas e as redes conservadoras que se expandiram no país.
Igrejas ocupam espaço de mobilização
Para a socióloga, as igrejas evangélicas passaram a exercer uma influência que vai além da esfera religiosa. A presença dessas instituições em comunidades e a criação de redes de relacionamento ajudaram a estabelecer novos canais de comunicação e mobilização.
Elizabeth relaciona esse processo ao crescimento da base política do bolsonarismo. Na avaliação apresentada no artigo, redes religiosas e conservadoras conseguiram ocupar parte do espaço deixado pelo enfraquecimento de organizações tradicionalmente associadas à esquerda.
O fenômeno ocorre em um cenário de transformação da participação política no Brasil. A mobilização de eleitores deixou de depender exclusivamente de estruturas partidárias, sindicatos e organizações sociais tradicionais e passou a incorporar redes religiosas, grupos comunitários e ambientes digitais.
Queda da sindicalização
A redução da sindicalização é um dos principais pontos utilizados pela pesquisadora para sustentar sua análise. De acordo com a socióloga, a proporção de trabalhadores sindicalizados caiu quase pela metade entre 2012 e 2025.
A diminuição da participação sindical significa, na avaliação da autora, uma perda de capacidade das organizações de esquerda para manter vínculos permanentes com parcelas do eleitorado.
Esse processo não representa, necessariamente, o desaparecimento dessas organizações, mas altera sua capacidade de mobilização. Com menos trabalhadores vinculados aos sindicatos, diminui também uma das estruturas que historicamente serviram de ponte entre demandas sociais, movimentos políticos e partidos de esquerda.
Expansão das redes conservadoras
Enquanto organizações tradicionais da esquerda perderam parte de sua capacidade de mobilização, Elizabeth aponta o crescimento de redes conservadoras como um dos elementos que contribuíram para a mudança do ambiente político brasileiro.
As igrejas evangélicas aparecem nesse processo como estruturas com presença territorial e capacidade de comunicação direta com suas comunidades. Para a autora, essa rede ajudou a criar novos espaços de articulação política e a ampliar a circulação de pautas associadas à direita.
A análise também relaciona esse processo à consolidação do bolsonarismo como uma força política capaz de mobilizar eleitores para além das estruturas tradicionais dos partidos.
Mudança no cenário político
A tese apresentada por McKenna é que a ascensão da direita brasileira não pode ser explicada apenas por fatores eleitorais ou pela atuação de lideranças políticas. Para a socióloga, é necessário observar também as mudanças nas organizações que estruturam a participação política da população.
Nesse cenário, a perda de força dos sindicatos teria reduzido um dos principais mecanismos de mobilização historicamente associados à esquerda, enquanto igrejas e redes conservadoras passaram a ocupar parte desse espaço.
O argumento ajuda a interpretar a mudança na composição das bases políticas brasileiras nas últimas décadas, especialmente o crescimento de movimentos ligados à direita e a consolidação do bolsonarismo.







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