A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi seguida por uma nova onda de hostilidade contra os nordestinos nas redes sociais. Monitoramento da Ativaweb DataLab contabilizou cerca de 14,7 milhões de menções ofensivas à região entre a noite de domingo (25), quando ocorreu o segundo turno, e as 16h de quarta-feira (28).
No período, o levantamento identificou 18.567.871 menções relacionadas ao Nordeste e ao resultado eleitoral. Desse total, 79,3% foram classificadas como críticas e 20,7% como manifestações em defesa da região, onde Lula obteve sua maior votação.
Os dados foram divulgados pela coluna de Carlos Madeiro, do portal UOL. A análise reuniu publicações, comentários, links e compartilhamentos que associavam o Nordeste, seus moradores ou os estados nordestinos ao resultado das urnas.
Ofensas ultrapassam a disputa eleitoral
Segundo o estudo, a reação ao resultado não se limitou a divergências sobre candidatos ou preferências políticas. O monitoramento identificou ataques dirigidos aos nordestinos como grupo, com referências depreciativas à inteligência, às condições econômicas e à identidade regional.
“A crítica não ficou no campo do debate político. Ela desencadeou um vocabulário ofensivo que atinge o povo nordestino como grupo: palavras que questionam sua inteligência, associam a região à miséria e à dependência, comparam pessoas a animais e a doenças e chegam a defender a separação do território do restante do país. Esse discurso tem alcance nacional. A análise abrangeu o Brasil inteiro, e os ataques partem de usuários de todas as regiões do país, com forte presença de perfis do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste, que se dirigem ao Nordeste como se a região fosse um corpo estranho ao país”, diz um trecho do estudo.
O documento também apresenta a seguinte avaliação:
“O índice indica que a conversa não foi um debate equilibrado entre visões, e sim uma maré quase unidirecional, na qual a defesa da região ficou em posição majoritária”, afirma o estudo.
Embora o trecho utilize a palavra “majoritária” para descrever a defesa da região, os percentuais apresentados pelo próprio levantamento mostram que essas manifestações representaram a menor parcela das menções.
Hostilidade se repete nos dois turnos
O volume de ataques registrado após o segundo turno ficou abaixo dos cerca de 27 milhões contabilizados nas 72 horas posteriores à votação de 4 de outubro. Naquele primeiro monitoramento, aproximadamente 82% das 32,8 milhões de menções tinham caráter ofensivo.
“Somados, os dois períodos reúnem 51.446.082 menções sobre o voto nordestino, das quais 41.750.211 têm tom crítico à região.”
Para Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab, a proximidade entre os percentuais de hostilidade nos dois períodos indica a persistência desse discurso.
“A hostilidade recuou apenas 2,9 pontos percentuais [em comparação ao primeiro turno], e os ataques seguem em posição claramente minoritária. Quando o tom quase não muda entre um turno e outro, não estamos diante de uma reação. Estamos diante de uma convicção”, afirma.
A referência a ataques em posição “minoritária”, presente na declaração, também contrasta com os números divulgados: as menções críticas corresponderam a 79,3% do total no segundo turno.
Perfis masculinos concentram críticas
Entre os autores das manifestações críticas, 52,3% eram perfis identificados como masculinos e 24,5% como femininos. Nos outros 23,2%, não foi possível fazer essa identificação.
“A predominância masculina acompanha um padrão já observado em outros estudos sobre discurso político e agressividade nas redes, nos quais homens tendem a ser maioria entre os autores de manifestações de confronto. No caso do Nordeste, o dado ajuda a qualificar quem sustenta a conversa e reforça que o ataque à região tem um perfil de autoria bem definido”, diz trecho do estudo.
O levantamento abrangeu Facebook, Instagram, TikTok e X, além de comentários no YouTube e no Kwai. Os números se referem às menções capturadas nessas plataformas, incluindo compartilhamentos, e não à quantidade de pessoas que participaram dos ataques.







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