MP contraria delação de Lessa e pede condenação do ex-vereador Girão como mandante de homicídio

Promotoria acusa Girão de ordenar assassinato de ex-policial e namorada; ex-PM confessa crime, mas isenta político da participação

O Ministério Público do Rio de Janeiro surpreendeu ao apresentar, na madrugada desta quinta-feira (22), pedido de condenação contra o ex-vereador Cristiano Girão, apontando-o como mandante do homicídio do ex-policial André Henrique da Silva Souza, conhecido como Zóio, e de sua namorada Juliana Sales de Oliveira, ocorrido em 2014. Segundo informa o jornal Folha de S. Paulo, a decisão da Promotoria contraria diretamente a delação premiada do ex-PM Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco (PSOL), que admitiu a autoria do crime, mas isentou Girão de qualquer envolvimento.

O caso será julgado pelo 3º Tribunal do Júri, onde jurados decidirão sobre a responsabilidade criminal de Girão e Lessa pelas mortes do casal. Em seu interrogatório, Girão negou qualquer participação, afirmando que estava preso entre 2009 e 2016, cumprindo pena por comandar uma milícia na região da Gardênia Azul. “Não sei mais o que fazer para que eu não seja visto como esse criminoso contumaz”, declarou o ex-vereador.

A Promotoria sustenta que Girão ordenou o assassinato de Zóio em razão de uma disputa pelo controle da milícia na região. O promotor Eduardo Martins ressaltou que a colaboração de Lessa prevê que informações falsas podem anular os benefícios do acordo, e comentou: “Por que ele iria correr o risco de proteger o Girão? Não sei. A mente do criminoso não é igual a minha e a dos senhores. […] Qual motivo de ser leal ao Girão? Não sei. […] O que sei é que o que ele falou até agora não tem corroboração. A corroboração não existe. Muito pelo contrário. As provas começam a desdizer o que ele falou.”

Essas declarações referem-se especificamente ao crime contra Zóio e Juliana, mas reforçam parte da tese da defesa dos acusados de mandarem matar Marielle Franco, que contestam a veracidade da delação do ex-PM e apontam que o real mandante do assassinato da vereadora seria Cristiano Girão. Essa linha de defesa, que envolve também Domingos Brazão, o ex-deputado Chiquinho Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa, encontra-se em fase final no Supremo Tribunal Federal (STF).

Antes da Polícia Federal assumir a investigação em 2023, Girão já era um dos principais suspeitos de ordenar o assassinato de Marielle, crime que, segundo a investigação, teria sido uma retaliação contra as investigações da CPI das Milícias, liderada pelo ex-deputado Marcelo Freixo, então chefe do gabinete de Marielle.

O ex-vereador passou sete anos preso, a maior parte em regime federal, após se tornar foco central da CPI. A investigação sobre a morte de Zóio e Juliana, que liga Girão a Lessa, foi um esforço inicial para esclarecer o assassinato de Marielle, mas perdeu força após a delação do ex-PM, que afastou Girão da participação no caso.

Desde 2021, Girão está preso preventivamente por causa dessa acusação. Ele afirma que as acusações contra si são “uma cortina de fumaça” para proteger os verdadeiros mandantes do assassinato de Marielle. “Isso foi uma cortina de fumaça. Virou uma possibilidade de descarregar tudo em mim”, afirmou.

Em seu acordo de colaboração, Ronnie Lessa afirmou que não conhece Cristiano Girão e justificou sua confissão pelo desentendimento com Zóio, relacionado à recusa em ceder uma participação nos lucros de máquinas de músicas e fliperamas que operava na Gardênia Azul. “Não conheço o Girão. Não teria porque proteger ele”, declarou o ex-PM.

O julgamento no Tribunal do Júri deve ser decisivo para o desenlace desse complexo capítulo da história recente do Rio de Janeiro, marcado por violência, milícias e impunidade. A disputa entre versões e provas ainda mantém em aberto a busca por justiça para as vítimas.

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