Caso Marielle: investigadores descobrem que Girão foi à Delegacia de Homicídios de madrugada, poucas horas após mandado contra ele ser expedido

Descoberta só foi possível porque a PF levantou suspeitos de mandar matar a parlamentar e verificou que o acusado de comandar milícia da Gardênia acionou o Wi-Fi da própria polícia

Menos de 24 horas após a Justiça expedir um mandado de busca e apreensão contra o ex-bombeiro e ex-vereador Cristiano Girão Matias, em 24 de agosto de 2020, ele compareceu à Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) sem ter sido convocado oficialmente e durante a madrugada. Na época, Girão estava sendo investigado como um dos suspeitos de ser o mandante da morte da vereadora Marielle Franco e pela execução de um miliciano rival, o ex-policial André Henrique da Silva, conhecido como André Zóio. Fontes envolvidas nas investigações da fase do mando, em âmbito federal, confirmaram a ida de Girão à DHC após a análise de seu celular. O aparelho havia sido utilizado pela última vez na delegacia, quando o ex-bombeiro se conectou ao Wi-Fi da própria polícia.

A descoberta só foi possível porque investigadores da Polícia Federal, ao rastrear os passos de todos os suspeitos de serem os mandantes, apuraram que Girão acessou o Wi-Fi da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) em 25 de agosto de 2020, às 0h47, usando a senha da delegacia: “dhcapital2019”. Segundo o relatório dos peritos, a senha de acesso ficou registrada no aparelho do suspeito.

Somente em 9 de setembro, duas semanas após a expedição do mandado assinado pelo juiz do 3º Tribunal do Júri, Alexandre Abrahão, as buscas foram realizadas na casa de Girão. O celular foi apreendido, mas, de acordo com os investigadores, após o episódio na DHC, o ex-bombeiro não utilizou mais o aparelho. Nenhum dado relevante foi encontrado no dispositivo.

Além de celulares, o magistrado autorizou a apreensão de agendas, cadernos de anotações, notebooks, computadores, HDs externos, cartões de memória, armas, munições e acessórios. O pedido foi feito pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ) e pela DHC, como parte da operação denominada Déjà Vu. Como Girão possuía residências no Rio de Janeiro e em São Paulo, as buscas ocorreram em ambos os locais. No entanto, apesar das investigações da Polícia Federal, que começaram em fevereiro do ano passado, nada foi encontrado contra Girão.

No ano passado, após as delações dos assassinos confessos, os ex-policiais Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, Girão deixou de ser considerado suspeito de ser o mandante da morte de Marielle. Segundo Lessa, os verdadeiros mandantes do crime são os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e deputado federal, respectivamente —, além do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa. Os três estão presos em presídios federais.

Em 2008, Girão foi denunciado pela CPI das Milícias, presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), por supostamente chefiar uma organização criminosa na Gardênia Azul, Zona Oeste do Rio. Após ser condenado por formação de quadrilha, ele ficou preso por oito anos, cumprindo a maior parte da pena em presídios federais de Campo Grande (MS) e Porto Velho (RO), até ser beneficiado por um indulto em agosto de 2017.

Em 2021, Girão voltou a ser preso, acusado da morte de André Zóio e sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, ocorrida em 14 de junho de 2014, na Gardênia Azul. O casal foi morto dentro de um Honda Civic prata, dirigido por Zóio, que foi cercado por uma Fiat Doblo prata, ocupada por três homens, em frente à sede da Associação de Moradores da Gardênia. Miliciano da região, Zóio estava levando Juliana para o trabalho quando ambos foram fuzilados com 40 tiros. O crime estaria relacionado à disputa pelo controle da Gardênia.

A testemunha Ronnie Lessa fala no terceiro dia de audiência ao STF sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes — Foto: Reprodução
A testemunha Ronnie Lessa fala no terceiro dia de audiência ao STF sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes — Foto: Reprodução

Lessa teria confessado sua participação no crime, conforme consta em um dos anexos de sua delação premiada, ainda sob sigilo, e isentou Girão de ser o mandante do homicídio do casal. Com base na colaboração premiada de Lessa, o advogado de Girão, Zoser Hardman, solicitou a revogação de sua prisão, mas o pedido foi negado pela Justiça. A defesa planeja impetrar um habeas corpus no Tribunal de Justiça para reverter a decisão.

— O Cristiano (Girão) está preso pelo caso do Zóio, mas o próprio Lessa já afirmou que não conhece meu cliente. As provas nos processos, tanto do caso de Zóio quanto do de Marielle, confirmam isso. Não há nada contra Cristiano. Sobre o caso do telefone, ele só esteve na Delegacia de Homicídios em duas ocasiões: quando prestou depoimento e ao ser preso, em 2021. Ele morava em São Paulo e não viria ao Rio sem ser formalmente intimado. Cristiano não tem amigos na DH — afirmou a defesa do ex-vereador.

Com informações do GLOBO.

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