Nos últimos meses, motoristas de aplicativo passaram a figurar entre as vítimas de crimes registrados na Zona Oeste do Rio. Execuções, desaparecimentos e o encontro de corpos em regiões como Bangu e Santa Cruz chamam a atenção para a exposição desses trabalhadores em áreas marcadas por controle territorial de grupos armados e altos índices de violência.
Em 13 de setembro do ano passado, Luiz Alberto Silva Freitas, de 50 anos, foi executado a tiros enquanto realizava uma corrida na região do Catiri, em Bangu. O carro em que ele estava, um Ka Sedan branco, estava com mais de 20 marcas de tiros. Os alvos eram dois passageiros que ocupavam o banco traseiro — eles ficaram feridos e acabaram presos em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
Já em 15 de janeiro deste ano, o motorista de aplicativo Deivison da Silva desapareceu ao sair para buscar uma encomenda em Santa Cruz. Morador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ele fez o último contato com a irmã pouco antes de desaparecer.
A familiar enviou à Agenda do Poder um print. No texto, a vítima encaminha uma mensagem sobre o corpo de um outro motorista de aplicativo ter sido encontrado na João XVII com um alerta: estaria proibida a circulação dos profissionais na região por ordem da milícia. “Estou com medo. Eu vim aqui em Santa Cruz pegar um iPhone de um cliente, e uns caras pararam a gente”, escreve Deivison.

A vítima morta ao qual ele se referia era Carlos Gilberto Ferreira de Queiroz, de 30 anos. Quatro dias antes, ele havia desaparecido ao pegar uma corrida de Campo Grande para o Conjunto Liberdade, próximo à Avenida João XXIII. Na região, a família encontrou o carro da vítima carbonizado. O corpo só foi localizado no dia 15 de janeiro, na Baía de Sepetiba. Carlos deixa um filho.
“Carlinho sempre foi um homem muito tranquilo, extremamente ligado à família. Como pai, era muito presente na vida do filho. Ligava todos os dias, buscava, levava na escola, ficava com ele nos fins de semana. E quando não buscava durante a semana, fazia questão de vir aqui visitar”, conta a ex-mulher Jessica Castro, 26 anos, técnica de enfermagem.
Aumento da violência
Embora não haja dados oficiais específicos sobre crimes contra motoristas de aplicativo, números do Instituto de Segurança Pública (ISP) ajudam a contextualizar o cenário das regiões onde os casos ocorreram.
Na área de Santa Cruz, a letalidade violenta passou de 91 registros em 2024 para 105 em 2025. O número de pessoas desaparecidas também cresceu, de 273 para 314 no mesmo período. Em Bangu, os registros de letalidade violenta subiram de 156 para 181, enquanto os desaparecimentos permaneceram estáveis: 214 em 2024 e 213 em 2025.
“A gente tem na Zona Oeste um território em disputa por diferentes grupos armados que querem, de forma diferenciada, submeter a população de várias formas. Uma delas é com relação a prestação de serviços, e o de transportes é um deles. Os mais diferentes grupos armados têm a sua franquia de transportes alternativos, chegando até essa modalidade de transporte por aplicativo”, explica Lenin Pires, antropólogo e professor do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em agosto do ano passado, a Polícia Civil descobriu um aplicativo de transporte clandestino criado por integrantes do Comando Vermelho para extorquir motociclistas na Vila Kennedy. As investigações indicam que o cadastro do desenvolvedor foi feito em nome de terceiros, conhecidos como laranjas.
O aplicativo era chamado de Rotax Mobili, e tinha como slogan a frase: “O único aplicativo de viagens de carro e moto que passa pela barricada e te deixa na porta de casa”.
“Vamos respeitar, entendeu? Se não estiver levando isso à risca, já sabe, né? Vão vir depois falar que ‘nóis’ é carrasco, que ficamos entrando no caminho. Quem não quiser, vai ficar na boca de fumo, vai caçar trabalho de carteira assinada, não fica dando dor de cabeça, vai vender bala, água no sinal. Vamos se ligar”, diz um dos traficantes na divulgação do aplicativo.
Os mototaxistas eram obrigados a usar esse aplicativo, que simulava ser uma plataforma legal de mobilidade urbana, semelhante a de outras empresas já usadas no Rio. O objetivo, no entanto, era financiar o tráfico de drogas. Os outros apps de transporte eram proibidos de atuar na região.
“Não surpreende que esteja acontecendo isso [ataque a motoristas de aplicativo], e se deve também a vulnerabilidade desses profissionais. A partir do momento que se sabe que ele é um motorista de aplicativo em uma área de interesse de grupos armados, ele está suscetível a esse tipo de violência para resguardar esses territórios para as estratégias comerciais desse grupo”, completa Pires.
Entre fronteiras invisíveis
Lenin aponta que os motoristas de aplicativo se tornam especialmente vulneráveis quando circulam entre territórios controlados por diferentes grupos armados, independentemente de qualquer vínculo com essas áreas.
“Ele pode ser o morador de uma área comandada pelo Comando Vermelho que está trafegando por uma área de Terceiro Comando Puro. E isso pode acontecer com qualquer um de nós. Essa representação de ser de uma área, somada a ele ser um motorista de aplicativo, isso o torna alguém muito vulnerável do ponto de vista das ações desses grupos […] Eu diria que o ideal é que esse profissional não seja tão conhecido pelo tráfico, não seja identificado para além do território”.
Daniel Edler, pesquisador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF), completa apontando que esses trabalhadores circulam, muitas vezes, sem conhecer as fronteiras informais impostas por grupos armados.
“É difícil a gente pensar em uma política pública que seja capaz de reduzir a violência para motoristas de aplicativo que não seja criar uma consciência situacional, onde circular e onde não circular […] eles entenderem a dinâmica da própria violência na cidade e tomar decisões mais bem informadas sobre para onde ir e não ir”, destaca o especialista.
“A gente tem, no Rio de Janeiro um fenômeno, que para a população carioca já se tornou corriqueiro mas que não é normal, que são aplicativos avisando onde tem tiroteio. Muita gente que acessa as redes sociais para saber onde ir, se é seguro ir. Isso não é um fenômeno nacional, é só do Rio onde, infelizmente, as pessoas demandam saber, em tempo real, onde está tendo violência para tomar decisões”, completa.
Daniel explica que a lógica de atuação de grupos armados envolve não apenas a disputa por território, mas também a exploração econômica e a imposição de normas de conduta à população.
“O grupo armado tem que extrair recursos econômicos dos mercados legais e ilegais em determinado território, tem que ditar a norma de conduta para os moradores e tem que sustentar o controle por meio do uso da força.”
Daniel Edler, pesquisador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni / UFF)
“E ai pode ser uma força mais efetiva, de cometer um assassinato e deixar o corpo [na rua] mostrando ‘olha só, aqui quem manda sou eu’; ou pode ser uma força mais simbólica, como uma pichação dizendo que aqui quem controla é determinado grupo”, detalha o especialista.
Milícia vs tráfico
A Zona Oeste do Rio vive hoje um cenário de tensão marcado pela disputa territorial entre a maior milícia do estado, ligada a Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, e o Comando Vermelho, como Agenda do Poder vem mostrando em uma série de reportagens especiais assinadas pelo repórter Herculano Barreto Filho. O avanço e o recuo desses grupos armados têm redefinido fronteiras informais em bairros da região, afetando diretamente a circulação de moradores e trabalhadores.
Antes de ser o Bonde do Zinho, a milícia mais forte do estado era chamada de Liga da Justiça. Com o assassinato do fundador, o ex-policial civil Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e a prisão do ex-PM Toni Angelo, a família Braga assumiu o controle.
Quem ditava as regras era Carlinhos Três Pontes, ex-traficante que mudou a forma de atuação do grupo e expandiu os negócios também para a Baixada Fluminense. Ele morreu em uma operação policial em 2017, dando a vez para o seu irmão mais novo, Wellington da Silva Braga, o Ecko, assumir a liderança. Quatro anos depois, ele também acabou sendo assassinado em confronto com as forças de segurança. Foi então que Zinho assumiu o grupo paramilitar.
“De maneira mais forte, a gente vê, a partir dos anos 2000, a expansão da milícia. É difícil distinguir os diferentes grupos, mas existe a disputa entre eles. Por exemplo, depois da morte do Ecko, houve disputa sucessória no grupo que levou, inclusive, a abrir uma brecha de oportunidade para o Comando Vermelho tentar se expandir por áreas controladas pelo Bonde do Ecko. Mas, de fato, é uma mostra da falência da política pública”, explica Edler.
Zinho, no entanto, se entregou à Polícia Federal em 2023. O grupo é atualmente chefiado por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval, ex-fuzileiro naval. Ele assumiu o comando depois que Rui Paulo Gonçalves Estevão, o Pipito, foi morto também em uma operação policial em junho de 2024.
Em 8 de outubro, nos episódios mais recentes de violência envolvendo os grupos armados, vídeos divulgados nas redes sociais mostraram um intenso tiroteio durante uma suposta invasão de milicianos à Vila Kennedy, área sob domínio do Comando Vermelho. Segundo relatos de moradores, ao menos três traficantes teriam morrido na ação.
A ofensiva seria uma resposta a um vídeo divulgado horas antes por criminosos do CV, que se exibiam armados de fuzis e afirmavam ter invadido a favela de Antares, em Santa Cruz — um dos principais redutos da milícia na Zona Oeste.
O principal nome da facção hoje em liberdade é Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, com base na Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio. Ele está abaixo apenas de Marcinho VP e Fernandinho Beira-Mar, detidos em penitenciárias federais.
Doca foi alvo da Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro. Considerada a operação mais letal da história do estado, a ação deixou 122 mortos. O traficante conseguiu escapar.

UPPs, crise do Estado e expansão de grupos armados
Para Edler, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) representaram, no passado, uma tentativa de retomada do controle territorial, mas carregavam problemas estruturais desde a sua implementação.
“A gente tentou, perto de 2010, 2014, 2015 e 2016, retomar parte do controle territorial com as UPPs, que se mostraram muito problemáticas em vários sentidos. Elas eram muito custosas, se tornaram uma bandeira política e se expandiram de uma maneira muito rápida, muito mais por interesse do governador [Sérgio Cabral] e da elite política do Rio de Janeiro do que pela real capacidade das forças de segurança”, diz.
“As UPPs tinham uma série de problemas, mas, se você olhar os dados tanto de controle territorial quanto os de violência urbana, a gente tem uma espécie de vale nessa curva. 2012, por exemplo, talvez seja o melhor ano dessa série histórica desde os anos 1980 no Rio de Janeiro, em termos de homicídios e também de mortes cometidas por policiais”.
O enfraquecimento das UPPs coincidiu com uma crise política e econômica mais ampla no estado do Rio de Janeiro, criando condições para a expansão de grupos armados em diferentes regiões.
“Com esse processo de falência, a gente viu também uma espécie de falência política e econômica do Estado. Tivemos o Sérgio Cabral preso, o Pezão preso, Witzel sofrendo impeachment. O Rio de Janeiro entra no acordo federal para a recomposição do orçamento, não consegue manter os investimentos em segurança pública, mas também em outras áreas que eram fundamentais. E aí tem a expansão rápida da milícia e do Comando Vermelho”, pontua.
População submissa ao crime
Lenin Pires destaca que a restrição à circulação de motoristas de aplicativo afeta não apenas os trabalhadores, mas também a população que depende desse tipo de transporte, sobretudo em regiões com oferta precária de serviços públicos.
“A população se vê cerceada no acesso a um serviço que é alternativo às péssimas condições de transporte como no Rio de Janeiro. […] um lugar onde as políticas de transportes são muito mal organizadas e desfavorecem a população como um todo. Nessas regiões, como na Zona Oeste, a coisa é muito mais grave. Então piora muito a situação desses grupos, que perdem ainda mais elementos da sua cidadania”, destaca.
Na avaliação do pesquisador, a dificuldade em enfrentar esse cenário passa pela relação cada vez mais complexa entre o Estado e as organizações criminosas no Rio de Janeiro.
“No Rio de Janeiro eu diria que o estado e as organizações criminosas estão em uma relação cada vez mais promíscua, das mais diferentes formas e a partir dos mais diferentes atores. A gente percebe um grau de envolvimento de atores do mundo da política, dos negócios, do mundo religioso, com esses grupos. O que torna muito difícil pensar em saídas para lidar com esse fenômeno. “
Lenin Pires, antropólogo e professor do Departamento de Segurança Pública da UFF
A dor que fica
A ex-mulher de Carlos conta que, assim como a maioria dos motoristas de aplicativo que hoje trabalham no Rio, ele tinha medo de rodar pela cidade.
“Ele tinha medo das ruas, dos locais [que circulava a trabalho] porque a gente vê todos os dias diversas notícias de violência, e não tem como não sentir medo”, desabafa.

Sempre presente na vida do filho, de 5 anos, a morte precoce do motorista agora deixa um buraco na família. A criança, apegada ao pai, ainda não consegue entender o que aconteceu.
“Mesmo diante de tudo, ainda tínhamos esperança de encontrá-lo com vida. E quando a informação da morte veio, foi uma dor devastadora. Na vida do nosso filho o impacto foi enorme. Estamos fazendo acompanhamento psicológico, oferecendo todo o acolhimento que ele precisa nesse momento”, afirma.
Sobre as investigações
Procuradas, as polícias Civil e Militar informaram que os casos citados estão sob investigação e destacaram ações de enfrentamento ao crime organizado e de apoio às vítimas.
A Polícia Civil informou que as mortes são investigadas pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Segundo a instituição, agentes realizam diligências para esclarecer as circunstâncias dos crimes e identificar os responsáveis. Já o desaparecimento é apurado pela Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA), que conduz trabalhos de inteligência para localizar o motorista.
“A Polícia Civil esclarece que atua, por meio das distritais e especializadas, de forma permanente, estratégica e baseada em inteligência no enfrentamento ao crime organizado. Os agentes trabalham para prender todas as lideranças responsáveis por ordenar ataques e ações que coloquem a população em risco”, diz a nota.
A Polícia Militar, por sua vez, afirmou que crimes como extorsão e exploração clandestina de serviços costumam ocorrer de forma velada, o que torna a participação da população fundamental no enfrentamento a essas práticas.
A corporação informou ainda que vítimas ou trabalhadores que se sintam ameaçados podem acionar os canais oficiais de denúncia, como o telefone 190, a Ouvidoria da Secretaria de Estado de Polícia Militar e o aplicativo 190RJ, que permite registro gratuito e com garantia de anonimato.
Segundo a PM, quando suspeitos são identificados em situação de flagrante, eles são presos e encaminhados à delegacia da região para que os fatos sejam apurados pela autoridade policial competente.
O que dizem as plataformas
Em nota conjunta, empresas associadas à Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) — que reúne plataformas como 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Flixbus, Lalamove, Shein, Uber e Zé Delivery — afirmaram que a segurança de motoristas parceiros e usuários é uma prioridade em suas operações.
Segundo a associação, as plataformas investem continuamente em ferramentas tecnológicas voltadas à proteção durante as viagens, com recursos que atuam antes, durante e depois dos deslocamentos. Entre as medidas citadas estão o compartilhamento de localização em tempo real com contatos de confiança e a gravação de áudio dentro dos veículos.
A Amobitec informou ainda que acompanha relatos de restrições ao acesso de veículos de aplicativo a áreas consideradas perigosas ou com alta incidência de crimes. A entidade afirmou ser favorável a iniciativas do poder público que tenham como objetivo coibir a criminalidade e garantir a liberdade de escolha do meio de transporte, assegurando o direito de ir e vir da população.
“Em alguns Estados, existe a integração das plataformas com o sistema 190, que permite ao motorista acionar uma ferramenta de emergência que envia os dados da viagem em tempo real para as centrais de atendimento da Polícia Militar. A Amobitec entende que segurança pública é um dos maiores desafios da sociedade brasileira e as ações contra a insegurança envolvem diferentes atores, em um trabalho em conjunto”, diz a nota.


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