O cinema brasileiro perdeu nesta quarta-feira (22) um de seus maiores nomes. O produtor Luiz Carlos Barreto, conhecido nacionalmente como Barretão, morreu aos 98 anos, no Rio de Janeiro, encerrando uma trajetória que atravessou mais de sete décadas de transformações no audiovisual brasileiro e ajudou a consolidar algumas das obras mais importantes da cinematografia nacional.
A morte foi confirmada por sua filha, a produtora Paula Barreto. Segundo a família, Barretão estava internado desde segunda-feira no Hospital Copa Star. Há dois anos e quatro meses, ele havia sofrido um acidente que o deixou paraplégico.
Além da filha Paula, ele deixa a esposa e parceira de toda a vida, a produtora Lucy Barreto, o cineasta Bruno Barreto, netos e uma filmografia que ultrapassa 70 produções e atravessa diferentes fases do cinema brasileiro, do Cinema Novo à Retomada.
Sua assinatura está presente em clássicos como “Vidas Secas”, “Terra em Transe”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Bye Bye Brasil”, “Memórias do Cárcere”, “O Quatrilho” e “O Que É Isso, Companheiro?”, entre muitos outros.
O velório foi marcado para esta quinta-feira (23), às 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Após a cerimônia, o corpo será cremado no Memorial do Caju, na região central.
Da infância no Ceará ao fotojornalismo
Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Luiz Carlos Barreto costumava dizer que sua própria existência já era uma vitória.
Na época em que nasceu, apenas três em cada dez crianças sobreviviam ao primeiro ano de vida. Ele afirmava, com orgulho, que fazia parte desse pequeno grupo de sobreviventes — uma metáfora que acabou refletindo toda sua trajetória profissional.
Ainda jovem iniciou a carreira no jornal O Democrata, ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Com o fechamento do periódico em 1947, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades.
Foi contratado pela revista O Cruzeiro, principal publicação ilustrada do país naquele período, onde construiu carreira como repórter e fotógrafo.
Na redação conviveu com nomes importantes do fotojornalismo brasileiro, como José Medeiros, de quem se tornou admirador. Enquanto outros fotógrafos buscavam imagens cuidadosamente elaboradas, Barreto absorveu de Medeiros a valorização da simplicidade e da força do registro documental.
Essa formação marcaria definitivamente sua maneira de enxergar o cinema.
O encontro com Glauber Rocha mudou sua vida
A passagem como correspondente internacional na França aproximou Barreto do universo cinematográfico.
Ele chegou a ingressar no Idhec, tradicional escola francesa de cinema, mas abandonou o curso poucos dias depois. Preferia aprender acompanhando filmagens e frequentando estúdios do que em salas de aula.
De volta ao Brasil, conheceu Glauber Rocha durante as filmagens de “Barravento”.
A amizade entre os dois acabaria mudando os rumos de sua carreira.
Glauber sugeriu seu nome como corroteirista de “Assalto ao Trem Pagador” e, pouco tempo depois, insistiu para que Barreto assumisse a direção de fotografia de “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos.
Inicialmente, ele resistiu.
Argumentava que era fotógrafo de imagens estáticas, não de cinema.
Glauber, porém, acreditava que justamente essa diferença renovaria a linguagem cinematográfica brasileira.
O resultado confirmou a aposta.
Barreto eliminou os tradicionais filtros usados nas filmagens da época, valorizou a luz intensa do sertão nordestino e criou uma fotografia marcada por contrastes fortes, considerada revolucionária para o cinema nacional.
Pouco depois repetiria a parceria com Glauber Rocha em “Terra em Transe”, novamente explorando a iluminação natural e construindo uma estética que se tornaria referência.
Nascimento da L.C. Barreto e consolidação como produtor
Em 1963, Luiz Carlos Barreto fundou, ao lado de Lucy Barreto, a produtora L.C. Barreto.
A empresa rapidamente se transformaria em uma das mais importantes do país.
Sua estreia como produtor integral aconteceu em 1965, com “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, dirigido por Roberto Santos.
Nas décadas seguintes, especialmente durante os anos 1970 e 1980, Barretão consolidou-se como o principal produtor do cinema brasileiro.
Nesse período, ajudou a produzir sucessos que equilibravam qualidade artística e grande alcance popular.
Sua visão era clara: o cinema brasileiro deveria disputar espaço com a televisão como meio de comunicação de massa, sem abrir mão da qualidade.
Foi essa filosofia que orientou produções como “Bye Bye Brasil”, de Carlos Diegues; “Como Era Gostoso o Meu Francês” e “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos; “Menino do Rio”, de Antônio Calmon; “Inocência” e “Ele o Boto”, de Walter Lima Jr.
Dona Flor levou o cinema brasileiro ao mundo
Nenhum filme representou melhor a filosofia de Barretão do que “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por Bruno Barreto em 1976.
Baseado na obra de Jorge Amado, o longa tornou-se um fenômeno de público, reunindo quase 11 milhões de espectadores no Brasil.
Além do sucesso nacional, a produção conquistou reconhecimento internacional, recebeu indicações ao Bafta e ao Globo de Ouro e projetou Sonia Braga como estrela mundial.
O filme permanece como um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro.
A Retomada e a busca pelo Oscar
Mesmo após o fim da Embrafilme, Barreto conseguiu manter sua produtora ativa durante o difícil período da Retomada do cinema nacional nos anos 1990.
Foi responsável por dois filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
“O Quatrilho”, dirigido por Fábio Barreto, e “O Que É Isso, Companheiro?”, dirigido por Bruno Barreto, colocaram novamente o Brasil entre os destaques da premiação da Academia de Hollywood.
Essas produções reafirmaram sua capacidade de adaptar-se às mudanças da indústria sem abandonar o compromisso com um cinema voltado ao grande público.
Política, polêmicas e os últimos anos
No século XXI, Luiz Carlos Barreto continuou produzindo filmes, embora com menor protagonismo na indústria.
Entre seus trabalhos mais debatidos esteve “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2010 e dirigido por Fábio Barreto.
A produção enfrentou críticas de parte do público e foi alvo de debates sobre sua proximidade com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Apesar das controvérsias, Barreto evitou financiamento oficial para a obra, embora o filme também tenha sido questionado pelo apoio de empreiteiras privadas.
Com custo superior a R$ 17 milhões, a produção levou cerca de 850 mil espectadores aos cinemas, desempenho considerado abaixo das expectativas.
Ainda assim, críticos observaram que o longa dedicava mais atenção à trajetória pessoal de Lula e à figura de dona Lindu do que propriamente à sua carreira política.
Essa narrativa, para muitos, também dialogava com a própria história de Luiz Carlos Barreto: um nordestino que enfrentou adversidades desde a infância e construiu uma das carreiras mais importantes da cultura brasileira.
Um dos maiores nomes do cinema nacional
Ao longo de mais de sete décadas de atividade, Barretão participou diretamente da formação do Cinema Novo, da consolidação da Embrafilme, da reconstrução do cinema brasileiro na Retomada e da projeção internacional de diversas produções nacionais.
Mais do que produzir filmes, ajudou a moldar uma forma de pensar o audiovisual brasileiro, conciliando qualidade artística, identidade nacional e comunicação com o grande público.
Sua morte encerra um dos capítulos mais importantes da história do cinema no Brasil, deixando um legado que continuará presente em dezenas de obras que marcaram gerações de espectadores e influenciaram cineastas dentro e fora do país.






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