A crítica literária e professora Heloísa Teixeira morreu nesta sexta-feira (28), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), ela estava internada devido a uma pneumonia dupla. Figura central da crítica cultural no Brasil, ela deixou uma vasta produção acadêmica e literária, além de um legado marcante no feminismo e na valorização da literatura marginal. Em grande parte de sua carreira dedicada às letras, ela assinou suas obras como Heloísa Buarque de Hollanda, mas em 2024 decidiu mudar para Heloísa Teixeira.
Heloísa nasceu em Ribeirão Preto (SP) e teve uma trajetória influenciada por grandes nomes da intelectualidade brasileira. Foi assistente de Afrânio Coutinho, professor de letras na UFRJ, e trabalhou com o sociólogo Darcy Ribeiro, que a nomeou diretora do Museu da Imagem e do Som na década de 1980. No entanto, foram as mulheres que moldaram suas principais escolhas intelectuais, levando-a a se tornar uma referência no feminismo acadêmico.
Formada em letras clássicas pela PUC-Rio em 1961, iniciou sua carreira acadêmica nos Estados Unidos, onde foi assistente de pesquisa no Instituto de Estudos da América Latina da Universidade Harvard. Ao retornar ao Brasil em 1964, tornou-se docente da UFRJ, aprofundando-se no estudo de autores como José de Alencar, Lima Barreto e Mário de Andrade. Sua pesquisa de mestrado resultou no livro “Macunaíma: Da Literatura ao Cinema”, publicado em 1978.
Golpe militar marcou trajetória de Heloísa
O golpe militar de 1964 e a promulgação do AI-5, em 1968, marcaram sua trajetória. Nesse período, Heloísa presenciou a efervescência cultural e política do Rio de Janeiro, o que fortaleceu sua identidade profissional e de gênero. O feminismo ofereceu um ambiente propício para a entrada de mulheres na vida pública, algo que se refletiu tanto em sua vida pessoal – com o divórcio do primeiro marido, Luiz Buarque de Hollanda – quanto em sua atuação profissional.
Nos anos 1970, sua atenção voltou-se à poesia marginal, culminando na publicação da antologia “26 Poetas Hoje” (1976), que reuniu autores como Ana Cristina Cesar, Torquato Neto e Roberto Piva. O impacto da obra levou à sua tese de doutorado, defendida em 1979 e publicada em 1980 sob o título “Impressões de Viagem: CPC, Vanguarda e Desbunde (1960-1970)”.
Escritora aprofundou-se no feminismo e publicou antologia sobre o tema
Na década de 1980, ao lado do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, publicou “Cultura e Participação nos Anos 60”. Posteriormente, aprofundou-se nos estudos feministas durante o pós-doutorado em sociologia da literatura na Universidade Columbia e sua atuação como professora visitante em Stanford. O resultado desse aprofundamento foi a antologia “Tendências e Impasses – O Feminismo como Crítica de Cultura” (1994).
Heloísa sempre recusou a rigidez acadêmica. Fundou o Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos na Escola de Comunicação da UFRJ e, em 1994, criou o Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Em 2009, lançou o livro autobiográfico “Escolhas”, seguido por “Onde É que Eu Estou?”, em 2019. Seu projeto mais importante, no entanto, foi a Universidade das Quebradas, um laboratório que promove o encontro entre intelectuais e artistas da periferia.
Nos últimos anos, seguiu dedicada ao feminismo e à literatura. Organizou a coleção “Pensamento Feminista” (2019-2020) e a antologia “As 29 Poetas Hoje” (2021), revisitando o universo da poesia marginal sob uma nova perspectiva. Em 2024, fez uma escolha simbólica ao assinar “Rebeldes e Marginais: Cultura nos Anos de Chumbo (1960-1970)” com o sobrenome materno, Teixeira, em vez do sobrenome do ex-marido.
Descrita por amigos como generosa e visionária, Heloísa foi chamada por Luiz Ruffato de “contemporânea da contemporaneidade” e, por Zuenir Ventura, de alguém capaz de prever o movimento das ondas antes que elas se formassem. O poeta Cacaso, grande amigo, dedicou-lhe o poema “Relógio Quebrado”, que ela mesma reconhecia como o melhor retrato de sua trajetória: “Não sei parar na hora certa”.
Heloísa deixa três filhos: André, Pedro e Luiz, conhecido como Lula.
Com informações da Folha de S.Paulo





