Paulo Henriques Britto assume cadeira 30 na Academia Brasileira de Letras

Poeta, tradutor e professor sucede Heloisa Teixeira e destaca a importância da poesia e da tradução em sua trajetória

O poeta, tradutor e professor Paulo Henriques Britto tomou posse na noite desta sexta-feira (12) na cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em cerimônia realizada na sede da instituição, no Centro do Rio. O novo imortal sucede a pesquisadora e crítica literária Heloisa Teixeira, falecida em março. O evento reuniu acadêmicos, convidados e familiares, com transmissão ao vivo pelo site e pelo canal do YouTube da ABL.

Em seu discurso, Britto destacou a emoção de ingressar na casa fundada em 1897. “É para mim, como seria para qualquer escritor brasileiro, uma grande honra fazer parte desta instituição já mais que centenária. É muito importante, neste momento da minha trajetória, saber que uma grande instituição cultural dá valor ao meu trabalho”, afirmou.

Obra marcada pela poesia e pela tradução
Autor de 14 livros — oito de poesia, dois de contos, três de ensaios e um infantojuvenil a ser lançado em 2025 — Britto também se consolidou como um dos principais tradutores de língua inglesa no Brasil, tendo vertido cerca de 120 obras de autores como Virginia Woolf, Thomas Pynchon, James Baldwin e Elizabeth Bishop. Ele ressaltou em sua fala que tanto a poesia quanto a tradução foram fundamentais em sua formação literária.

No discurso, o acadêmico percorreu a trajetória dos antecessores da cadeira 30, destacando a influência de Aurélio Buarque de Holanda, célebre lexicógrafo, e a importância da obra de Heloisa Teixeira. Britto lembrou que a antologia organizada por ela, “26 poetas hoje”, marcou profundamente sua geração ao reunir autores da chamada poesia marginal dos anos 1970.

Homenagem à poesia marginal e ao espírito de ruptura
Britto relatou que, embora sua própria produção não se encaixasse diretamente no movimento, reconheceu afinidade com os autores marginais após a leitura da coletânea. “Percebi que eu e aqueles poetas tínhamos muito em comum: a sensação de não pertencermos ao mundo a que pertencíamos inevitavelmente, a repulsa aos valores autoritários e conservadores impostos a toda uma nação, o desejo irrefreável de transgredir, o fascínio pela contracultura e o impulso de escapar do clima sufocante do Brasil daquele período.”

Recepção marcada pela crítica e pelo elogio
Coube ao acadêmico Geraldo Carneiro a missão de saudar o novo imortal. Ele abriu seu discurso lendo os sonetos “Nenhuma arte” e “Fisiologia da composição”, de Britto, e destacou o caráter singular da poética do colega: “Paulo Henriques se aferra a sua antimetafísica com uma paixão notável. Seu niilismo é uma versão bossa nova do nada.”

Carneiro sublinhou ainda como o poeta equilibra tradição e subversão: “Há na obra de Paulo Henriques um projeto de demolição. Ele se ampara nos modelos da tradição e, a um só tempo, promove sua desinvenção e sua reinvenção.”

Aclamação entre os imortais
O presidente da ABL, Merval Pereira, celebrou a chegada de Britto: “É o maior tradutor de língua inglesa, grande crítico, poeta, professor, está entre os grandes da nossa literatura. Tem múltiplas funções e será muito útil para a Academia. Buscamos a representação da cultura em vários setores.”

O poeta Antonio Carlos Secchin também ressaltou o perfil do novo acadêmico, lembrando a comparação com Antonio Cicero, morto em 2024: “Na linhagem de Antonio Cicero, Paulo Henriques Britto mantém na ABL a tradição da poesia abastecida em amplo conhecimento e diálogo com o cânone da lírica ocidental.”

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