Modelo econômico de Milei elogiado por equipe de Flávio Bolsonaro perde 32 mil empresas na Argentina

Enquanto coordenadora econômica da campanha do senador defende política argentina como referência para o Brasil, país enfrenta fechamento de empresas empregadoras, perda de postos de trabalho e desaceleração econômica

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A política econômica do presidente argentino Javier Milei, apontada como referência para o Brasil por integrantes da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), enfrenta indicadores que revelam dificuldades para empresas e trabalhadores.

Desde o início da atual gestão, a Argentina perdeu mais de 32 mil empresas com empregados registrados, enquanto o mercado de trabalho formal acumula retração e as projeções de crescimento econômico foram reduzidas.

O contraste ganha relevância no debate eleitoral brasileiro após Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, afirmar que a política econômica de Milei é um exemplo a ser seguido pelo Brasil.

Na Argentina, entretanto, os resultados são desiguais: setores como mineração, energia, hidrocarbonetos e agronegócio apresentam investimentos e expansão, enquanto outros segmentos enfrentam queda na atividade, dificuldades financeiras e redução do emprego.

Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT) mostram que o país chegou a julho de 2026 com 480.067 empresas empregadoras ativas, o menor patamar registrado desde julho de 2007. A redução ocorre em meio a uma sequência de 18 meses consecutivos de queda no número de empregadores com trabalhadores formalmente registrados.

Argentina perde mais de 32 mil empresas

Em julho, a Argentina registrou 948 empresas empregadoras a menos do que em junho. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a redução acumulada foi de 15.475 estabelecimentos, equivalente a 3,1%.

O movimento também aparece nos números de 2026. O país encerrou dezembro de 2025 com 489.749 empresas empregadoras, mas perdeu 9.682 unidades até julho, uma retração de 1,97%. A comparação com o período anterior à posse de Javier Milei revela uma redução ainda maior.

Em novembro de 2023, último mês completo da gestão de Alberto Fernández, com Sergio Massa à frente da área econômica, havia 512.357 empresas registradas. Desde então, o número diminuiu em 32.290, o equivalente a 6,3% do total existente naquele momento.

Para Guido Zack, diretor da área de Economia da Fundar, a persistência dessa trajetória chama atenção.

“Desde o fim da conversibilidade, nunca antes havia sido registrado um processo tão persistente e intenso de redução do número de empresas. Para encontrar um nível semelhante ao atual (480.067 empresas), é preciso voltar exatamente 19 anos no tempo. Em outras palavras, desde julho de 2007 o país não tinha tão poucas empresas como agora”, explicou.

Queda supera perdas da pandemia

A intensidade da retração também aparece na comparação com a crise provocada pela Covid-19. Em fevereiro de 2020, antes das medidas de isolamento adotadas durante a pandemia, a Argentina contabilizava 508.187 empresas empregadoras.

Em setembro de 2021, quando a série atingiu seu menor nível naquele período, o total havia recuado para 486.782. A diferença representou uma redução de 21.405 empresas, equivalente a 4,2%.

Já a perda acumulada entre novembro de 2023 e julho de 2026 chegou a 32.290 empresas, superando em números absolutos e percentuais a contração registrada naquele intervalo da pandemia.

Apesar disso, a SRT ressalta que a redução do número de empregadores registrados não corresponde necessariamente ao fechamento definitivo de todas essas empresas.

“A queda no número de empregadores não permite identificar, por si só, a causa de cada redução. Uma quantidade menor de empregadores cobertos pode decorrer de encerramentos efetivos das atividades, mas também de reorganizações, mudanças no número de identificação fiscal (CUIT), alterações no quadro de funcionários, rescisões de contratos ou mudanças na modalidade de organização do trabalho. Por isso, as estatísticas de cobertura não permitem atribuir uma causa específica a cada redução”, esclareceu o órgão.

A estatística considera empresas públicas e privadas, além de pessoas físicas ou jurídicas com pelo menos um trabalhador formalmente registrado. Empregados domésticos não entram nessa classificação.

Custos pressionam empresas argentinas

Entre os fatores associados às dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo estão os custos operacionais, a carga tributária, as despesas logísticas e as condições de financiamento.

Segundo Guido Zack, a combinação desses elementos prejudica até empresas que apresentam produtividade suficiente para competir no mercado.

“O contexto econômico atual, caracterizado por custos elevados em dólares devido à valorização cambial, ausência de medidas para reduzir a carga tributária, aumento dos custos logísticos em razão da falta de investimentos em obras públicas e custos financeiros que não conseguem convergir para os padrões regionais, gera uma combinação extremamente hostil ao funcionamento das empresas, inclusive daquelas que, internamente, possuem produtividade suficiente para competir no mercado”, afirmou.

A avaliação aponta para dificuldades estruturais que afetam diferentes atividades econômicas, embora setores ligados à exploração de recursos naturais e à exportação continuem atraindo investimentos.

Esse desempenho desigual ajuda a explicar por que alguns segmentos apresentam expansão enquanto o conjunto das empresas empregadoras registra retração.

Emprego formal também encolhe

A redução do número de empregadores é acompanhada pela perda de postos de trabalho no setor privado argentino. Segundo o Sistema Integrado Previdenciário Argentino (SIPA), o país eliminou 10.814 empregos formais privados em junho de 2026, na comparação com maio.

Em relação ao mesmo mês de 2025, a redução chegou a aproximadamente 121 mil postos de trabalho. O total de trabalhadores registrados no setor privado passou de 6,216 milhões em junho de 2025 para 6,096 milhões em junho deste ano.

Os números de julho indicam continuidade da tendência, embora em ritmo menos intenso. De acordo com a Pesquisa de Indicadores Trabalhistas, divulgada pela Secretaria do Trabalho, o emprego recuou 0,03% naquele mês e completou sete meses consecutivos de retração.

Nos primeiros sete meses de 2026, a redução acumulada foi de 0,6%. Na comparação com julho de 2025, a queda chegou a 1,1%. Os resultados reforçam a preocupação com a capacidade de geração de empregos formais em um cenário de dificuldades para empresas de diferentes setores.

Economia recua e projeções pioram

Os indicadores de emprego e de empresas empregadoras acompanham a perda de dinamismo da atividade econômica argentina. Dados do Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE), divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), mostram que a economia recuou 2,9% em julho de 2026, na comparação com junho, considerando os ajustes sazonais.

Em relação a julho de 2025, a contração foi de 1,4%. Apesar desses resultados negativos, a atividade econômica acumulou crescimento médio de 1,7% nos primeiros sete meses do ano em comparação com o mesmo período de 2025.

A combinação de expansão acumulada com recuos recentes revela uma trajetória irregular, marcada por diferenças entre setores e dificuldades de sustentação do crescimento. Os números também provocaram revisões nas expectativas para os próximos anos.

O Banco Mundial reduziu de 3,6% para 2,1% sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) argentino em 2026. Para 2027, a instituição diminuiu a estimativa de expansão de 3,7% para 3%. As projeções reunidas pelo Banco Central da República Argentina, por meio do Relatório de Expectativas de Mercado (REM), também apontam menor crescimento.

Segundo o consenso dos analistas consultados, a economia argentina deverá avançar entre 1,2% e 1,5% em 2026. O cenário coloca em discussão os resultados do programa econômico de Milei, especialmente em relação à recuperação da atividade produtiva, à preservação das empresas e à geração de empregos.

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