Messias indica visão conservadora sobre aborto e apoio a emendas para ganhar aval do Senado

Indicado de Lula ao STF adota discurso conservador sobre temas polêmicos para conquistar votos na Casa em meio ao risco de rejeição.

O indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo Tribunal Federal, Jorge Messias, tem adotado um discurso mais conservador em conversas reservadas com senadores para tentar reduzir resistências à sua aprovação. Segundo apuração da Folha de S. Paulo, parlamentares que dialogaram com ele após a indicação relatam que Messias se posicionou contra o aborto e o uso de drogas, sinalizando que não tomaria decisões que flexibilizem a legislação brasileira nesses temas.

Esses gestos buscam agradar a setores mais conservadores do Congresso, que tradicionalmente se opõem a decisões do STF consideradas liberalizantes. Evangélico, Messias aposta na afinidade religiosa como um dos trunfos para conquistar parte da oposição ao governo.

Acenos às emendas parlamentares

Além de temas de costumes, o indicado tem dito a interlocutores que, caso ocupe uma cadeira no Supremo, não pretende criminalizar a política. Congressistas interpretam a fala como um sinal de que ele não se oporia às emendas parlamentares, mecanismo considerado essencial por senadores e deputados para atender suas bases eleitorais.

Essa posição é avaliada como uma tentativa de se diferenciar de Flávio Dino, cuja atuação no STF tem provocado desgaste com o Legislativo. Setores do Senado enxergam em Messias um possível risco às emendas, e parte da oposição tentou rotulá-lo de novo Dino para ampliar a rejeição ao seu nome. O ministro do Supremo, no entanto, não manifestou apoio público ao indicado, e aliados de Messias avaliam que o silêncio ajuda a reduzir tensões.

Pontos sensíveis: obras paradas e mineração em terras indígenas

Durante reuniões, senadores questionaram Messias sobre obras paralisadas por decisões judiciais relacionadas à legislação ambiental e sobre a exploração mineral em terras indígenas. O indicado se classificou como desenvolvimentista, afirmando não ser favorável à paralisação de obras e nem totalmente contrário à atividade econômica nesses territórios. Ele destacou, porém, que a mineração só deve ocorrer após consulta à população indígena afetada.

A assessoria do indicado foi acionada pela Folha para comentar as informações, mas não respondeu até a publicação.

Risco de rejeição e disputa política no Senado

A campanha de Messias ocorre em um ambiente adverso. A escolha de Lula contrariou expectativas no Senado, especialmente do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que preferia a indicação de Rodrigo Pacheco. O gesto provocou desgaste entre governo e Senado, até então o principal aliado do Planalto no Legislativo.

A sabatina inicialmente prevista para 10 de dezembro foi cancelada porque o governo não havia enviado a documentação necessária para iniciar o processo de avaliação. Segundo aliados, Lula buscava ganhar tempo até consolidar votos suficientes. Alcolumbre reassumiu o controle do calendário e, segundo Randolfe Rodrigues, a sabatina ficou para o ano que vem.

Apoiadores de Messias têm alertado senadores de que barrar o nome agora pode resultar em uma nova indicação mais à esquerda, possivelmente de uma mulher negra, o que aumentaria o custo político de uma futura rejeição.

Agenda de articulação e encontros com senadores

Mesmo diante do adiamento, Messias intensificou as conversas. Na noite de terça-feira (2), participou de um jantar organizado pelo senador Carlos Viana, com presença de parlamentares evangélicos, ministros do STF e outras lideranças. Na manhã seguinte, reuniu-se com Beto Faro e Nelsinho Trad, além de conversar com a bancada feminina, à qual afirmou estar comprometido com o enfrentamento ao feminicídio.

Abordado pela reportagem nos corredores do Senado, o indicado disse: “Continuo meu trabalho da mesma forma”.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading